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    Antologia prova que a literatura erótica brasileira é sublime

    JULIANA FRANK
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    15/07/2015 02h20

    Para ser aceita nas mesas e mentes catedráticas, talvez apenas para ser aceita, a literatura erótica, fescenina ou pornográfica ainda precisa ser justificada com misticismos grandiloquentes e desgastes de explicações. A culpa é dos senhores e toda nossa se o obsceno beira os direitos imorais e cínicos.

    A caríssima escritora e o caro escritor têm, enfim, a missão de lidar com o lado escondido de qualquer humanidade. Por isso, por provar que nossa literatura erótica é sublime, a "Antologia da Poesia Erótica Brasileira" não precisa pedir licença ao entrar.

    É a bíblia do erotismo nacional, com 504 páginas. Permite que o leitor acesse da vulva de Alice Ruiz à apolínica besta famulenta de Augusto dos Anjos.

    O prazer está em ter um volume com 255 poemas escritos nos últimos quatro séculos por autores brasileiros, misturando estilos e formas. Gregório de Matos e Hilda Hilst, enfim, juntos, numa bacanal metafísica.

    E, a um virar de página, topamos com o soturno Vicente de Carvalho, até encontrar os belos poemas do vivíssimo Arnaldo Antunes.

    Nessa festa venusiana, entre muito bons e outros ótimos, encontramos grandes poemas anônimos. E um brinde à velha amizade entre o erotismo e o anonimato.

    Exímia organização a de Eliane Robert Moraes, que declara na apresentação ter dado a si mesma, em outras palavras, a missão de organizar a casa do capeta, como quem procura a calcinha no escuro após uma sessão de sexo com o deus Hades e, ao final do gozo, não se dá por metida.

    Sapecação em baixo floreamento, eu sei, mas inspirada pela vasta leitura. "O sexo funciona como potente amuleto para espantar a morte", brada a idealizadora, invencível.

    Literatura ou putaria? Literatura ou erotismo? O que absolve um livro com descrições sexuais é seu valor literário ou histórico. Bom argumento. Mas e as confissões?

    "Eu tenho uns amores –quem é que os que não tinha/ Nos tempos antigos? –Amar não faz mal;/ As almas que sentem paixão como a minha/ Que digam, que falem a regra geral." (Casimiro de Abreu)

    Nesta vida, é preciso voluntariar-se a algumas belezas. Mas aí vai do gosto de cada qual, como diria o porteiro do meu prédio. "Me faz gozar os mais febris assombros/ Pois eu vivo, entre o céu e o inferno voando,/ Com as asas de Lúcifer nos ombros." (Wenceslau de Queiroz)

    BRAVATAS SEXUAIS

    O Brasil, terra conhecida por ser irrigada com o sêmen da diversão, acusada de teatralizar o sexo com amostras de "bundas redundas" ou adorar Drummond, que, como não tinha nada para fazer, "namorava as pernas da lavadeira", pariu relatores que gritaram suas e nossas bravatas sexuais, com orgulho feérico ou humildade vencida. Encontrados nesse livro cheio de classe, todo ilustrado por Arthur Luiz Piza.

    Ah, e esse amor, segundo Marçal Aquino, "sexualmente transmissível", culpado de todo e qualquer pecado em entranhas das boazinhas às meninas de má fama. "Se você não me agarrar todinha/ aqui agora mesmo/ só me resta morrer." (Dalton Trevisan)

    Depois de um sexo bom, assim como depois de um livro ótimo, não há muito o que dizer. Só aquele grunhido murmurado, quietinho, uma piscadela de um olho que revela apenas: uau! Gostei.

    Antologia da Poesia Erótica Brasileira
    Eliane Robert Moraes
    livro
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    E como já disse Henry Miller: "Leiam!". Mentira, Otto Maria Carpeaux que disse, ao defender Miller como o apóstolo da liberdade: "Foram necessárias duas grandes guerras para demonstrar que há coisa pior para combater do que livros imorais".

    ANTOLOGIA DA POESIA ERÓTICA BRASILEIRA
    ORGANIZAÇÃO Eliane Robert Moraes
    ILUSTRAÇÕES Arthur Luiz Piza
    EDITORA Ateliê Editorial
    QUANTO R$ 82 (504 págs.)
    AVALIAÇÃO ótimo

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