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    Crítica

    'Meu Rei' parece antes um recorte da vida do que uma encenação

    RICARDO CALIL
    CRÍTICO DA FOLHA

    23/09/2016 02h17

    Não há um elogio maior a se fazer sobre "Meu Rei" do que dizer que o filme lembra "Uma Mulher Sob Influência" (1974), obra-prima de John Cassavetes, com interpretações antológicas de Gena Rowlands e Peter Falk.

    Não, o filme francês jamais chega a ser tão memorável quanto o americano. Mas, em seus melhores momentos, a diretora Maïwenn ("Polissia") se aproxima do feito cassavetiano de entregar uma obra que parece antes um recorte da vida do que uma encenação.

    Divulgação
    CENA DO FILME Meu rei Título original: Mon roi País: França Maïwenn Elenco: Vincent Cassel Emmanuelle Bercot Louis Garrel ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
    Emmanuelle Bercot e Vincent Cassel em cena de 'Meu Rei'

    Nessas sequências luminosas, Emannuelle Bercot (ganhadora do prêmio de melhor atriz em Cannes pelo filme) e Vincent Cassel pouco deixam a dever a Rowlands e Falk.

    Sob a mise-en-scène livre de Maïwenn, que privilegia mais o jogo entre os intérpretes do que uma decupagem de cena rigorosa, eles por vezes nos fazem esquecer que estamos diante de atores e acreditar que seus personagens caminham entre nós.

    "Meu Rei" é um estudo sobre a dependência amorosa. Tony (Bercot) é uma mulher sob a influência da paixão por Georgio (Vincent Cassel).

    Ela é uma advogada tímida, de classe média. Ele é rico e ex-namorado de jovens modelos.

    Na primeira vez que eles transam, Tony chora, conta que seu ex-marido se separou alegando que sua vagina era larga e pergunta se Georgio também era um idiota. "Eu sou o rei dos idiotas!" E, dali em diante, ele será seu rei –e seu idiota– particular.

    Tony irá aguentar tudo pela paixão. Sempre que Tony ameaça ir embora, Georgio –sedutor, manipulador, abusador– a convence a ficar. Ele depende da dependência dela, de seu amor submisso e irrestrito.

    Em um certo sentido, "Meu Rei" é um filme didático, uma radiografia de uma mulher viciada em amor. Esse aspecto enfraquece o todo: para melhor obter seu diagnóstico, a narrativa irá reprisar situações, sublinhar intenções.

    Mas o principal problema do filme é sua estrutura, toda construída em torno de flashbacks. No começo, Tony sofre um acidente e enfrenta um longo tratamento, com o objetivo de voltar a caminhar.

    Suas cenas de martírio físico são intercaladas com suas memórias sobre a relação com Georgio –uma escolha que abre espaço para um tanto de psicologia barata e metáforas banais sobre queda, recuperação, superação.

    Não tira o mérito das muitas cenas de frescor narrativo, de brilho intenso de Bercot e Cassel. Mas impede que Maïwenn chegue mais perto de Cassavetes.

    MEU REI (MON ROI)
    DIREÇÃO Maïwenn
    ELENCO Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot e Louis Garrel
    PRODUÇÃO: FRANÇA, 2016, 14 ANOS

    Edição impressa

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