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    Elza Soares deságua ao ver 'Garrincha' e é reverenciada por parte do elenco

    GUSTAVO FIORATTI
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    03/05/2016 02h50

    Da primeira fila do teatro paulistano do Sesc Pinheiros, na sexta-feira (29), Elza Soares pôde ver de bem perto a peça "Garrincha". A criação do diretor americano Bob Wilson com elenco brasileiro é inspirada na vida do jogador de futebol Mané Garrincha (1933-1983), com quem ela foi casada durante 14 anos, entre 1968 e 1982.

    A distância para o palco fez com que a partida virasse durante a apresentação do musical: a cantora assistia à peça, mas os atores, lá de cima, também a observavam.

    Figura central do trabalho, Elza é retratada em um momento de ascensão e crise, afetada pela paixão por Garrincha, bem como por todas as dores provocadas pela personalidade de um amante que era alcoólatra e pouco afeito à monogamia.

    "Nós somos orientados a manter o olhar sempre para cima, a não olhar para o público", diz Naruna Costa, que interpreta Elza no espetáculo. "Mas confesso que o olho passeava, e a gente capturou algumas expressões. Pude ver que, em muitos momentos, ela ficou emocionada."

    Assim que a sessão acabou e os aplausos iniciaram, parte do elenco desceu até a plateia para cumprimentar a cantora, que recebeu flores.

    O nome de Elza foi cantado em coro nas primeiras filas, e Jhe Oliveira, ator que protagoniza a montagem, ajoelhou-se aos seus pés para então lhe tascar um abraço.

    Depois, em um camarim, Elza, convidada pelo Sesc para assistir ao espetáculo, disse à Folha que tudo o que passou ao lado de Garrincha veio à memória. "Como foi que eu passei por tudo aquilo? Como foi que pude viver aquilo?", questionou-se.

    "Como é ruim querer tirar alguém de uma situação como aquela e não conseguir. A pessoa fica muito impotente, fica fraca", lembra ela. Elza se referia à queda (e todas as suas consequências) que Garrincha tinha pelo álcool.

    A cantora não fez qualquer ressalva ao modo como o jogador foi representado na peça: sorridente, financeiramente descontrolado e sempre com uma garrafa nas mãos. "Aquilo é muito real. O Mané nunca ligou para nada, era um cara que só vivia para os passarinhos", disse, relembrando a segunda paixão do jogador. A primeira delas, obviamente, teria sido a bola ou o futebol.

    A interpretação de Naruna também foi aprovada. Elza diz que gostou de ouvir canções que interpretou na voz de outra mulher e que, "sem dúvida", poderia usar as roupas escolhidas para figurar em seu fictício armário. "Achei ela bem vestida... E até muito vestida. Usaria [aquelas roupas] e ousaria mais."

    Foi a cena que retrata o acidente de carro que matou sua mãe, em 1969, que a cantora considerou a mais forte. "De repente, a gente lembra de coisas que não quer lembrar. O acidente foi muito violento. Aquilo vem que vem."

    Quem estava ao volante era o próprio Garrincha, que dirigia pela rodovia Presidente Dutra. Elza e sua filha Sara também estavam no carro e sobreviveram à colisão.

    A cantora ainda se disse surpresa com as canções que o espetáculo trouxe à cena. "Pranto Livre", composição própria, escrita nos anos 1970, por exemplo, ela já cantou com mais frequência. Ainda sabe de cor. "Quem não teve amor nunca sofreu/ desconhece o que é agonia/ abre o peito e deixe o pranto livre como eu/ desabafe a melancolia".

    Os olhos ainda estavam marejados quando Elza deu a palhinha. "'Pranto Livre' tem muito significado, pois amei muito o Mané. É um bate-papo sobre o sofrimento do amor, de dor e de ódio, de dor e de amor, de tudo junto, sei lá..."

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