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    crítica

    Autor reaviva força de artistas contrários a ditaduras militares

    MAURICIO PULS
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    20/02/2016 02h44 - Atualizado às 11h41
    Erramos: esse conteúdo foi alterado

    O que pode a arte contra o medo? Em "Esperar Não É Saber: Arte entre o Silêncio e a Evidência", André Mesquita destaca as obras dos artistas que tentaram romper a passividade da sociedade civil diante da violência das ditaduras militares.

    Em 1970, a tortura estava tão disseminada no Brasil que, numa cerimônia em Belo Horizonte, 84 guardas desfilaram diante do ministro do Interior levando um homem pendurado em um pau-de-arara.

    Para denunciar o terror como rotina, dois meses depois o crítico Frederico Morais promoveu, nessa mesma cidade, diversas ações de "guerrilha artística".

    Numa das intervenções, o artista Artur Barrio lançou 14 trouxas ensanguentadas –que lembravam os corpos de desaparecidos– nas margens de um rio, atraindo uma multidão ao local.

    Reprodução
    Artes Plásticas: "Situação T/T 1", performance com trouxas ensagüentadas do artista Artur Barrio. (Foto: Reprodução) *** DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM ***
    'Situação T/T 1', performance com trouxas ensaguentadas realizada pelo artista Artur Barrio

    Inspirados nesse trabalho, em 1979 Hudinilson Jr., Mario Ramiro e Rafael França cobriram as cabeças de estátuas em São Paulo com sacos de lixo, simulando as práticas de sufocamento usadas por agentes da repressão.

    Mesquita recorda ainda as colagens produzidas por León Ferrari a partir de 1976, com recortes de jornais relatando o aparecimento de numerosos cadáveres. A princípio, grande parte da sociedade argentina aceitava as execuções alegando que deveria haver "algum motivo" para tal violência. Mas, depois, as pessoas passaram a exibir um desconhecimento calculado sobre o que estava ocorrendo –daí o título das colagens: "Nosotros no Sabíamos".

    Por fim, o autor recorre ao filme "Apelo", de Clara Ianni e Débora Maria da Silva, para mostrar que torturas e assassinatos praticados por policiais não cessaram com o retorno à democracia: "A periferia ainda sangra".

    Esse terror cotidiano é um "segredo público": o Estado utiliza a violência para intimidar a população, mas ao mesmo tempo a oculta, para evitar que seus agentes sejam responsabilizados pelos crimes.

    Para combater essa estratégia, os artistas tratam de confrontar o público com "evidências" (sinais, imagens, fragmentos) da violência do Estado. A "evidência" é uma arma contra o silêncio, pois exige que o contemplador tome uma posição sobre o mundo.

    Que impacto tiveram essas intervenções sobre o público? Difícil saber. Em "Para que Servem as Artes?", John Carey diz que as pesquisas empíricas mostram que as obras de arte não tornam as pessoas melhores. Tais levantamentos, porém, precisam ser contextualizados.

    Os objetos estéticos condenam a realidade: com isso, eles apontam o que deve ser feito, e não apenas o que pode ser feito. Retomando uma distinção de Max Weber, pode-se dizer que as obras de arte seguem uma ética dos princípios, e não uma ética de resultados.

    A eficácia política imediata da arte é sempre limitada, pois ela se choca com as correntes majoritárias de opinião. Mas, ao defenderem valores humanos fundamentais, os objetos estéticos se convertem, a longo prazo, em patrimônios da coletividade. Uma pintura como "Guernica" não foi capaz de deter a expansão do nazismo, mas sobreviveu à sua derrocada.

    ESPERAR NÃO É SABER: ARTE ENTRE O SILÊNCIO E A EVIDÊNCIA
    AUTOR André Mesquita
    EDITORA edição do autor/Funarte
    QUANTO grátis (232 págs.); pedidos ao autor via xdedex@hotmail.com

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