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    CRÍTICA

    Bem pensado, jogo 'Walden' refaz cenário onde Thoreau se isolou

    JOÃO PEREIRA COUTINHO
    COLUNISTA DA FOLHA

    24/09/2017 02h00

    Divulgação
    RIO DE JANEIRO/RJ BRASIL. 22/09/2017 - Tears for Fears, durante o Rock in Rio, realizado no Parque Olimpico na Barra da Tijuca.(foto: Zanone Fraissat/FOLHAPRESS, ILUSTRADA)***EXCLUSIVO***
    Em 'Walden', jogadores são convidados a ser Henry David Thoreau, a ver pelos seus olhos

    WALDEN, A GAME (muito bom)
    QUANTO US$ 18,45 (R$ 58)
    ONDE waldengame.com, roda em PC e Macintosh

    *

    1.

    O minimalismo está na moda. Não falo da pintura de Frank Stella ou da música de Philip Glass. Uso "minimalismo" no sentido prosaico: a ambição de simplificar a vida e a paisagem que a rodeia.

    Existem livros que ensinam a arrumar melhor a sala, os armários, até as cozinhas. Em todas as ruas das grandes cidades existe um centro de ioga, ou de meditação, para resgatar o homem moderno do seu excesso neuronal.

    E um documentário recente, intitulado "Minimalism: A Documentary About the Important Things", relata a odisseia de dois "yuppies" que abandonaram a "carreira" (e o materialismo associado) para pregarem aos incréus as virtudes do despojamento –e da vida "com sentido".

    Nada disso é novo: a tecnologia avança, o tempo acelera –e qualquer ser humano suspira por uma existência mais "pura" e "liberta". Foi assim no século 19. É assim no século 21. Henry David Thoreau (1817-1862), que nasceu há 200 anos, sabia do que falava.

    Pena que os seus contemporâneos não lhe tenham prestado a atenção devida. O seu "A Desobediência Civil" é hoje um texto clássico do anarquismo pacifista. Em 1849, foi devidamente ignorado. "Walden", a obra-prima, não conheceu melhor sorte em 1854.

    E, no entanto, ler ou reler a experiência do autor no bosque, junto ao lago que dá título ao livro, nunca nos soou tão familiar. "Viver deliberadamente" era a ambição de Thoreau –e o grito desesperado da nossa "sociedade do cansaço", para usar a expressão feliz do filósofo Byung-Chul Han.

    2.

    Assim se entende a existência de um jogo baseado em "Walden". Quando soube da bizarria, ri alto: como transformar as meditações solitárias de Thoreau em videogame? O meu ceticismo, atenção, não estava na alegada "blasfêmia" do projeto (para mim, não existem livros intocáveis). Estava na impossibilidade dele.

    A desconfiança foi recuando quando soube que o jogo era patrocinado pela National Endowment for the Humanities, instituição que tudo tem feito para ressuscitar, com a dignidade inerente, a obra completa do autor.

    Comprei o jogo e iniciei a experiência. Escrevo "experiência" porque somos convidados a ser Thoreau, a ver o mundo pelos seus olhos, a tocar nos objetos com as suas mãos.

    Assista ao trailer oficial do jogo

    Assista ao trailer oficial do jogo

    É uma escolha feliz: tal como Thoreau escreve nas primeiras linhas de "Walden", a primeira pessoa do singular é uma afirmação epistemológica. Não existe ninguém que Thoreau conheça tão bem como ele próprio. Donde, ele próprio será o tema da sua narrativa.

    Então aceitei ser Thoreau. Caminhei pelo bosque. Fui recolhendo objetos, contemplando as árvores e reconhecendo a cabana incompleta que esperava por mim.

    Entrei em casa. Mas, antes de entrar, recebi e li a carta da minha irmã Sophie a desejar-me boa sorte.

    Anoiteceu. Sozinho, junto a uma modesta mesa de madeira, remendei um terno velho à luz de uma lanterna. E antes de me deitar no catre, reli as páginas do meu diário.

    O dia raiou. Acordei, levantei-me. Outra carta chegou: era Ralph Waldo Emerson, filósofo transcendentalista com quem mantenho uma amizade atribulada. Para limpar os pensamentos, fui até o lago Walden. No regresso à casa, aqueci-me na fogueira.

    Como Thoreau escreveu, não estamos propriamente sós quando escutamos "a dignidade da Natureza". Eu escuto tudo: o rumor da água, o vento entre os ramos, o eco dos pássaros.

    A leitura ajuda. Li algumas páginas da "Ilíada", o poema homérico que Thoreau levou com ele para o bosque em 1845. E senti a passagem do tempo nas diferentes tonalidades da luz.

    Jogamos "Walden" e percebemos que "Walden" não é propriamente um jogo. Não há um objetivo definido, um destino triunfal. E as mensagens que continuamente nos chegam –quando lemos uma carta, as páginas de um livro, as anotações do diário– repetem o adágio: "Take your time". Um jogo é competitivo. "Walden" é contemplativo. Thoreau iria gostar.

    3.

    Não vale a pena dizer o óbvio: nada substitui a leitura do clássico. Aliás, quando o assunto são as grandes obras, nada substitui a leitura das mesmas.

    Mas o jogo, inteligentemente pensado e visualmente elegante, não procura substituir coisa alguma. É apenas uma homenagem a Thoreau e ao seu texto maior, procurando recriar aquele que me parece ser o tema central de "Walden": como habitar o tempo sem sermos usados e abusados por ele?

    Thoreau não era um estoico, ao contrário do que Emerson escreveu no elogio fúnebre. Mas, quando lemos a primeira carta do estoico Sêneca ao seu discípulo Lucílio, encontramos uma meditação sobre o tempo que Thoreau subscreve: "Reclama o direito de dispor de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugia das mãos". E, mais à frente, Sêneca prossegue: "Só o tempo é mesmo nosso". (Uso a tradução para o português que J.A. Segurado e Campos publicou na Fundação Calouste Gulbenkian.)

    Eis a premissa de Thoreau: viver dois anos e dois meses junto ao lago Walden para usar livremente o tempo que o trabalho, a sociedade e a opinião tirânica de terceiros constantemente nos rouba. Viver uma "vida independente", em suma, o que implica um exercício de simplificação. Quantos dos nossos desejos não são supérfluos e nocivos? E até que ponto as reais necessidades humanas não são mais elementares do que pensamos?

    Duzentos anos depois do nascimento de Thoreau, essas são as perguntas que permanecem com o homem contemporâneo: um ratinho de laboratório que pedala todos os dias, medrosa e freneticamente, para chegar a lugar nenhum.

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