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    Em 'Adeus à Linguagem', Godard subverte formato da moda em Hollywood

    GUILHERME GENESTRETI
    DE SÃO PAULO

    28/07/2015 02h00

    "Há um homem, uma mulher e um cachorro. E você terá de ficar nua. É só o que precisa saber", disse o velho cineasta à atriz Héloïse Godet, segundo o relato dela.

    Munida de apenas um roteiro de duas páginas –uma delas contendo somente uma imagem abstrata– a atriz embarcou em "Adeus à Linguagem", primeiro longa em 3D de Jean-Luc Godard, um dos expoentes da nouvelle vague ainda vivos e ativos.

    Em 70 minutos, o cineasta de 84 anos (que já tinha mais de 80 quando começou as filmagens) se esbalda no recurso numa obra que foge à narrativa linear –é um ensaio visual. Com um focinho tridimensional, um cão corre pelo mato, irrompe uma torrente de provocações filosóficas ("a realidade é o refúgio dos que não têm imaginação") e os espectadores quase envesgam com sobreposições de imagens de um casal.

    Divulgação
    Heloïse Godet em cena de 'Adeus à Linguagem', de Jean-Luc Godard
    Heloïse Godet em cena de 'Adeus à Linguagem', de Jean-Luc Godard

    "É como um tiro de adrenalina no cérebro", escreveu Scott Foundas na revista especializada "Variety".

    O experimentalismo é uma marca de Godard. Desde o primeiro longa, "Acossado" (1960), ele pautou sua carreira pela subversão das convenções. Em "Filme Socialismo" (2010) já incluía cenas gravadas com câmera de celular.

    Em "Adeus à Linguagem" (2014), que estreia nesta quinta (30) no Brasil, a convenção a ser subvertida é o 3D.

    "Ele dizia que queria provar que esse recurso é inútil, que não faz sentido nenhum", diz a atriz Héloïse Godet à Folha.

    Nada estranho para um cineasta que, embora tributário de diretores dos anos de ouro do cinema americano, dá as costas à Hollywood contemporânea, onde reina o 3D.

    No lugar do esquivo Godard, é Godet quem tem dado entrevistas e comparecido a festivais –em Cannes, por exemplo, onde o diretor ausente ganhou o prêmio do júri, em 2014. "Não é que Godard despreze tudo isso, é que sempre que termina um trabalho ele já se concentra no próximo", afirma a atriz.

    A fama de explosivo fez Héloïse, 34 anos e apenas pequenas participações prévias no cinema e na televisão, esperar "pelo pior" no set. Após ser selecionada pelo diretor por meio de um site de agenciamento de artistas, teve de ser entrevistada, em vídeo, por uma de suas assistentes. Só depois, no primeiro encontro com Godard, é que recebeu o roteiro de duas páginas.

    "Ele odeia ser tratado como uma lenda: é muito quieto, mas tenta quebrar o gelo, faz piada", diz a atriz. "Só que o set é silencioso: ninguém conversa mais alto que Godard –ainda mais num filme em que ele queria que chegássemos ao nível zero da linguagem."

    No longa, Héloïse interpreta Josette, par de Gédéon (Kamel Abdeli). O casal está em crise e é observado por um expressivo cão (Roxy, xodó do próprio cineasta). Por vezes, a câmera simula o mundo que esse bicho vê: cores saturadas e imagens torturadas, "a noção abstrata do que é a vida capturada pelos olhos do cachorro", explica a atriz.

    Há um segundo casal no filme. Mas, numa das passagens mais controversas, uma cena de sexo explícito, é impossível identificar os amantes —os corpos são exibidos as cabeças, não.

    O plano gira, fica de cabeça para baixo, pululam cenas da natureza e o diretor insere, em intervalos curtos, mais aforismos: do pensador francês crítico à tecnologia Jacques Ellul –que dialoga com a profusão de iPhones e menções ao Google– a citações literárias de Sartre e Faulkner.

    Héloïse conta que tentou dar conta da abundância de referências. "Mas Godard não queria que interpretássemos aquilo, queria que sentíssemos as palavras. Estávamos enjaulados na gaiola dele."

    Com o diretor, Héloïse diz ter pouco contato ("ele não é do tipo que responde rápido a uma mensagem de texto"), a despeito da experiência intensa nas filmagens. "Guardei o cheiro de cigarro do set, aquela grande nuvem de fumaça."

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