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    Nashville é reduto country que atrai roqueiros desde Dylan

    ALAN LIGHT
    DO "THE NEW YORK TIMES"

    04/04/2015 03h00

    Muito se falou nos últimos anos da expansão de Nashville para além da comunidade da música country, já que roqueiros como Jack White, a dupla Black Keys e a banda Kings of Leon se mudaram para cá a fim de aproveitar a história, o ambiente e infraestrutura da chamada Cidade da Música dos EUA.

    Mas esta não é a primeira vez que artistas de fora do country são atraídos para Nashville.

    No final dos anos 1960 e início dos 70, dezenas de bandas de rock e folk viajavam a Tennessee e de lá saíam com grandes sucessos e gravações clássicas.

    Essa época está documentada em "Dylan, Cash e os Nashville Cats: Uma Nova Cidade da Música", ambiciosa exposição montada no Hall da Fama e Museu do Country.

    Torsten Blackwood/AFP
    Bob Dylan, em foto de 2011
    Bob Dylan, em foto de 2011

    A mostra aponta para as três forças primárias por trás da migração para os estúdios Music Row: a viagem de Bob Dylan até aqui para gravar o álbum "Blonde on Blonde", em 1966; o programa de TV "The Johnny Cash Show", gravado no Auditório Ryman de 1969 a 1971; e um grupo extraordinário de músicos de estúdio conhecidos como Nashville Cats, que tocou em praticamente todas essas gravações, incluindo álbuns de Neil Young, Leonard Cohen, Simon & Garfunkel e três dos quatro Beatles.

    "Quando Bob Dylan veio, ele mudou o que as pessoas achavam de Nashville", disse Michael Gray, editor do museu do Hall da Fama. "Naquela época, Nashville era vista como uma cidade sulista conservadora, que não seguia as tendências da música pop -basicamente, um lugar atrasado. Mas, depois que Dylan esteve aqui, as pessoas entenderam."

    A montagem da exposição reflete essa dinâmica inesperada e frutífera. Além de alas dedicadas a Dylan e Cash, o espaço é cercado por painéis que mostram as cidades e os ambientes de onde os músicos vieram.

    Há instrumentos, artefatos e estações de escuta com 16 músicos que formavam o núcleo dos Nashville Cats -nomes como Norbert Putnam, Hargus Robbins (conhecido como "Pig") e Kenny Buttrey.

    O movimento começou quando o produtor Bob Johnston convidou Charlie McCoy, que visitava Nova York em 1965, para aparecer em uma das sessões de gravação de Dylan. Este pediu a McCoy que pegasse uma guitarra e o acompanhasse na música seguinte, "Desolation Row".

    McCoy disse suspeitar que tenha sido usado por Johnston "como isca para fazer Bob vir a Nashville". Impressionado com a rapidez com que o músico de apoio era capaz de aprender uma nova música, Dylan aceitou viajar ao sul para fazer seu disco seguinte. Em sua autobiografia "Crônicas", de 2004, Dylan escreveu que, chegando a Nashville, a "cidade parecia estar numa bolha de sabão. Eles quase colocaram Al Kooper, Robbie

    Robertson e eu para correr da cidade por causa dos nossos cabelos compridos".

    No entanto, sua viagem resultou em "Blonde on Blonde", que ele mais tarde descreveria à revista "Playboy" como sendo o álbum que esteve "mais perto do som que escuto na minha cabeça".

    Dylan voltaria à cidade para os seus três discos seguintes.

    "Uma vez que ele colocou o carimbo de aprovação em Nashville", disse McCoy, "foi como se comportas se abrissem".

    Logo os Nashville Cats estavam fornecendo a espinha dorsal de álbuns como "Sweetheart of the Rodeo", dos Byrds, e "Songs From a Room", de Cohen. A banda The Lovin' Spoonful gravou inclusive um tributo intitulado "Nashville Cats".

    Essa foi também uma época de ouro para a música country, e os Nashville Cats passaram a gravar com gigantes como Loretta Lynn, Merle Haggard e George Jones.

    Charlie Daniels, que liderou as paradas do country em 1979 com "The Devil Went Down to Georgia", foi o músico desse grupo que mais sucesso obteve na carreira solo.

    "Os músicos de estúdio em Nashville, pelo menos aqueles com os quais eu trabalhei, não se limitavam de forma alguma a um só gênero musical", disse Daniels por e-mail. "Eles eram capazes de fazer uma sessão de rhythm and blues na parte da manhã, uma sessão de country no período da tarde e uma sessão de rock à noite."

    O afluxo aumentou depois da estreia do "The Johnny Cash Show". Cash recebia artistas jovens e de fora do country, como Joni Mitchell, James Taylor e Derek and the Dominos, a banda de Eric Clapton.
    A amizade de Dylan com Cash solidificou ainda mais esses laços entre as comunidades do country e do rock.

    Em 1974, depois que Paul McCartney passou seis semanas em Nashville para gravar várias músicas, incluindo o hit "Junior's Farm", as visitas ilustres à Cidade da Música começaram a rarear.

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