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    CRÍTICA

    Filarmônica de Viena encanta em concertos de alma russa

    SIDNEY MOLINA
    CRÍTICO DA FOLHA

    11/03/2016 02h45

    A temporada Cultura Artística 2016 começou esta semana com duas apresentações da Orquestra Filarmônica de Viena na Sala São Paulo, na terça (8) e na quarta (9).

    A centenária sociedade de concertos paulista já havia trazido em 2013 a Concertgebouw, de Amsterdam, além de ter, no ano passado, anunciado a Sinfônica de Chicago (que cancelou a turnê): Viena, Amsterdam e Chicago aparecem frequentemente entre as cinco melhores do mundo nas listas especializadas.

    Houve uma grande excitação em torno do primeiro concerto dos austríacos, que vieram ao Brasil com o regente russo Valery Gergiev, uma celebridade que tem acumulado cargos em diferentes orquestras, além de comandar o Teatro Mariinsky, em São Petersburgo, na Rússia.

    Eric Brochu/Divulgação
    Concerto da Orquestra Filarmonica de Viena na Sala Sao Paulo, no dia 8/3/2016, com o maestro Valery Gergiev Credito: Eric Brochu/Divulgacao ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
    Valery Gergiev rege a orquestra na Sala São Paulo

    Na terça, cada obra foi aplaudida freneticamente. Primeiro, a abertura da ópera "O Holandês Voador" (também conhecida como "O Navio Fantasma"), de Wagner (1813-83), regida com adrenalina a mil.

    Qualidade sonora aliada a muito volume, especialmente nas cordas –que parecem ter um alcance ilimitado, mesmo diante de metais e percussão tocados sem medo, como foi o caso. A sonoridade dos metais é de uma beleza muito característica: é como se o timbre conservasse algo de rústico, mas sem ser áspero, formando um amálgama com o todo.

    Estilo é também uma questão de gosto pessoal, e a interpretação de Gergiev para "La Mer", de Debussy (1862-1918), certamente dividiu os especialistas. Foi um Debussy mais russo que francês, um tanto stravinskiano, mais modernista que impressionista.

    Como a orquestra é capaz de realizar com competência tudo o que o mais idiossincrático regente possa propor, o resultado foi interessante. Mas não parece que as ideias tenham sido suficientemente trabalhadas, soou muito rápido, sem minúcias. Como disse um amigo, "faltou poesia".

    Em "Quadros de uma Exposição", do russo Modest Mussorgsky (1839-81) na versão orquestral do francês Ravel (1875-1937), o jogo entre Rússia e França encontra mais razão de ser, embora, também aqui, a goleada tenha sido a favor da turma do leste.

    A orquestra continuou admirável, e se tornou ainda mais no bis, uma extraordinária "Valsa do Imperador", de Johann Strauss 2 (1825-99), seguida pela polca "Trovão e Relâmpago": nem russas nem francesas, apenas vienenses.

    Diverso foi o concerto da quarta (9). Em uma Sala São Paulo ainda cheia –mas menos frenética– o repertório favoreceu as cordas, aquilo que mais nos encanta nas orquestras centenárias europeias.

    O prelúdio do primeiro ato da ópera "Parsifal", também de Wagner, talvez tenha sido, na soma dos dois dias, o melhor momento da Filarmônica de Viena em São Paulo. Foi seguido pelo "Encantamento de Sexta-feira Santa", da mesma obra.

    Silêncios enfáticos conectam-se com a expressividade de frases ambíguas, incompletas. É música para aumentar o espaço interno do eu, para reverberar na memória. De repente não eram nem Gergiev nem os naipes individuais do grupo; tão só a música, a música e só.

    O regente mostrou refinamento (inclusive nos momentos introspectivos) da longa "Sinfonia Manfredo", de Tchaikovsky (1840-93), obra com corpo romântico e alma russa. Foram concertos para lembrar e pensar.

    ORQUESTRA FILARMÔNICA DE VIENA

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