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    Erotismo esquecido de Pedro Correia de Araújo é alvo de mostra no Masp

    SILAS MARTÍ
    DE SÃO PAULO

    01/09/2017 02h05

    Não é um acaso. Quem se lembrar das formas angulosas da mulher de seios à mostra no centro de "Samba", uma das maiores telas de Di Cavalcanti agora na Pinacoteca, talvez veja ecos daquelas formas cônicas, duras, geométricas e resplandecentes também no subsolo do Masp.

    Lá estão outras mulheres monumentais, amazonas róseas e esverdeadas pintadas por Pedro Correia de Araújo.

    Quase um desconhecido, esse artista brasileiro nascido em Paris, educado no Recife e depois radicado na capital francesa na virada do século 19 para o 20 foi outro entusiasta das vanguardas históricas que encontrou na representação da forma feminina um arquétipo universal.

    Divulgação
    Nu Feminino (Mulata e São Sebastião)', obra de Pedro Correia de Araújo, agora no Masp
    'Nu Feminino (Mulata e São Sebastião)', obra de Pedro Correia de Araújo, agora no Masp

    "Jongo", vista ali como sua obra-prima, aliás, lembra a festança do Carnaval de Di Cavalcanti, mesmo que a mulher destacada no centro cubra o corpo com um singelo vestido cor-de-rosa. Seu erotismo, nesse caso, está mais nas entrelinhas, um desejo latente que transborda da pele e reverbera na roda de música.

    Mas Correia de Araújo foi além. Seus desenhos de sexo explícito, escondidos atrás de tecidos negros ali, não deixam dúvida de que, por trás das superfícies exuberantes de suas telas, havia vontade carnal.

    Nesse ponto, sua obra marca o encontro da volumetria anatômica clássica ensinada na academia com a luxúria dos detalhes e esquemas cromáticos dos mestres da escola parisiense. Nele, como em Di Cavalcanti, há traços de Picasso, Modigliani, Gauguin, Matisse e Cézanne, este último uma influência confessa.

    CORPO FECHADO
    Essa matriz europeia, no entanto, parece traduzida ali numa modernidade tropical, a expressão da verdade ou identidade de um território em corpos escultóricos, de poder plástico avassalador.

    Daí sua maior diferença em relação a Di Cavalcanti. Enquanto o modernista famoso plasmou mulheres oferecidas à contemplação, Correia de Araújo construiu musas totêmicas, esfinges de corpo fechado que desarmam o espectador com expressões duras feito pedra.

    "O erotismo dele é um monumento", diz Fernando Oliva, à frente da mostra. "No Di Cavalcanti, o erótico é cenográfico, estilizado. No caso do Pedro Correia de Araújo, o erótico é uma representação de força, de segurança."

    Mesmo a surrada figura da mulata, fetichizada à exaustão pelos modernistas, surge altiva e desafiadora em Correia de Araújo. Elas são grandes damas, senhoras de uma beleza talhada a corte de faca, numa espécie de geometria imposta à carne.

    É na representação sólida dessas mulheres, aliás, que o artista se desprende daquilo que na superfície poderia ser mal visto como mímica rasa das conquistas das vanguardas históricas. Seu magnetismo está no assombro dessas figuras que extravasam moldes e métodos clássicos.

    PEDRO CORREIA DE ARAÚJO
    QUANDO de ter. a dom., das 10h às 18h; qui., até 20h; até 19/11
    ONDE Masp, av. Paulista, 1.578, tel. (11) 3149-5959
    QUANTO R$ 30, grátis às terças

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