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    Nova no mercado, editora Âyiné firma bom catálogo fora do radar

    MAURÍCIO MEIRELES
    COLUNISTA DA FOLHA

    27/01/2018 02h00

    Hulton Archive/Getty Images
    O escritor francês Marcel Proust, um dos autores publicados pela Âyiné
    O escritor francês Marcel Proust, um dos autores publicados pela Âyiné

    Começou discretamente. A princípio, ninguém sabia bem de onde estavam vindo aqueles livros -os editores não eram conhecidos, fosse pelo mercadão livreiro fosse pelas casas independentes. De todo modo, o catálogo chamava a atenção pela qualidade, formado principalmente por obras fora do radar das grandes casas do país.

    Novata no mercado e completando um ano de existência, a editora Âyiné já está com sua distribuição consolidada em livrarias. Ah, sim, o nome esquisito vem do persa, significa espelho e se pronuncia "ainé".

    A casa, que imprimia até bem recentemente seus livros em Veneza e os mandava para o Brasil, é dirigida por Pedro Daniel de Moura Fonseca, especialista em literatura persa que vive na Itália.

    "Um amigo mandou uma mensagem dizendo 'Esse pessoal é muito metido a besta com esse nome de editora em francês', mas, bem, o nome é ainda mais metido a besta, porque é persa", diz.

    A editora estreou com a coleção Biblioteca Antagonista, uma parceria com o site conservador de mesmo nome. Sim, a seleção trazia grandes intelectuais do conservadorismo em edições bem acabadas, como Isaiah Berlin, Roger Scruton e Joseph Roth -mas também tem autores de esquerda, como Daniele Giglioli, com "Crítica da Vítima".

    "Esse começou a vender mais depois que saiu o do Francisco Bosco ["A Vítima Tem Sempre Razão?"], não sei se estão comprando por engano", brinca o editor.

    BOOM CONSERVADOR

    A Biblioteca Antagonista também traz ensaios literários de autores como a russa Marina Tsvetáeva, Proust e Robert Musil, entre outros.

    "Qualquer coisa bem escrita entra no catálogo. Mas é claro que não vou publicar um nazista", diz Moura Fonseca.

    "Nem a Biblioteca Antagonista é uma coleção só de direita, publicamos a Simone Weil. Com ela também temos o Michael Oakeshott, porque eu não entendia como, no meio do boom do conservadorismo, não se publicava o maior intelectual conservador do século 20."

    A Âyiné prepara para este ano uma coleção com intelectuais de esquerda, que contará com o livro "Melancolia de Esquerda", do historiador italiano Enzo Traverso.

    "Li 'Os Caminhos da Esquerda', do Ruy Fausto, e acho que a esquerda está precisando renovar. Mas, se há mesmo uma crise da esquerda mundial, há muita coisa boa sendo produzida. Um certo ramo da direita criou um fausto ideológico, ataca uma esquerda de muito tempo atrás, que não existe mais."

    A inspiração é a Adelphi, dirigida pelo escritor italiano Roberto Calasso -que fala da importância da casa editorial na Europa em "A Marca do Editor", a sair pela Âyiné.

    Além de Moura Fonseca, os italianos Simone Cristoforetti e Dhuane Fabbris e o brasileiro Fábio Saldanha são sócios da Âyiné, que até agora lança seus livros em formato de bolso. Os volumes são relativamente baratos, custando R$ 19, R$ 29 ou R$ 39.

    A ideia é não ter edições de luxo. "Acho errado, em um país como Brasil, fazer livros de luxo. Podemos um dia fazer um ou outro, mas não como uma política de coleções. Não gosto de falar em intervenção, mas o editor tem o papel cultural de promover o debate", diz o editor.

    Originalmente, a ideia da Âyiné era só distribuir suas edições em livrarias independentes, para não precisar entrar nas negociações draconianas com grandes redes. Mas a ideia não funcionou e foi preciso mudar o rumo.

    "Surpreendentemente, foi mais difícil entrar em livraria de bairro do que em livraria comercial. De umas não recebemos resposta, outras disseram que não tínhamos o perfil. Só conseguimos bem em Belo Horizonte. As maiores acreditaram mais em nós", diz Moura Fonseca.

    A impressão, que antes era feita em Veneza, deixou de ser vantajosa por conta do câmbio -e as últimas tiragens já foram feitas no Brasil. Para viabilizar comercialmente a operação, a Âyiné imprime vários títulos de uma vez. Na próxima leva, por exemplo, serão rodadas 25 obras.

    Começar as operações em meio à crise econômica brasileira, diz Moura Fonseca, teve suas vantagens. Quando saiu em busca de comprar direitos, as editoras brasileiras estavam mais tímidas no mercado internacional.

    "Fui conversar na [editora francesa] Gallimard e eles disseram que não conseguiam vender nem o vencedor do Prêmio Goncourt para o Brasil. Foi bom, porque tínhamos muita coisa livre para comprar. Além disso, para o tipo de livro que publicamos nunca vai haver momento bom ou ruim. É como a poesia. A poesia está em crise? Ela está sempre em crise."

    Mas como botar uma editora de pé? Há algum investidor? Moura Fonseca diz que não; ele e seus sócios colocam dinheiro do bolso.

    "Muita gente fala que o Calasso é financiado pela CIA e pela maçonaria. E ele diz que nunca se fala se temos investidores ou não, o importante é tê-los. No nosso caso não temos. Mas nos interessamos se alguém quiser", ri.

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