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    Autor de 4º livro da saga 'Millenium' diz que pode escrever mais um

    RODOLFO LUCENA
    DE SÃO PAULO

    27/08/2015 16h14

    Sexo, violência, números primos, autismo, inteligência artificial e uma enorme tatuagem de um dragão. Com essa barafunda, o jornalista sueco David Lagercrantz constrói o quarto volume da série "Millennium", criada pelo também sueco Stieg Larsson (1954-2004) e aclamada como uma das franquias literárias de maior vendagem da história.

    Lançado na quinta (27) com pompa e circunstância no mundo inteiro, "A Garota na Teia de Aranha" exibe números impressionantes: chega a dezenas de países simultaneamente, com tiragem inicial de 2,7 milhões de exemplares. O que não é exatamente de surpreender, pois a série estrelada pela jovem super-hacker Lisbeth Salander e pelo jornalista investigativo Mikael Blomkvist já vendeu mais de 80 milhões de exemplares desde o lançamento, em 2005.

    Sim: os manuscritos das três novelas que originalmente formam a série foram publicados depois da morte de Larsson. Agora, seus herdeiros –pai e irmão– contrataram um escritor para produzir a continuação da franquia.

    Jonathan Nackstrand/AFP
    The author of the fourth novel in the Millennium series of crime novels, originally by Stieg Larsson, The Girl in the Spider's Web, Swedish journalist and best-selling author, David Lagercrantz, signs the books for first buyers during a midnight sell on August 27, 2015 at a local book store in Stockholm. AFP PHOTO/JONATHAN NACKSTRAND ORG XMIT: JNK07
    David Lagercrantz, autor do 4º livro da série Millenium

    A companheira de Larsson, Eva Gabrielsson, que não é herdeira legal do escritor, condena a sequência como mera manobra para faturar mais alguns milhões de dólares.

    Joakim e Erland Larsson, pai e irmão de Stieg, negam. Dizem que não se trata de fazer dinheiro rápido e que os lucros serão repassados para a "Expo", revista antirracismo da qual Stieg foi cofundador.

    Por seu lado, Lagercrantz, que não tem nada a ver com as pendengas sucessórias, se declara absolutamente entusiasmado com o projeto e os resultados de sua produção.

    "Estou exausto, em entrevistas dia e noite. Mas estou muito feliz porque as resenhas são excelentes em todo o mundo", disse ele, em entrevista por telefone à Folha.

    Mas as críticas da "viúva" são uma sombra. "Esse é o trabalho de minha vida, escrevi com paixão, não por dinheiro. A única coisa que me entristece é que ela [Eva Gabrielsson] tenha ficado tão brava. Espero que chegue a um acordo com o pai e o irmão de Larsson", afirmou Lagercrantz.

    A Garota na Teia de Aranha (Vol. 4)
    David Lagercrantz
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    A sequência, afirma ele, é muito boa para o trabalho de Larsson. "O escritores querem ser lidos. É por isso que escrevem. Agora uma nova geração de leitores vai descobrir seus livros. E vai conhecer o seu grande trabalho, de uma vida toda, que foi de lutar contra o racismo, contra a extrema direita e a intolerância, o que é hoje ainda mais importante."

    A própria trama do livro traz isso à tona, apresentando figuras da NSA, a agência norte-americana de segurança, atuando a serviço de interesses privados em conluio com grupos criminosos.

    "No tempo em que Larsson escreveu, os hackers eram indivíduos, gente fora da lei. Hoje em dia, como [Edward] Snowden mostrou, quem faz a espionagem são as corporações, os Estados. O trabalho de pessoas como Lisbeth Salander é ainda mais necessário", diz Lagercrantz.

    Antes de criar sua história, conta ele, tratou de ler e reler as tramas produzidas por Larsson, decorar os livros. "Havia muitos desafios. O maior era encontrar uma trama. Nisso, Larsson era mestre. Precisava não apenas recriar o trabalho dele, mas colocar algo de meu na história."

    Pois conseguiu. Do ponto de vista formal, o fã de Larsson vai se sentir à vontade ao abrir o volume. Logo reconhecerá a mesma estrutura dos demais livros, cada capítulo identificado por uma data ou sequência de dias, epígrafes abrindo cada uma das partes do texto.

    Salander e Blomkvist são recriados tal e qual o figurino da série, com bônus para o fã. Lagercrantz mergulha na infância da super-hacker para finalmente explicar por que a garota se tornou especialista em computação.

    O jornalista, por seu lado, precisa enfrentar ameaças à própria existência da sua revista, a "Millennium", que acaba de ser engolida por uma corporação de mídia –demissões e mudanças de rumo editorial são algumas das consequências.

    A figura mais emblemática da história é, porém, uma das vítimas: um garoto autista que se revela mestre do desenho foi o ponto de partida de Lagercrantz para produzir a trama.

    "Acordei às quatro da manhã pensando em uma história antiga, de um menino autista com capacidades especiais para o desenho. Comecei a pensar nele como uma figura espelho de Salander. Então imaginei o que poderia acontecer se um menino assim estivesse no meio de algo terrível, como um assassinato. Bang, bang! Eu tinha uma história", contou.

    De fato, uma boa história. Que ainda traz para os holofotes da trama a gêmea de Salander. Artífice de maldades, Camilla continua à solta depois de seduções, tortura e assassinatos. Sai da história como a dizer que a série "Millenium" não acaba agora.

    "Talvez eu faça, talvez eu não faça uma sequência", solta Lagercrantz, cujo livro mais conhecido até agora foi uma biografia do goleador sueco Zlatan Ibrahimovi?.

    "Atualmente estou simplesmente muito satisfeito com o trabalho, é um privilégio. Terei agora uma série de viagens de divulgação e só espero ter um tempinho livre no final do dia para tomar um copo de vinho no quarto de meu hotel e pensar no que realmente gostaria de fazer. O que eu sei é que eu não vou ser Stieg Larsson pelo resto de minha vida. Vou pegar outros desafios. Talvez escreva um quinto livro. Ou não. Vamos ver", diz, ao concluir a entrevista.

    Sim. Vamos ver.

    Leia a entrevista de David Lagercrantz na íntegra no blog Mais Corrida

    A GAROTA NA TEIA DE ARANHA
    AUTOR David Lagercrantz
    TRADUÇÃO Fernanda Sarmatz Åkesson e Guilherme Braga
    EDITORA Companhia das Letras
    QUANTO R$ 44,90 (488 págs.)

    Divulgação
    Capa do livro 'A Garota na Teia de Aranha', quarto livro da trilogia Millennium, escrito pelo jornalista David Lagercrantz ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
    Capa do livro 'A Garota na Teia de Aranha', quarto livro da trilogia Millennium

    TRECHO

    — E o que aconteceu depois?

    — Nada. Absolutamente nada, e esse talvez seja o detalhe mais estranho. O episódio simplesmente foi ignorado e, ao que tudo indica, porque o cirurgião não quis processá-la. De qualquer forma, Mikael, foi um ato de loucura. Nenhuma pessoa equilibrada entra num consultório médico para quebrar dedos de um cirurgião. Nem Lisbeth Salander em seus momentos mais desvairados faria uma coisa dessas.

    Mikael Blomkvist não estava totalmente convencido. Achava tudo muito lógico, ou pelo menos dentro da lógica de Lisbeth. (...)Teve a impressão de não ser um caso qualquer para Lisbeth, sobretudo pelo alto risco que ela havia corrido.

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