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    Crítica

    Peças atestam margem inventiva do Festival de Curitiba

    VALMIR SANTOS
    ENVIADO ESPECIAL A CURITIBA

    11/04/2017 02h04

    Três espetáculos vistos no Festival de Curitiba atestam a margem inventiva de artistas da cidade em práticas, pesquisas e pensamentos.

    Já vai longe a fixação sexista de parte da programação local nos primeiros anos do Fringe, a mostra paralela implantada em 1998, na 7ª edição do evento, cuja 26ª terminou no último domingo. Hoje ela é residual.

    Diversidade de gêneros e sexualidade são questões que aparecem problematizadas sob a premissa da arte, caixa de ressonância sociopolítica.

    Lenise Pinheiro/Folhapress
    Cena de 'Terrível Incrível Aventura', uma das peças que se destacaram no festival
    Cena de 'Terrível Incrível Aventura', uma das peças que se destacaram no festival

    Em "Momo: Para Gilda com Ardor", que esteve na 2ª Curitiba Mostra, o performer e diretor Ricardo Nolasco, colaborador dos coletivos Selvática e O Estábulo de Luxo, é um poeta da presença.

    Gordo, barbudo, ele subverte de largada qualquer expectativa efeminada, assim como a icônica travesti que evoca. Morta em 1983, Gilda (Rubens Aparecido Rink) transgrediu o conservadorismo nas ruas centrais que ocupara desde a década de 1970, vinda do interior paranaense.

    Vedete, passista de escola de samba e hábil mediadora na captura de moedas e beijos da caridade alheia, ela surge faceira e vociferante.

    Múltiplas visões de um roteiro que chama Artaud, Jodorowsky, Fellini, Sylvio Back e Zé Celso (por extensão) ao desmascarar o dedo em riste do machismo sob a desordem de um cabaré lascivo.

    "Momo" culmina no abandono do palco pelos fundos do teatro e vira um bloco puxado por Nolasco, outros atores e o público rumo às ruas do entorno. Devolução simbólica de Gilda ao espaço urbano que ela desterritorializou.

    Em "Lovlovlov: Peça Única Dividida em Cinco Choques" (SP), Isabel Teixeira encena uma máquina desejante "operada" pelos atores Fernando Proença e Diego Marchioro, com intervenções da cantora Edith Camargo.

    A dramaturgia a seis mãos parte da vida e de cartas de amor de Carmen Miranda emendadas às experiências biográficas dos criadores.

    A condição de voyeur do espectador é ressignificada pela ênfase radiofônica. A escuta aguça os ridículos do amante não correspondido.

    Sentados em cabines opostas, uma de costas para a outra, e diante de diferentes plateias, os atores produzem engenhoso sincronismo verbal e gestual. Eficácia estendida à cenografia, ao desenho de luz e a música ao vivo que tornam a intimidade palpável.

    Por fim, o musical "Terrível Incrível Aventura", da Cia. de BifeSeco, faz da hipérbole um sopro de sinapses no texto, na encenação e nas atuações. À maneira de uma epopeia, temos um poema extenso em torno do drama do capitão de um navio e sua luta pela conquista de uma mulher.

    Como subtexto desponta a reflexão inerente a gênero e identidade. O fluxo embaralha os desejos: "inguém é de ninguém", um pouco o norte criativo de misturar registros.

    Do subtítulo –"Um Musical Fabulesco Marítimo!"– ao desempenho do elenco (notadamente Má Ribeiro e Luiz Bertazzo), o resultado da obra escrita e dirigida por Dimis Jean Sores (mais direção musical de Enzo Veiga) é um espirituoso jogo a partir dos artifícios da representação.

    MOMO: PARA GILDA, COM ARDOR

    LOVLOVLOV

    TERRÍVEL INCRÍVEL AVENTURA

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