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    Crítica: 'Chacrinha, O Musical' é um passo atrás em dramaturgia

    NELSON DE SÁ
    DE SÃO PAULO

    13/04/2015 02h22

    Década de 1940, antes de existir TV, o radialista Chacrinha já era tema de marchas de Wilson Batista, Zé Keti, Nestor de Holanda. No samba deste último, o próprio surgia ao fundo, buzinando e dizendo: "Tereziiii-nha...!".

    É o que conta José Ramos Tinhorão em "Música Popular: Do Gramofone ao Rádio e TV" (ed. 34). Nos anos 50, na TV Tupi, ele "cedo soube compreender a imagem, institucionalizando sua 'loucura' na roupa estapafúrdia".

    Mas o Chacrinha do musical de Pedro Bial e Andrucha Waddington se concentra na Globo, onde só foi parar em 1967. Com maniqueísmo de telenovela, opõe um libertário e frágil Chacrinha ao vilão José Bonifácio de Oliveira Sobrinho –então o principal executivo, hoje fora da emissora.

    É esse cruel Boni quem o força a voltar após cinco anos para a Tupi, saindo mais tarde para a Band. Seguem-se dez anos do que o musical trata como ostracismo e depressão.

    Chacrinha só volta a ser feliz quando retorna à Globo e ao sucesso na década de 80.

    Mas essa narrativa linear e pobre, que resulta em personagens inverossímeis, tem concorrente quanto ao que é pior em "Chacrinha, o Musical": a própria música.

    Lenise Pinheiro/Folhapress
    Renan Mattos com Ney Matogrosso e Stepan Nercessian como Chacrinha no musical
    Renan Mattos com Ney Matogrosso e Stepan Nercessian como Chacrinha no musical

    A trilha se desculpa na seleção eclética, na diversidade adotada por seus programas para amontoar 67 hits, a grande maioria sem qualquer relação com o apresentador a não ser ter tocado no rádio ou na TV. Não foram necessariamente projetadas ou sequer programadas por ele.

    O personagem, na verdade, só ganha estofo graças à caracterização de Stepan Nercessian, no andar, nos movimentos. Sua voz rouca obviamente não foi preparada para o canto, mas até nisso o ator soa genuíno, fiel ao original, de timbre tão parecido.

    Como em "Elis, o Musical", da mesma produtora, a carioca Aventura, é sobretudo no retrato de seu protagonista que o espetáculo se salva. E um pouco também, como naquele, pelo talento do coreógrafo Alonso Barros, que é ainda diretor de movimento, incluindo os de Nercessian e das chacretes.

    O mesmo não se pode dizer da direção de arte de Gringo Cardia, longe de seus melhores momentos. Ele também se perde na "diversidade" e acaba desperdiçando um artista que soube tão bem "compreender a imagem".

    De maneira geral, em relação a outro musical da Aventura, "Se Eu Fosse Você", "Chacrinha" é um largo passo atrás, sobretudo em dramaturgia, em associação das músicas à trama, enfim, em contar a história.

    CHACRINHA, O MUSICAL
    ONDE Teatro Alfa, r. Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. (11) 5693-4000
    QUANDO qui., 21h; sex., 21h30; sáb., 16h e 20h; dom., 19h
    AVALIAÇÃO bom
    QUANTO R$ 50 a R$ 180

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