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    Retratista de celebridades, Annie Leibovitz busca militância feminista

    SILAS MARTÍ
    ENVIADO ESPECIAL À CIDADE DO MÉXICO

    25/07/2016 02h00

    Toda de preto, Annie Leibovitz monta um círculo de cadeiras no meio de sua exposição. Ela manda ajustar monitores que mostram suas fotografias mais famosas, enquanto busca o lugar ideal para os móveis. Lembra um furacão platinado ou grisalho minutos antes de um debate sobre violência doméstica começar ali para duas plateias –feministas da Cidade do México e fantasmas de celebridades a brilhar nas telas.

    Esses dois mundos, o do glamour faiscante de Hollywood e o do ativismo engajado, agora se chocam em Leibovitz. A americana que criou as bases de uma estética ancorada na frivolidade cool, iluminada por holofotes e turbinada pela brisa artificial de ventiladores de estúdio, quer alardear sua metamorfose.

    "Não me vejo mais como uma fotógrafa", diz Leibovitz. "Sou uma artista conceitual que usa a fotografia."

    Não parece. Sua mais nova série de retratos de mulheres famosas e poderosas repisa a velha cartilha de luz calculada, olhar assustado, vestidos esvoaçantes e lábios entreabertos, como se prestes a contar um grande segredo.

    Mas eles pouco revelam, tal qual Leibovitz. Nos dias dedicados a promover a sexta etapa de sua mostra mais recente –depois de Nova York, Tóquio, San Francisco, Cingapura e Hong Kong, a exposição chegou há duas semanas à capital mexicana–, a artista repetia a mesma história em entrevistas coletivas e fugia de perguntas sobre sua obra.

    SOMBRA DE SONTAG

    Leibovitz falou mais da crítica de arte Susan Sontag, com quem teve um romance ao longo de 15 anos até a morte da escritora, e da ativista Gloria Steinem, que foi com ela à Cidade do México, do que sobre qualquer outro assunto. É como se buscasse na sombra de Sontag, uma das maiores pensadoras da fotografia, um respaldo conceitual para continuar fazendo mais do mesmo.

    Na história da fotografia, isso não é pouco. Leibovitz, que estreou na década de 1970 na revista "Rolling Stone", retratou John Lennon pelado abraçado à mulher Yoko Ono horas antes do Beatle ser assassinado por um fã na porta de casa, em Nova York.

    Mais tarde, passando também pela "Vanity Fair" e pela "Vogue", fotografou Demi Moore gravidíssima da segunda filha, Leonardo Di Caprio com um cisne enrolado no pescoço, Arnold Schwarzenegger montado num cavalo branco, Angelina Jolie fazendo cara de paisagem diante de uma paisagem no Camboja e Whoopi Goldberg mergulhada numa banheira de leite.

    INTIMIDADE MAGNÉTICA

    Longe do conceitual, Leibovitz sempre transitou pelo território do icônico –imagens de parar o trânsito não pela ousadia formal mas por envolver celebridades inacessíveis em poses que beiram o ridículo, sugerindo uma intimidade magnética com o retratado.

    Seu esforço agora é voltar à raiz de um momento mais denso de sua obra –a série "Women", de 1999, que retratou mulheres famosas e anônimas, entre elas vítimas da violência doméstica, operárias, militares e prostitutas.

    "Isso foi uma ideia da Susan Sontag, mas na época tive receio que o tema fosse amplo demais, como sair para fotografar o oceano", diz Leibovitz. "Depois acabei entendendo esse sentido de urgência em fotografar mulheres. É importante ver como somos de verdade. Descobrimos juntas como são as mulheres."

    Quase duas décadas depois, Leibovitz agora volta suas lentes a mulheres que as redes sociais rotulariam "empoderadas" –a cantora Adele, a atriz e roteirista Lena Dunham, de "Girls", as artistas plásticas Cindy Sherman e Shirin Neshat, a cineasta Laura Poitras, a executiva Sheryl Sandberg, do Facebook, a comediante Amy Schumer e até a transexual Caitlyn Jenner.

    "Não é tão simples dizer que existem só dois sexos, por isso a Caitlyn está aí", comenta Leibovitz. "Essas mulheres são reais e independentes, têm mais força e convicção do que antes. Muitas barreiras estão sendo derrubadas."

    Ou quase todas. A nova série volta à arena do luxo e da riqueza, deixando de lado as anônimas sofridas da obra original. Leibovitz diz que não achou necessário retornar à violência para "não pesar a mão" e que escolheu as novas retratadas pensando em mulheres que gostaria que "entrassem para a história".

    TANQUE DE GUERRA

    Uma delas, a escritora Elena Poniatowska, sentiu na pele essa ideia. "Ela chegou como um tanque de guerra para me fotografar", contou a mexicana sobre a sessão de fotos com a artista. "Mandou tirar a roupa e pediu que eu usasse uma blusa velha, manchada, com marcas do passado."

    Essa vontade de marcar época também parece estar atrelada ao desejo de Leibovitz de se reafirmar como artista depois de uma fase em que vem se dedicando mais à publicidade, algo que se tornou recorrente desde que uma série de trapalhadas financeiras ao longo da última década puseram em risco sua fortuna de milhões de dólares.

    Ela tinha dado os direitos autorais sobre todas as suas imagens como garantia aos bancos e só há pouco conseguiu reaver o controle sobre sua obra, o que explica talvez a ânsia de voltar ao topo das paradas como uma artista e mulher plena e sem amarras.

    "Esse projeto foi um processo de crescimento para mim. Eu me emociono muito com essas questões", diz ela. "Essas mulheres são extraordinárias e têm uma força que não tinha visto antes. As fotografias são só a ponta do iceberg."

    O jornalista viajou a convite do banco UBS, que patrocina a mostra

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