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    Livro com Nova York submersa, em 2140, reaquece subgênero climático

    MARCELO LEITE
    DE SÃO PAULO

    15/10/2017 02h45

    Francisco Martins/Folhapress
    São Paulo submersa - SP Barragem - New York 2140

    Nova York foi inundada até a altura da rua 26. Toda a porção sul de Manhattan está sob água depois que o mar se elevou alguns metros em consequência do aquecimento global. O ano é 2140, e o governo dos Estados Unidos ainda zela pelo bem-estar do capital, não das pessoas.

    Poderia ser um filme, e talvez se torne um. Mas é o mais novo livro de ficção climática ""cli-fi, como se apelidou o gênero: "New York 2140", de Kim Stanley Robinson.

    A obra (sem previsão oficial no país) soa como uma tentativa algo artificial de reviver não só o nicho literário, mas também uma utopia anticapitalista. Usa como pretexto para tanto um furacão devastador, Fyodor, que se abate sobre a Super-Veneza americana.

    A mudança climática desenfreada, capaz de deflagrar a inundação da Big Apple e a tempestade que a afunda mais um pouco, até parece provável. Lembre-se do furacão Sandy (2012) e da saraivada deste ano: Irma, José, Maria, Harvey. O próprio Acordo de Paris (2015) não vai muito bem, após a eleição de Donald Trump.

    Já a revolução financeira do romance tem mais de acerto de contas de Robinson com o socorro dado aos bancos na crise de 2008 do que com o aquecimento global propriamente dito. O clima comparece mais como exemplo extremo dos males que Wall Street pode causar ao mundo.

    As ruas da parte baixa de NYC se tornaram canais, e os moradores se locomovem em barcos particulares, táxis aquáticos e vaporetos. Todos os personagens centrais moram no prédio de 50 andares, o Metropolitan Life Insurance, construído em 1909 na avenida Madison ""não por acaso inspirado no campanário de Veneza e parcialmente inundado.

    Uma moradora, ativista social e ex-mulher do presidente do Fed, se une a um operador de fundos de hedge, uma strip-teaser defensora de animais, o zelador-mergulhador, dois meninos sem-teto e uma dupla de hackers velhos para tentar explodir a bolha financeira alimentada pela especulação imobiliária na zona intermarés da metrópole.

    Seu plano é iniciar um efeito dominó, e o clima se encarrega de ajudá-los mandando o furacão. Como em qualquer obra de ficção científica, verossimilhança e inverossimilhança se misturam, no limite da plausibilidade (para saber o desfecho, o leitor terá de enfrentar as 613 páginas do livro).

    MARTE E ANTÁRTIDA

    Kim Stanley Robinson disse em entrevista por escrito à Folha que sua atenção para a mudança do clima não resulta de um modismo cli-fi. O tema já era central na sua premiada trilogia sobre Marte ("Red Mars", "Green Mars" e "Blue Mars"), publicada entre 1993 e 1996.

    O escritor conta ainda que em 1995 foi à Antártida com apoio da Fundação Nacional de Ciência dos EUA e depois escreveu um livro, "Antarctica" (1997), em que a mudança climática exerce algum papel. Por fim, o mesmo tema ressurge na triologia "Ciência na Capital" (Fourty Signs of Rain", "Fifty Degrees Below" e "Sixty Days Counting"), publicados de 2004 a 2007.

    "Pensei que a mudança do clima já tinha dado para mim", afirma Robinson. "Aí uns anos atrás quis escrever sobre finança global, e Nova York era um cenário óbvio para tal novela. Meu editor então me lembrou da Nova York afogada que eu havia descrito brevemente em '2312'."

    O romancista discorda, porém, de que a questão climática apareça reduzida à condição de coadjuvante no novo livro: "A mudança é algo real com efeitos reais, enquanto a finança é uma construção fictícia com alguns efeitos reais, mas muitos efeitos fictícios, e seus efeitos reais são às vezes de reversão rápida com uma mudança de leis".

    "Podemos reformar o capitalismo rapidamente por meio de ação política e legislativa. A mudança climática não é tão fácil de mudar", diz. "O capitalismo global financeirizado é a principal causa da mudança climática, e não a população humana por si só, nem a tecnologia suja."

    O ANTI-CRICHTON

    Em certo sentido, com "New York 2140", Robinson fez de um ponto de vista próximo de Bernie Sanders (na esquerda do Partido Democrata) o que Michael Crichton antecipou em 2004, com "Estado de Medo", da era negacionista à moda de Trump: um romance de ficção científica, climática e ideológica.

    No caso do autor de "Parque Jurássico", os personagens se digladiavam sobre a própria ideia de aquecimento global. Militantes da causa ambiental aparecem como figuras ridículas, dispostas a um ato extremo de terrorismo: provocar a separação de um gigantesco iceberg na Antártida para convencer o público da existência da mudança climática.

    Hoje, com os furacões e os incêndios florestais de 2017, isso já deveria ser desnecessário, mas não é. No romance de Crichton, os mocinhos são pesquisadores "céticos" empenhados em mostrar que climatologistas são conspiradores com uma agenda política antirregulamentação da liberdade empresarial.

    "Estado de Medo" resultou um livro tedioso, como se pode esperar de um romance com notas de rodapé para indicar os artigos científicos que lhe serviram de fonte. E tome 34 páginas de apêndices –20 entulhadas com bibliografia.

    "New York 2140" não vai tão longe, mas também é uma obra de ficção esquemática. Pouca ciência e muita exposição didático-histórica sobre fundos de hedge, derivativos, securitização e por aí vai.

    Talvez seja por causa dessa fixação no capitalismo financista que o romance de Robinson se afaste um tanto da obra de cli-fi típica, em que heróis e anti-heróis são ou pesquisadores ou ambientalistas. Apesar da extensão do volume, seus personagens ficam subdesenvolvidos, sob tacão da tese anticapitalista.

    Já se fez literatura bem mais densa sobre o assunto. Jonathan Franzen, com "Liberdade", Ian McEwan, com "Solar", Barbara Kingsolver, com "Flight Behavior", e Ilija Trojanow, com "Degelo", foram fundo na pele de seus cientistas, militantes e cônjuges desajustados.

    PÉ NA ESTRADA

    Na apresentação de um planeta desfigurado pela mudança do clima, e não em debate com uma ideia científica, "New York 2140" se assemelha à maior obra-prima de cli-fi dos últimos anos: "A Estrada", de Cormac McCarthy. Não chega a seus pés, contudo.

    Em 2006, McCarthy compôs uma novela angustiante com pai e filho vagando pela paisagem calcinada, tentando sobreviver a uma hecatombe de fogo como a que se pode ver hoje, em ponto menor, nos incêndios fora de controle na Califórnia (e, há poucos meses, em Portugal). Fome, doença e canibalismo desfazem todos as inibições e os laços humanos, menos as que unem o homem e o menino.

    Não há uma explicação sequer no livro sobre clima ou finanças. E, no entanto, em poucas páginas –entre os milhões das já escritas sobre o tema, ficção ou não– se encontrará apresentação mais vívida do que a mudança do clima pode infligir à humanidade –culpa ou não do capitalismo.

    Precisamos ouvir o que ficcionistas como Robinson têm a dizer sobre o mundo concreto: "Negar a realidade não funciona a longo prazo. Nós a chamamos de realidade porque ela é real. Pode-se falar o quanto quiser sobre 'notícias falsas' e 'pós-verdade' ""a realidade ainda será real, e vai fazer sua casa cair".

    *

    NEW YORK 2140
    AUTOR Kim Stanley Robinson
    EDITORA Orbit
    QUANTO R$ 71,33 (capa dura) e R$ 25,73 (e-book), na Amazon

    Edição impressa

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