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    Exposição e filme focam ruína de Orson Welles no Brasil

    MARCO RODRIGO ALMEIDA
    DE SÃO PAULO

    11/04/2015 02h15

    "Chegou ontem a Fortaleza Orson Welles, o gênio de Hollywood", saudou o jornal cearense "O Povo" em 9 de março de 1942. O diretor americano estava no Brasil havia um mês e por onde passou recebeu aclamação semelhante.

    Tinha então só 26 anos, mas já era reconhecido internacionalmente como prodígio do teatro, do rádio e do cinema.

    Como exemplo basta dizer que, um ano antes, lançara seu primeiro filme como diretor, "Cidadão Kane", frequentemente apontado como o maior da história do cinema.

    Nada parecia dar errado na carreira do "boy genial" (como a ele se referiam por aqui), mas bastou pisar em solo brasileiro para tudo desandar.

    Quase seis meses depois Welles saiu do Brasil carregando um filme que nunca seria concluído ("É Tudo Verdade") e a pecha de artista perdulário, irresponsável, que por capricho não terminava seus projetos. "Foi o desastre chave de minha história", definiu.

    Welles (1915-1985) completaria cem anos no próximo dia 6 de maio. Dois eventos em São Paulo lhe prestam homenagem e jogam luz sobre o período que passou no Brasil.

    "É Tudo Verdade - Baseado em um Filme Inacabado de Orson Welles", de 1993, será exibido no festival de documentários de mesmo nome. O filme recupera parte das cenas que Welles filmou no Brasil.

    Já o Museu Afro Brasil inaugura neste sábado (11) uma exposição com 25 imagens do fotógrafo Chico Albuquerque (1917-2000) sobre os bastidores das filmagens de Welles nas praias de Fortaleza.

    BOA VIZINHANÇA

    Em fins de 1941, Welles recebeu do Departamento de Estado norte-americano a incumbência de fazer um filme para consolidar os laços com a América Latina. Era a época política da boa vizinhança, iniciativa de difundir o estilo de vida americano e conquistar o apoio da região na Segunda Guerra. Assim que acabaram as filmagens de "Soberba", seu segundo longa, Welles tomou o avião para o Rio.

    A ideia original era dividir "É Tudo Verdade" em três partes. A primeira foi filmada no México por Norman Foster. As outras duas ficaram a cargo de Welles. Uma delas seria sobre o Carnaval carioca.

    O diretor nada sabia da festa momesca, mas foi bem guiado pelo ator Grande Otelo (1915-1993) e pelo músico Herivelto Martins (1912-1992). Esbaldou-se na noite carioca, ficou fascinado pelo samba e até inventou um drinque, o "samba de Berlim", mistura de Coca-Cola com cachaça.

    O acordo EUA-Brasil esperava uma peça de propaganda oficialesca, mas o irrequieto cineasta tomou um caminho oposto. Embrenhou-se na cidade, filmou favelas, a população negra e sua cultura. Deixou os produtores americanos e o governo de Getúlio Vargas de cabelo em pé.

    "Hoje Welles só filmou um monte de negrada pulando para cima e para baixo", queixou-se um gerente da RKO, estúdio que financiava o filme.

    As relações ficaram ainda mais estremecidas depois que a RKO cortou uns 40 minutos e refilmou cenas de "Soberba" enquanto Welles estava no Rio.

    O outro episódio de "É Tudo Verdade" dirigido por Welles dramatizou um fato real que alcançou bastante repercussão na imprensa nacional e estrangeira.

    Em 1941, quatro homens navegaram de Fortaleza em em direção ao Rio em uma pequena e frágil jangada, ao longo de 61 dias, para apresentar reivindicações da classe ao presidente Vargas.

    TRAGÉDIA

    Welles reuniu os quatro jangadeiros para recontar a história. Começou pelo fim, o desembarque na então capital federal. No dia 19 de maio, ocorreu uma tragédia durante as filmagens. Uma forte onda derrubou os quatro homens. Manuel Olímpio Meira, o Jacaré, líder dos jangadeiros, sumiu no mar e nunca mais foi encontrado.

    Depois de muito impasse, Welles conseguiu autorização do estúdio para filmar em Fortaleza o início do episódio, a dura rotina dos jangadeiros, como homenagem a Jacaré.

    As filmagens ocorreram principalmente no arraial Mucuripe, hoje um bairro populoso de Fortaleza. Welles usou como atores pessoas da própria comunidade, muitas das quais nunca haviam visto um filme antes.

    Quase 50 minutos do episódio cearense foram montados décadas depois, a partir de indicações de Welles. São as cenas mais impressionantes de "É Tudo Verdade". Com parcos recursos, extraiu grande beleza ao retratar uma comunidade praieira perdida no tempo.

    A profundida de campo e a câmera baixa, duas marcas estilísticas de Welles, marcam alguns dos melhores momentos do episódio, como o enterro de um jangadeiro.

    As filmagens fora de estúdio, de baixo orçamento e com atores não profissionais anteciparam vários movimentos cinematográficos, como o neorrealismo italiano e o cinema novo brasileiro.

    "É um belíssimo trabalho de composição de quadro, de aproveitamento de nossa luz intensa. E sobretudo descreve uma paisagem física e social de valor etnográfico", conta Firmino Holanda, professor de cinema da Universidade Federal do Ceará e autor de "Orson Welles no Ceará" (2001).

    Durante as filmagens no Ceará, a RKO mudou de donos, e a relação azedou de vez. O diretor e sua equipe, no Brasil e nos EUA, foram demitidos. O filme, arquivado.

    Os negativos do filme ficaram perdidos perdidos durante 40 anos. Foram enfim localizados num depósito do estúdio Paramount no começo dos anos 1980. Reconstruído parcialmente por Bill Krohn, Myron Meisel e Richard Wilson (este último integrou a equipe de Welles no Brasil), "É Tudo Verdade" foi finalmente lançado em 1993, oito anos após a morte do diretor.

    OBSESSÃO

    A passagem de Welles pelo Brasil foi uma obsessão do cineasta brasileiro Rogério Sganzerla (1946-2004). Ele dedicou quatro filmes ao assunto: "Nem Tudo É Verdade" (1986), "A Linguagem de Orson Welles" (1990), "Tudo É Brasil" (1997) e O "Signo do Caos" (2005).

    Assim como Welles, Sganzerla foi um jovem prodígio, começou sua carreira com uma obra-prima, "O Bandido da Luz Vermelha" (1968), e depois, por uma série de motivos, encontrou uma dificuldade imensa para rodar e lançar seus filmes.

    Na visão de Sganzerla, o infortúnio que se abateu sobre "É Tudo Verdade" e a carreira futura de Welles representa a própria impossibilidade de ser fazer cinema no Brasil, a vitória da burocracia e da boçalidade contra a imaginação e arte.

    "Orson Welles, quando veio ao Brasil, tentou provar que o cinema é uma verdade maior que a vida. Tentou filmar de forma livre a nossa sociedade, com a maior boa vontade para com os homens. Lançou as bases do cinema moderno, de cinema novo brasileiro, das vanguardas internacionais", declarou Sganzerla.

    Pode-se dizer que "É Tudo Verdade" é o maior filme nunca concluído, mas Welles pagou caro por ele. Nunca mais teve os mesmos recursos técnicos e financeiros de "Cidadão Kane".

    "Foi uma tragédia para Welles e para o cinema", diz Catherine L. Benamou, professora da Universidade da Califórnia e autora de "It's All True: Orson Welles's Pan-American Odyssey" (2007).

    "Por outro lado, ter filmado no Brasil significou um enriquecimento cultural sem paralelo na vida dele. Abriu novas possibilidades estilísticas que se manifestaram na fase madura do trabalho dele. Aprendeu a filmar nas paisagens sem muitos recursos, trabalhando com luz natural, com câmera na mão", completa.

    Ela cita como exemplo os clássicos "Grilhões do Passado" (1955), "A Marca da Maldade" (1958) e "Falstaff" (1965).

    Welles atuou em dezenas de filmes e programas de TV de segunda linha para financiar os próprios projetos. Alguns não chegaram a ser concluídos ("The Deep", "Don Quixote").

    Pelo menos um poderá ser visto em breve. "The Other Side of the Wind", iniciado em 1970, estreia em 6 de maio nos EUA.

    ORSON WELLES ENTRE O POVO BRASILEIRO
    QUANDO abertura hoje, às 13h; de ter. a dom., das 10h às 17h
    ONDE Museu Afro Brasil - av. Pedro Álvares Cabral, s/n; tel. (11) 3320-8900
    QUANTO R$ 6 (qui. e sáb. grátis)

    "É TUDO VERDADE - BASEADO EM UM FILME INACABADO DE ORSON WELLES"
    QUANDO neste sábado (11), às 15h
    ONDE Centro Cultural São Paulo - r. Vergueiro, 1.000, tel. (11) 3397-4002

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