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    Análise

    'Contatos Imediatos do Terceiro Grau', 40, fez história na ficção

    IGOR GIELOW
    DE SÃO PAULO

    10/09/2017 02h15

    Divulgação
    Isis Valverde posa para a capa da revista "Joyce Pascowitch" de setembro
    Cary Guffey em cena do filme 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau', de Steven Spielberg

    Alienígenas chegam à Terra, provocam reações globais, e o governo americano (quem mais?) prepara um comitê de recepção cheio de cientistas empolgados e pacifistas.

    Um pai de família no meio de um nada qualquer nos EUA é tocado psiquicamente pelos ETs, pira e se une a uma moça problemática. Ele foge com os visitantes, dando adeus à sua vida ordinária e causando admiração nos especialistas.

    Seriam "spoilers" de roteiro se o filme em questão não fosse "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", de Steven Spielberg. Ele completa 40 anos neste fim de ano, com direito a relançamento com imagem 4K nos EUA, depois de duas pós-edições, em 1980 e 1998.

    A questão é: ele seria feito hoje? Com "Star Wars", do mesmo 1977, "Superman" (1978) e "Alien" (1979), o filme refundou a ficção científica na era do blockbuster.

    Mas foi além. "Contatos" traz uma mensagem de conciliação cósmica. A única intervenção militar ocorre quando o Exército isola a área em que a nave-mãe alienígena iria aterrissar, servindo de flanelinha de disco voador.

    Ficção científica sempre espelha o espírito de seu tempo, como a modulação do gênero por Mary Shelley ("Frankenstein", 1818) atesta.

    No cinema, houve décadas no Ocidente de ETs malvados emulando ameaças de uma era em que existia a União Soviética. Mesmo numa exceção à regra, "O Dia em que a Terra Parou" (1951), que trazia alerta sobre o holocausto nuclear, o mote era o risco de punição à humanidade.

    No fim dos anos 1970, o mundo estava imerso nas incertezas dos choques do petróleo, do terrorismo, da depressão pós-Vietnã.

    Spielberg subverteu a lógica e entregou um longa que transborda otimismo num registro ao mesmo intimista e de arrebatamento religioso. Não por acaso, uma de suas grandes cenas se passa em Dharamsala, capital do exílio tibetano na Índia.

    Aqui, ninguém aponta armas para os ETs, que não trazem raios da morte consigo. Querem apenas se comunicar, o que ocorre pela inefável escala musical bolada pelo compositor John Williams.

    Os alienígenas são mais entes divinos, e o contato com o protagonista Roy (Richard Dreyfuss) o transforma num "louco de Deus" medieval.

    Isso e a partida de Roy, largando mulher e filhos chatinhos, insinuam o momento de transição na percepção da imagem da família nuclear. Nesse sentido, transgressor, o filme é algo datado –o próprio Spielberg disse depois que talvez mudasse o final.

    A ficção no cinema se desdobrou. Os horrores de "Alien" ganharam corpo, tanto que a franquia está viva em pleno 2017, assim como o escapismo de "Star Wars". O filão aberto por "Superman" prospera nas Marvel da vida.

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    A linhagem humanista infantilizou-se com "ET" (1982, do próprio Spielberg), "Cocoon" (1985) e afins, mas há soluços adultos, como no metafísico "Contato" (1997), no politizado "Distrito 9" (2009) e na dupla "Interestelar" (2014) e "A Chegada" (2016).

    Esses dois últimos filmes resgatam Spielberg ao inserir o arcabouço psicológico individual num quadro de convulsão planetária, intercambiando vida interior com o destino de uma espécie que descobre que não está só.

    Mas são exceções num mar de "Independence Day" (1996) e congêneres regurgitando medos tão atuais num mundo de nacionalismos redivivos. Ou você acha que o típico eleitor de Donald Trump em Indiana, como Roy seria em 2016, largaria a família e seria ovacionado?

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