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    Depoimento: Rubem foi pioneiro; Dalton é nosso maior autor

    SÉRGIO SANT'ANNA
    DE ESPECIAL PARA A FOLHA

    07/05/2015 02h20

    Em 1969, escrevi um texto para o "Suplemento Literário Minas Gerais", com o título "A propósito de 'Lucia McCartney'", em que dizia que Rubem Fonseca vinha para inovar e que a literatura brasileira estava cansada do provincianismo de Curitiba, numa referência a Dalton Trevisan.

    Naquele tempo eu ainda não tinha sacado o Dalton. Ele era mais antigo na praça, e eu o considerava um contista ultrapassado com essas histórias de joões e marias, sempre os mesmos temas, enquanto o Rubem trazia coisas novas, um urbano que ninguém fazia, com a qualidade que ele fazia e a virulência que ele trazia.

    Só algum tempo depois entendi que o negócio do Dalton era uma invenção de linguagem total, que ele havia transformado o conto num contexto até internacional. Aquele formato que ele emprega, do texto curtinho, com uma economia total de meios e uma verve incrível, aquilo é único.

    Encontrei-o uma única vez, no início dos anos 1970, já no Rio, na sede da editora Civilização Brasileira.

    Daniel Marenco/Folhapress
    RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, XX-XX-2013, XXh00: Retrato do escritor Sergio Sant'Anna, 72, em sua residencia, em Laranjeiras, Rio de Janeiro. Sergio lanca o livro "O Homem-Mulher", pela Companhia das Letras. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress, ILUSTRADA) ***EXCLUSIVO FOLHA***
    Retrato do escritor Sérgio Sant'Anna, 72, em sua residencia, em Laranjeiras, Rio de Janeiro.

    Não tive coragem de falar com ele, por medo de ele estar bravo com meu texto de anos antes para o "Suplemento Literário", do qual eu já tinha me arrependido muito.

    De todo modo, reparei num detalhe bem "trevisânico": ele usava um sapato de cordão preto, calça social e uma meia até a canela. Estava muito engomadinho para os padrões do Rio. Na obra dele existem muitos detalhes curiosos como esse, que valem por um personagem inteiro.

    Histórias Curtas
    Rubem Fonseca
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    Com o Rubem tive mais contato. Mandei livros para ele, inclusive o meu primeiro, "O Sobrevivente" (1969), e ele respondeu com uma carta, como viria a acontecer nos livros seguintes, ele sempre muito generoso.

    Rubem Fonseca abriu um campo na literatura brasileira. É um escritor excelente, embora a maior força de sua obra esteja naquele começo. Dele, estou lendo o recém-lançado "Histórias Curtas", bastante original. Há no livro uma certa "nonchalance" que me agrada muito, como se o autor não estivesse nem aí.

    Dalton Trevisan, ao contrário do que pensei inicialmente, é novíssimo até hoje, um autor de primeiro time, o maior escritor brasileiro vivo.

    SÉRGIO SANT'ANNA, 73, é escritor, autor de "O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro" e "O Voo da Madrugada", entre outros. Depoimento extraído de entrevistas a Marco Rodrigo Almeida e Raquel Cozer.

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