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    Evento debate como os signos influenciam as obras de escritores

    ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
    NO RIO

    26/12/2015 02h25

    Editoria de Arte/Folhapress

    Tinha não um, mas três bichos peçonhentos no meio do caminho. "Drummond é triplo Escorpião", explicou a astróloga Maína Mello, dando um suspiro que parecia insinuar: "Tá tudo explicado".

    O Sol entrava no ponto mais alto entre Virgem e Libra quando cerca de 30 entusiastas dos signos (celestiais e linguísticos) se reuniram, em setembro, no Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho, o Castelinho do Flamengo, no Rio.

    O grupo debateu até que ponto a carreira de um autor está escrita nas estrelas. Spoiler: o zodíaco vence no final.

    As cervejas Stella Artois gelavam dentro do barril, disposto sob um cartaz que fazia galhofa com o sotaque local ("Ishtela - R$ 5"). Eram quase 20h. A carioca Maína, 33, começou a divagar sobre a influência dos "assshtros" na literatura, tema da noite de setembro organizada pela revista de artes "Minotauro".

    Carlos Drummond de Andrade –afirma a sagitariana com ascendente em Virgem e lua em Touro– jamais seria o poeta intenso que foi se não fosse escorpiano ao cubo nos quesitos supracitados (trinca similar à da islandesa Björk). O próprio confessou à pesquisadora Maria Lúcia do Pazo que o "animalzinho perverso" fazia parte de sua vida.

    Em 1984, três anos antes de Drummond morrer, Pazo descolara a entrevista (publicada no caderno "Ilustríssima" em 2012) por meio de uma vizinha em Ipanema, amante bibliotecária do poeta. O mineiro, que já encasquetara no poema "Confissão" sobre um "escorpião mordendo a alma", contou não dar muita bola ao cosmos.

    Mas sinalizou dar o benefício da dúvida a seu animal interior. "Essa palavra –escorpião– é terrível para os moradores do interior de Minas, onde cidades inteiras eram invadidas por escorpiões. O escorpião de que eu fugia no porão lá de casa, com medo de ser mordido, era paradoxalmente um bicho que eu trazia dentro de mim, por ter nascido dentro desse signo, compreendeu?"

    Graduada em psicologia e "astróloga em construção", Rita Isadora, 30, evoca outra escorpiana célebre, Sylvia Plath, tema de seu projeto de mestrado. Após estudar os mapas astrais dela e do ex-marido, Ted Hughes, Rita enxergou uma conspiração cósmica na "interação explosiva deles".

    "Ela era Escorpião, ele, Leão. A princípio, esse encontro não é fluido", pondera. O casal já começara mal: no primeiro encontro, Sylvia lhe tirou sangue com uma mordida na bochecha, e Ted retribuiu arrancando seu brinco.

    "Sylvia entrou na história como alguém muito escorpiano, que se mata por um fim de casamento." Ela morreu aos 30, abrindo a torneira do gás.

    MULTIFACETADO

    No evento, Maína discorreu: homem dos heterônomos, Fernando Pessoa era do multifacetado Gêmeos. Assim como Allen Ginsberg, "um louco, cada hora de um jeito", e Ana Cristina Cesar, homenageada da próxima Flip, com seus arroubos de Ruth e Raquel, as gêmeas antagônicas da novela "Mulheres de Areia" (Globo).

    O recluso J.D. Salinger criou um personagem capricorniano até o caroço, feito ele: Holden Caufield, o ultrapessimista narrador de "O Apanhador no Campo de Centeio", capaz de frases como "a maioria das pessoas ou não sabe sorrir ou tem um sorriso pavoroso".

    Com seu realismo fantástico, Gabriel García Márquez nadava de braçadas na hiperdelirante casa de Peixes. "Pioneiros furiosos", arianos como Leonardo Da Vinci e Renato Russo têm "uma coisa de jogar algo na sua cara sem meias verdades". Leão é aquele ser "imaginativo e muito poderoso", como a britânica J. K. Rowling e sua maior criação, o bruxinho Harry Potter.

    Representando a "mente criativa" dos aquarianos: Júlio Verne, que já foi da Terra à Lua em suas obras, e Lewis Carroll, que forjou um país das maravilhas para sua Alice (inspirada numa menina com aguda percepção sensorial, como boa taurina que era).

    Com "aquela fúria sensual", a poeta dos versos "te amo ainda que isso te fulmine" também era sócia do rodeio nos céus. "A Hilda Hilst é de Touro, dá porrada na gente. Ela é metal", afirma Maína.

    "Já o virginiano é de uma precisão... Três palavras e pronto." Como Paulo Leminski, que escreveu para si o seguinte epitáfio: "Aqui jaz um grande poeta. Nada deixou escrito. Este silêncio, acredito, são suas obras completas".

    Maína continua com cautela seu escrutínio etéreo. "Você reconhece Câncer por aquelas obras chatíssimas." Ante o elenco formado por Guimarães Rosa, Marcel Proust e Franz Kafka, um rapaz da plateia intervém: "Galera do mal!".

    Alguém joga na roda que Ingmar Bergman também tinha uma pata de caranguejo na casa zodiacal. Ouve-se um suspiro. "É, fechou o caixão..."

    Formada em jornalismo pela PUC, Maína estudou por conta própria mercúrios retrógrados e outros salamaleques siderais. Em vez de pedir que "liguem djá", como Walter Mercado, profissional que melhor encarnou o "zeitgeist" astral dos anos 1990, ela tem um site. No "Mapeando", publica leituras mensais do zodíaco e boletins eróticos (às capricornianas, já aconselhou "sentir a força de vontade expressar-se ereta").

    Por essas e tantas vem sendo chamada de versão brasileira de Susan Miller, a Beyoncé da astrologia global. Para não iniciados nas artes telúricas, não é fácil seguir seu pensamento. Quando fala de Clarice Lispector, sagitariana como ela, diz que a escritora tem "Mercúrio no Escorpião", o mais artístico dos signos.

    Viva fosse, a autora de "A Hora da Estrela" talvez assentisse que era mesmo bom acertar os ponteiros com o cosmos.

    Em agosto de 1975, ela pôs seu batom vermelho mais berrante e discursou sobre a inspiração emergir "do mais profundo 'eu' da pessoa" no primeiro Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá. Cerca de 2.000 pessoas pagaram US$ 275 para ver figuras como Uri Geller, o psíquico que garantia entortar talheres com a mente.

    A escritora fora convocada a adentrar "territórios místicos de amor, alegria e poder nunca alcançados pelos descrentes", como dizia um convite de um aristocrata colombiano, segundo a biografia "Clarice", de Benjamin Moser.

    Em outra ocasião, ela confessou: "Não ter nascido bicho parece ser uma de minhas secretas nostalgias. Talvez porque seja de sagitário, metade bicho". Tá tudo explicado.

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