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    Bomba feminista, Amy Schumer pode ser a mulher mais engraçada do mundo

    TIM LEWIS
    DO "THE OBSERVER"

    11/09/2015 17h05

    Na suíte de hotel de Amy Schumer, há duas garrafas de água mineral e nenhum copo. Ela prefere com gás. Eu fico com a água sem gás, e me ofereço para procurar copos. "Neeem, vamos beber na garrafa", sugere a comediante e atriz de 34 anos.

    Ela se larga no sofá, enrodilha as pernas e dá um gole sedento na água. Schumer acaba de chegar de uma sessão de fotos, e está vestindo um vestido cor de pêssego, que parece caro. Está maquiada, com as unhas feitas, o cabelo bem penteado. O efeito é incongruente: ela parece uma menina que foi deixada na mão por seu par de baile de formatura.

    Comento que o vestido é bonito —porque uma roupa como aquela, e o esforço conspícuo para parecer bonita, merecem reconhecimento. Mas o vestido não foi escolha de Schumer, e com certeza nada tem a ver com seu gosto. "Não parece hilário, esse treco laranja?", ela pergunta. "Eu me sinto como o exato oposto dessa roupa e desse esmalte. Não sinto conexão alguma com minha aparência visual, neste instante."

    E que roupa ela preferiria usar? "Tudo cinza, sem maquiagem." Será por que o dia hoje está cinzento? "Oh, não", Schumer corrige. "Prefiro cinza todos os dias. Gostaria de me vestir de nuvem de chuva."

    A vida não é assim tão ruim para Schumer. Nossa conversa aconteceu em uma tarde de quinta-feira no começo de junho, e ela tinha conquistado três prêmios só naquela semana.

    No domingo anterior, sua série de comédia "Inside Amy Schumer" foi premiada na 74ª edição dos Peabody Awards, em Nova York, que celebram a excelência televisiva. Tina Fey a apresentou e sugeriu que as duas podiam "encenar um beijo lésbico muito sem graça", para que Fey pudesse "explorar a juventude" da colega. Schumer subiu ao palco e, sob pressão da audiência, as duas fizeram exatamente isso, meio sem jeito. De volta à mesa, ela descobriu via mensagem de texto que havia sido premiada como melhor atriz de comédia no Critics' Choice Television Awards, em Los Angeles.

    Na noite anterior à nossa entrevista, já em Londres, Schumer discursou por quase seis minutos ao receber o título de revelação do ano no prêmio Glamour Women of the Year, 2015.

    Com Jennifer Saunders em pé ao seu lado —"é o negócio mais engraçado que você vai ver em sua vida", Saunders havia declarado em um preâmbulo desordenado—, o monólogo de Schumer tratou de seus temas usuais: a primeira menstruação, seu alívio por não ter de posar com um pinto de plástico para fotos de revista. Mas ela se despediu com uma mensagem positiva, aconselhando: "Nunca peça desculpas por quem você é e ame a pele que você veste". O vídeo da premiação foi assistido mais de três milhões de vezes no YouTube. (Não é uma competição, mas, se você estiver pensando que nunca ouviu falar dela, o discurso de Caitlin Moran na mesma cerimônia foi assistido cerca de cinco mil vezes.)

    Schumer está no Reino Unido para promover "Descompensada", que ela escreveu e estrela. A proposta surgiu depois que o diretor Judd Apatow ("O Virgem de 40 Anos", "Ligeiramente Grávidos") ouviu, no rádio do carro, uma entrevista com ela. Schumer falou sobre roubar coisas em lojas quando era menina, sobre seu primeiro encontro com um pênis não circuncidado, e sobre como é conviver com a esclerose múltipla de seu pai. "Fiquei deslumbrado com a graça, com o frescor e com a intimidade que ela transmitia", recorda Apatow em seu novo livro "Sick in the Head: Conversations About Life and Comedy". "Dava para perceber que ela tinha histórias a contar e era muito mais que uma simples comediante. Pensei na hora que tinha de fazer um filme com ela."

    No primeiro roteiro que enviou a Apatow, o personagem dela era uma vendedora de carros usados. Apatow não achou a ideia convincente e pediu que ela escrevesse algo de mais pessoal. E foi isso que recebeu. "Descompensada" é a história de uma mulher chamada Amy que vive em Nova York, tem relacionamentos familiares caóticos e uma abordagem autodestrutiva quanto a namoros. Ela bebe demais e salta de cama em cama até que encontra um cirurgião irônico e divertido chamado Aaron (Bill Hader, que fez parte do elenco de "Saturday Night Live"), e se vê em maiores dificuldades do que costuma para dispensá-lo.

    "É uma história muito pessoal", diz Schumer. "Eu a escrevi dois anos atrás, e mais ou menos sobre mim, uma versão de mim, talvez eu um pouco mais nova." A voz dela, parte significativa de seu sucesso no humor, capaz de transmitir doçura inocente e sarcasmo conformado, agora se inclina mais na direção dessa segunda qualidade. "Eu diria que uns 48% autobiográfico."

    A entrevista, não vou mentir, parece meio emperrada, a essa altura, e por todos os 20 minutos iniciais. Muitos becos sem saída, incompreensões mútuas frequentes, pausas desconfortáveis.

    Responder a perguntas que ela com certeza já ouviu antes provavelmente tem algo a ver com isso, mas a sensação é de que o problema é mais de atmosfera: o ambiente, as roupas, talvez até a pressão de promover um filme de US$ 35 milhões que a maioria das pessoas espera que seja muito bom. Ela nunca tinha participado de uma viagem de divulgação: horas e horas de prisão domiciliar de luxo, enquanto jornalistas internacionais entram e saem do quarto em uma procissão interminável. Schumer por fim termina por admitir o fato.

    "É a primeira vez que faço isso, mas é tão ridículo", ela diz. "Não quero me vestir de idiota e falar de mim mesma. A sensação mais forte é a de que estou sendo castigada por fazer alguma coisa de que me orgulho. Imagine ter de falar o dia inteiro sobre sua escrita. Você não encheria uma banheira de água quente e cortaria os pulsos?"

    Respondo que acho que a experiência me agradaria. Schumer rebate: "Nem a pau!" E começamos a nos entender melhor depois disso.

    Há dois motivos para que as pessoas se entusiasmem tanto com Amy Schumer, especialmente nos Estados Unidos, mas mais e mais também no Reino Unido.

    A primeira é que ela é extremamente engraçada. O humor de Schumer é uma espécie de exibicionismo negativo, e deriva daquele estoque que todos temos de "coisas de que a gente tem vergonha e jamais contaremos a ninguém". Há uma cena em "Descompensada" na qual Schumer vai ao chá de bebê de sua irmã. As outras mulheres, quase todas frescas e alinhadas, revelam às amigas seus segredos mais horríveis —uma, por exemplo, tem vergonha porque permite que os filhos assistam a "Glee"—, mas quando chega a vez de Schumer, ela detalha como, depois de uma sessão de sexo especialmente vigoroso, a camisinha do parceiro grudou em seu colo do útero e ela teve de retirá-la usando o dedo como se fosse um anzol.

    Talvez inevitavelmente, a experiência realmente aconteceu a Schumer —pelo menos a parte do chá de bebê. A história que ela contou, de acordo com o que disse em seu especial "Amy Schumer: Mostly Sex Stuff", de 2012, foi muito mais explícita e embaraçosa: envolvia fazer sexo com o taxista enquanto a amiga dela dormia na traseira, quando Schumer tinha pouco mais de 20 anos. A verdade pode mesmo ser mais estranha que a ficção.

    Schumer, que em pessoa é muito menos extrovertida, parece imune a embaraços, em seu trabalho. Em abril, ela foi incluída na lista de cem pessoas mais influentes da revista "Time". A atriz Tilda Swinton escreveu, em seu depoimento, que "ela é uma bomba de honestidade. E vai te pegar".

    No tapete vermelho, antes do evento de gala da "Time" em Nova York, Schumer viu que Kanye West e Kim Kardashian estavam à sua frente e encenou uma dramática queda que terminou aos pés deles. Todo mundo entendeu a piada, exceto, talvez, Kanye, que nem sorriu. "De jeito nenhum qualquer um dos dois sabia quem eu era", disse Schumer depois. "O que de certa forma é um conforto."

    O segundo motivo para que Schumer pareça especialmente importante no momento é que ela se tornou uma poderosa voz feminista. Isso ficou claro com o discurso que ela fez nos Gloria Awards, em 2014, criados pela líder feminista Gloria Steinem para celebrar "mulheres de visão".

    A fala também começou com uma revelação pessoal embaraçosa —uma sessão matinal de sexo que ela teve na faculdade (o sujeito ligou para ela bêbado depois de virar a noite bebendo)—, que ela mais tarde percebeu ser resultado de uma perda de autoestima por se achar feia. No entanto, o momento também serviu como inspiração e como primeiro passo no caminho da recuperação. Vale a pena procurar o texto e lê-lo na íntegra, mas em sua conclusão ela diz: "Estou aqui diante de vocês, e sou maravilhosa, para vocês. Não por causa de vocês. Não sou as pessoas com quem durmo, não sou meu peso, não sou minha mãe. Eu sou eu. E eu sou todas vocês, e agradeço a todas vocês".

    "É quem eu sou", diz Schumer, quando pergunto se ela sempre teve uma agenda feminista específica. "Por isso, aconteceu naturalmente. Simplesmente fui eu mesma. Creio que as feministas estejam em boas mãos, comigo".

    Boyband encoraja Amy Schumer a se aceitar sem maquiagem

    Mais poderosos, de um jeito subliminar —definidos como "feminismo sorrateiro"—, são os vídeos de humor de seu programa "Inside Amy Schumer", que recentemente concluiu sua terceira temporada nos Estados Unidos e passa em horários esquisitos no Comedy Central britânico.

    O mais ambicioso dos episódios era uma paródia do filme "12 Homens e uma Sentença", na qual os jurados —entre os quais os atores Paul Giamatti, Jeff Goldblum e Vincent Kartheiser (de "Mad Men")— discutiam ferozmente se Schumer era "gostosa o suficiente para a TV". Lena Dunham, criadora da série "Girls", recentemente descreveu o programa como "a coisa mais importante que aconteceu na TV em muito tempo".

    Em outra cena, reverenciada e com razão, Schumer encontra Julia-Louis Dreyfus, Patricia Arquette e Tina Fey fazendo um piquenique à beira-rio. Elas estão celebrando o "último dia comível" de Julia —uma teoria da mídia sob o momento em que uma atriz deixa de ser considerada crível em papéis românticos— antes de fazer um funeral viking para ela. "Vi os filmes, e ouço o que as amigas dizem", ela afirma. "Maggie Gyllenhaal sendo informada de que não era crível que um sujeito de 60 anos quisesse comê-la. É uma bizarria gritante no cinema, dizer que Steve Carrell e Keira Knightley, tudo bem. Ou Jack Nicholson e Amanda Peet. Irrita. Mas nem tenho certeza de que seja irrealista".

    Veja, abaixo:

    Last Fu*ble Day, de 'Inside Amy Schumer'

    "Mas no meu caso, não sou uma dessas garotas. Não vou conseguir um trabalho porque alguém vai me achar a atriz mais gostosa para aquele papel".

    Pergunto se Schumer se sente parte de um movimento, em companhia de Fey, Dunham e outras. "Não", ela responde, talvez por conta da pergunta inane. "Nunca pensei nisso, mas parece bom. Adoraria ser parte de um movimento. Sinto-me muito conectada a pessoas como Tina ou Lena, porque sinto que temos o mesmo objetivo em mente."

    Schumer não demorar a apontar que sexismo escancarado existe em muitos lugares além do entretenimento. Além disso, a questão não é só a "agressão" - o termo é dela - dos homens contra as mulheres, mas a agressão das mulheres contra as mulheres.

    "Escolha o cenário", ela diz. "Um exemplo é o ódio que as pessoas têm de Hillary Clinton. Gosto muito dela. Mas ela irrita muitas mulheres porque não passa o tempo fazendo biscoitos de Natal, e ela irrita muitos homens, sem que eles nem saibam o motivo disso. Creio que haja agressão, da parte de muitos homens. Tipo, há homens que precisam ter certeza de que você daria para eles ou não se sentem calmos em sua companhia. Eles querem saber que existe essa opção de fazer sexo com você".

    "Um executivo que está no comando de qualquer que seja o seu negócio, se esse executivo for mulher, terá de descobrir o que as pessoas esperam dela", prossegue Schumer. "Tal cara precisa que eu seja maternal, tal outro cara precisa acreditar que eu faria sexo com ele, ainda outro cara precisa que eu faça sexo com ele, e essa moça precisa ter a sensação de estou solitária —e tudo isso de uma maneira que não acredito seja requerida de um homem."

    "Inside Amy Schumer" começou como "uma ideia feminista secreta", ela diz, mas seu sucesso - que, é preciso admitir, no momento é mais de crítica e no YouTube do que nos índices televisivos de audiência - permite que a ideia agora seja expressa de modo mais aberto.

    Na temporada mais recente, em outra paródia, no caso de "Friday Night Lights", uma série dramática sobre futebol americano passada numa pequena cidade do Texas, um novo treinador assume a direção do time e tenta impor uma regra que proíbe estupros. Os jogadores inicialmente não entendem, e depois se zangam: "Mas e se a mulher tiver dito sim para mim outro dia, quanto a outra coisa qualquer?", um deles pergunta. Schumer reitera que não há praticamente nada sobre o que ela não faça piadas - desde que pareça convincente e faça as pessoas rirem -, e deixou claro que fala sério a respeito.

    "O feminismo realmente afasta as pessoas", ela diz. "Ninguém quer sentir que está aprendendo alguma coisa, e o programa passa em uma rede cujo público são homens dos 18 aos 34 anos, por isso tivemos que mais ou menos enganar as pessoas para que elas assistissem. Alguém disse que nosso programa é como colocar cenourinhas em um brownie, e adorei a comparação."

    Se "Descompensada" é 48% autobiografia, é fácil perder o limite entre as duas Amy. A verdadeira Schumer nasceu em Manhattan e tem um irmão mais velho, Jason, e uma irmã mais nova, Kim. Gordon, o pai dela, tinha uma loja de móveis finos para bebês importados da Itália, quando repentinamente —Schumer tinha 12 anos— surgiu o diagnóstico de que ele tinha esclerose múltipla e logo depois sua empresa faliu. A família se mudou para Long Island e os pais dela se divorciaram. Aquele período, acredita Amy, foi quando seu humor realmente se formou: nada era tão doloroso ou sombrio que não pudesse ser enfrentado por meio do riso.

    Em "Descompensada", o pai de Amy (interpretado por Colin Quinn) também se chama Gordon, tem esclerose múltipla e vive em uma casa de repouso. As cenas entre os dois são intensamente comoventes mas também desconfortavelmente vívidas. "Meu pai viu o filme e adorou que a personagem seja órfã de mãe, ainda que minha mãe esteja viva", diz Schumer. "Meu pai é como Colin no filme, de verdade, completamente brincalhão, sarcástico, e ainda tenta arrumar mulheres ainda que esteja em uma cadeira de rodas e viva no hospital. Ele me ama muito, mas de vez em quando é meio grosso. As cenas são bem próximas da realidade".

    A Amy de "Descompensada" também tem uma irmã chamada Kim (Brie Larson), mas a personagem, e o relacionamento abrasivo entre as irmãs, é mais fictício. Quando elas eram crianças, a Kim de verdade era a maior companheira da irmã, e foi uma grande decepção para Schumer quando ela se casou, se mudou para Chicago e se tornou psicóloga clínica em uma escola. "Eu disse que, no dia em que ela quisesse terminar com aquela farsa..." Quando sua série de comédia foi renovada para uma segunda temporada, Schumer convenceu Kim a voltar a Nova York e se tornar redatora do programa; ela é um dos produtores de "Descompensada".

    Veja o trailer de 'Descompensada'

    "Sou insanamente próxima da minha irmã", diz Schumer. "Ela mora a seis quarteirões de mim, e ela e o marido usam pijamas com sapatinhos" - praticamente macacões de bebê - "e brincam com o cachorro o tempo todo. Adoro ficar com eles. Eu poderia ficar mais dois dias em Londres e ver essa cidade muito bacana, muito linda, mas acho que prefiro voltar para casa e assistir TV no apartamento deles". Schumer uma vez postou um vídeo que a mostrava cantando uma canção romântica para o cachorro no sofá, com o título "Namorado".

    Em "Descompensada", Amy é jornalista em uma revista masculina chamada "S'Nuff". É um lugar no qual a equipe propõe artigos como "você não é gay, ela é que é chata", ou "os filhos mais feios das celebridades - abaixo dos seis anos". O desprezo, Schumer revela, é genuíno.

    "Algumas revistas masculinas são ofensivas e ponto", ela diz. "Elas se autoparodiam. As reportagens de capa que eu escrevia no filme não eram mais ridículas que as da vida real. Minha experiência é que 5% da edição é coisa de que você poderia se orgulhar, e dizer que 'olha só, fomos nós que fizemos'. O resto —e isso se aplica ao entretenimento em geral— é só para ganhar dinheiro e atrair interesse, nessa nossa época de deficiência de atenção, e explora as inseguranças das pessoas. Quem trabalha nesses ambientes precisa realmente se preocupar, e pensar em como vai conseguir dormir de noite."

    Mas, de novo, Schumer não está acusando só os homens. A editora de "S'Nuff" é uma mulher, Dianna (Tilda Swinton), e ela é a mais cruel e amoral de todos os personagens. É por ordem dela que Amy, que acha que "esporte é uma idiotice", recebe a missão de escrever um perfil de Aaron, cuja especialidade são lesões de esportistas e cujos clientes incluem o astro do basquete LeBron James. Como parte de seus esforços para inspirar a subordinada, Dianna diz: "Gosto de você, Amy. Você é inteligente, mas não intelectual demais. É bonitinha, mas não linda. Você é abordável".

    Já que se trata de Schumer - cujo episódio baseado em "12 Homens e uma Sentença" envolvia insultos pessoais muito mais pesados -, autodepreciação desse estilo é algo a esperar. Em conversa com Schumer para seu livro, Apatow reume a situação da seguinte maneira: "Você está em uma área estranha. Eu descreveria assim: todo mundo te acha bonita, mas talvez você não concorde".

    É assim, portanto, que Schumer se define? Como "abordável"? De onde vem essa avaliação? "Da vida", ela rebate. "O que você acha? Você me achou mais ou menos atraente do que imaginava?"

    Não estou certo de qual seja a resposta esperada; nenhuma das duas parece fadada a terminar bem. Portanto, em lugar de responder, pergunto se as pessoas todas não se acham secretamente mais bonitas do que são. "Você acha mesmo?", Schumer responde. "Isso é bacana. Você tem filhos? Deveria. É uma mentalidade legal, essa. Mas não, eu acho que a maioria das pessoas se odeia."

    Schumer está inspirada, agora. "Isso é tão coisa de homem", ela prossegue. "Em um dos meus quadros, digo que as meninas pensam coisas como 'talvez eu seja linda e nem perceba'. Mas a maioria das meninas acha que não, 'meu Deus, eu sou horrível'. Mesmo as mais bonitas se acham repulsivas". Ela para, pensa. "Sinto-me sexy, sinto-me bem. Mas se eu estiver no bar e você olhar para mim, sua reação seria..." Ela dá de ombros: "Nhé".

    Schumer planeja continuar seu relacionamento com Apatow. "Creio que farei outro filme com Judd, certamente", ela diz. "Não teria escrito o filme se ele não tivesse me encorajado. Não escrevi um roteiro e saí à procura de um diretor. Tinha medo de perder o controle da história, e de o meu personagem não ser retratado como eu queria. Isso não aconteceu —mas era um medo meu que só desapareceu quando a edição final do filme ficou pronta. Amo o filme, mesmo."

    Então, nada de cenas ou brigas no estúdio? "Oh, meu Deus, Judd é o cara mais doce, mais passivo", diz Schumer. "O marido e pai mais dedicado que você possa imaginar. Ele não olha para as bundas que estão passando —acho que ele morreria antes de fazer algo assim. Definitivamente assexuado, eu diria; as cenas de sexo foram claramente piores para ele do que para mim. É tipo um ursinho de pelúcia com pênis."

    Schumer vive um estágio estranho, no momento. Objetivamente, a carreira dela não poderia estar indo melhor, e ela sabe disso. "Inside Amy Schumer" foi imediatamente renovado para uma quarta temporada.

    Ela recentemente gravou um especial de standup para a HBO - a confirmação do sucesso, para um humorista norte-americano - e Chris Rock aceitou dirigir o projeto. "Descompensada" faturou US$ 30,2 milhões em seu final de semana de estreia nos Estados Unidos, tornando o filme sucesso instantâneo; mais de dois terços dos espectadores eram mulheres, e mais de um quarto deles foram ver o filme especificamente por causa de Schumer. "Ela é uma estrela, pura e simplesmente", escreveu Scott Mendelson, na revista "Forbes". Anne Hathaway, alvo de uma das piadas do filme, sugeriu em um post ligeiramente desconfortável no Instagram que Schumer mereceria atenção como atriz e como roteirista, quando chegar a hora do Oscar.

    "Sim, jamais sonhei que isso aconteceria", diz Schumer. "Meus sonhos eram mais do tipo trabalhar em um teatro local bacana, interpretar Tina em 'O Casamento de Tom e Tina'. Isso foi muito além dos meus sonhos."

    As ofertas não param de chegar. Schumer rejeitou substituir Jon Stewart como apresentadora do "Daily Show", porque não queria saber onde estaria pelos próximos cinco anos. Quase terminou de escrever um livro de ensaios autobiográficos.

    Com a irmã, ela acaba de reescrever um roteiro original de Katie Dipold, cujos créditos incluem "As Bem Armadas", sucesso em 2013 com Melissa McCarthy e Sandra Bullock, e a versão feminina de "Ghostbusters" que está planejada. O roteiro aparentemente é uma comédia de ação sobre uma mãe e filha em viagem de férias, e Paul Feig, que dirigiu "As Bem Armadas" e "Missão Madrinha de Casamento", já assinou como produtor. "É o único roteiro que li que realmente me agradou", diz Schumer. Há especulações de que ela pode dirigir o projeto.

    "Porque tenho o stand-up na minha vida, tenho a liberdade de não aceitar ser a amiga burra e sem substância que jamais evolui. Posso dizer que não, não quero ser a amiga gorda de Olivia Wilde."

    Ao mesmo tempo, porém, Schumer sabe que a hora das reações adversas se aproxima. Ela acha que lhe restam talvez uns dois meses. Já há indicações, especialmente um artigo de Monica Heisey no "Guardian", em junho, que embora elogie boa parte do trabalho de Schumer, afirma que "ela parece chocantemente desatenta às questões de raça". Heisey cita tiradas como "não há nada que trabalhe sem parar, fora os mexicanos".

    Schumer se defende vigorosamente, afirmando que parte de sua comédia é adotar a persona de "uma idiota irreverente... que de vez em quando diz a coisa mais estúpida possível". Ela declarou em um comunicado que brincar com ideias de raça é algo que os humoristas devem fazer. "Peço que vocês resistam à tentação de me desconstruir. Podem confiar. Não sou racista... Por isso, dirijam sua atenção a alguém mais merecedor de seu escrutínio, e não a mim, porque estou do seu lado".

    Mesmo que ela tenha conseguido escapar a essa controvérsia, por enquanto, Schumer imagina que outras virão a surgir. Ela planeja declarar abertamente seu apoio a Hillary na eleição do ano que vem, e sabe que isso não será universalmente popular. "Espero que ela vença", diz Schumer. "Não vi qualquer outro candidato nem de perto tão qualificado".

    O tempo de nossa conversa está acabando. Com certeza há outro jornalista do lado de fora esperando que ela fale mais sobre si mesma. O sucesso recente de Schumer trouxe felicidade? "Sou mais feliz porque tenho mais dinheiro", ela responde. "Pude dar dinheiro ao meu irmão e irmã, e eles estão bem. Mas eu sou exatamente tão feliz quanto era quando trabalhava como garçonete. Não acho que as pessoas se tornem mais felizes. Mas saber que você está OK financeiramente e pode ter um plano de saúde é realmente bacana. E faço coisas bacanas. Mas, bem, acho que estou feliz do mesmo jeito que antes."

    Schumer continua determinadamente a ser uma nuvem chuvosa, mesmo em uma semana na qual conquistou três prêmios. Lembro o fato a ela. "Oh, meu Deus, ganhei três prêmios esta semana", ela diz, imitando convincentemente uma pessoa que poderia ter esquecido o fato. "Também achei meu grill! [Uma joia para os dentes.] Eu tinha perdido o grill que encomendei para uma cena [a peça, que se encaixa sobre seus dentes inferiores, diz "Bo$$" em letras cintilante]), e acabo de encontrá-lo em uma bolsa. Boa semana, então."

    Schumer por fim admite que as reações positivas que vêm encontrando a afetam. Especialmente o prêmio Peabody, cujos outros ganhadores incluíam a cobertura da rede CNN ao sequestro das estudantes nigerianas. "Produzimos um programinha de humor, e agora estamos recebendo um prêmio ao lado de pessoas que estão tentando resgatar 200 meninas da escravidão sexual", diz Schumer. "Acho absurdo. Como é que me deixam ficar na mesma sala que aqueles caras? E eles vêm me pedir para tirar fotos comigo. Eu digo: 'Você querer tirar uma foto comigo? Que humilhação."

    A mulher imperturbável parece, pelo menos por uma vez, genuinamente embaraçada.

    Tradução de PAULO MIGLIACCI

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