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    Gabriele d'Annunzio: poeta, sedutor e apóstolo da guerra

    THOMAS JONES
    DO "GUARDIAN"

    01/03/2013 14h00

    O homem que Mussolini definiu como o "João Batista" do fascismo foi um herói nacional com apetite insaciável por sexo.

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    Em 7 de agosto de 1915, Gabrielle d'Annunzio e Giuseppe Miraglia decolaram de Veneza em um avião, rumo a Trieste, então ainda parte do Império Austro-Húngaro, com uma carga de bombas e panfletos de propaganda. Miraglia, o piloto, tinha 32 anos e era oficial do exército italiano; d'Annunzio, que voava no assento do observador, era 20 anos mais velho que o companheiro e famoso em toda a Itália, Europa e mais além, como escritor, libertino e nacionalista feroz. Ele carregava um caderno, no qual anotou suas impressões sobre Veneza vista do ar ("os tortuosos canais, verdes como malaquita"), e usava as páginas para escrever mensagens a Miraglia: "Você quer um café?"

    Ao chegar a Trieste, eles foram alvo de fogo inimigo. Miraglia mergulhou com o avião por sobre a marina da cidade, e d'Annunzio lançou bombas contra os submarinos austríacos e folhetos (cujo texto ele mesmo havia escrito) nas piazzas. Quando tomaram o curso de retorno à Itália, perceberam que uma das bombas havia ficado presa ao avião. "Veja se você consegue empurrá-la", Miraglia escreveu no caderno de d'Annunzio. "Mas não a gire". O escritor deve ter conseguido realizar a manobra, porque o avião pousou em segurança em Veneza. D'Annunzio havia acabado de "iniciar sua nova vida como herói nacional", escreve Lucy Hughes-Hallett em "The Pike: Gabriele d'Annunzio - Poet, Seducer and Preacher of War", a nova e instigante biografia desse "poeta, sedutor e apóstolo da guerra".

    D'Annunzio nasceu na província de Abruzzo em 1863. Seu pai, proprietário rural e comerciante de vinho, era prefeito de Pescara, na costa adriática da Itália. Aos 11 anos, Gabrielle foi enviado a um colégio interno em Prato, do outro lado dos Apeninos, a 400 quilômetros de casa. "Primo Vere", seu primeiro livro de poesia, foi publicado quando ele tinha 16 anos, custeado por seu pai. A crítica da influente revista semanal "Fanfulla della Domenica" foi positiva. Pouco antes do lançamento de uma segunda edição expandida, no ano seguinte, um editor de jornal em Florença recebeu um cartão postal anônimo de Pescara, anunciando que d'Annunzio havia morrido depois de uma queda ao cavalgar. A notícia, reportada por jornais de toda a Itália, não era nem perto de verdadeira: d'Annunzio mesmo, exibindo seus talentos precoces não só como escritor mas para a autopromoção, havia enviado o postal.

    Depois disso, detê-lo se tornou impossível. Não demorou para que se mudasse para Roma, escrevendo prolificamente --poesia, jornalismo, contos; gastando prodigiosamente-- não importa o quanto ou quão pouco estivesse recebendo, ele sempre viveu muito além de suas posses, tendo um fraco fatal por objetos de decoração; e praticando a promiscuidade sexual. O padrão que ele seguiria pelo resto da vida estava estabelecido. Pelos 20 anos seguintes, d'Annunzio pontuaria sua busca permanente de aventuras --cavalgadas, caçadas, corridas de carro, voos, e sexo quase ininterrupto-- com períodos de retiro que dedicava a escrever. O primeiro de seus sete romances, "Il Piacere", foi escrito em sete meses, em 1888, período que ele passou recluso na casa de um amigo em Abruzzo. O herói, Andrea Sperelli, é um jovem e cínico libertino vivendo os prazeres de Roma. Henry James admirou "o esplêndido senso visual" do texto, e o "estilo amplo e refinado" (um dos motivos para que o livro pareça datado, hoje). As vendas foram fantásticas, e o romance fez de d'Annunzio uma celebridade internacional.

    Um problema para o biógrafo é que o encanto pessoal de d'Annunzio parece ter residido principalmente em sua voz e em sua competência sexual, e é difícil demonstrar essas qualidades na página. O insaciável apetite sexual do escritor deixou uma trilha de mulheres arruinadas, repudiadas pelos pais, abandonadas pelos maridos ou internadas em manicômios. Seu egoísmo absurdo, sua retórica nacionalista e obsessão quanto a "semear de sangue a terra": isso fica bem claro.

    Mas temos de aceitar a palavra de todo mundo que o conheceu quanto aos seus atrativos irresistíveis (bem, nem todo mundo: Ernest Hemingway o definiu como "escroto", e a cortesã Liane de Pougy o descreveu como "um gnomo apavorante com olhos avermelhados e sem sobrancelhas, sem cabelo, dentes esverdeados, mau hálito e os modos de um fanfarrão".)

    Uma das melhores descrições sobre a voz hipnótica de d'Annunzio vem da filha adolescente do compositor Pietro Mascagni: "Quando o signor d'Annunzio fala, é sempre como se estivesse contando um segredo ao interlocutor. Mesmo que esteja apenas dizendo bom dia". Ela o conheceu em Paris, para onde o escritor se mudou em 1910 a fim de escapar aos seus credores na Itália.

    D'Annunzio fez um retorno triunfal ao seu país em maio de 1915, convidado a discursar na inauguração de um monumento a Garibaldi em Quarto, perto de Gênova. Ele usou sua voz mágica para falar às vastas multidões que acorreram para recebê-lo --100 mil pessoas quando ele chegou a Roma, em 12 de maio, de acordo com o jornal "Corriere della Sera" -, apelando para que a Itália entrasse na guerra e completasse a unificação do país pela anexação de vastas porções do Império Austro-Húngaro-- ainda que a decisão de fazê-lo já tivesse sido tomada de modo irrevogável quando o escritor ainda estava na França.

    O imenso morticínio e os três anos de impasse na campanha dos montes Dolomitas em nada reduziram o entusiasmo de d'Annunzio pela guerra. Ele perdeu muitos amigos, entre os quais Miraglia, e ficou cego de um olho depois da queda de um avião em que estava voando. Mas depois do armistício escreveu que "sinto o fedor da paz". Para d'Annunzio, a guerra não estava acabada: em setembro de 1919, ele liderou um pequeno exército de combatentes irregulares e soldados amotinados e ocupou a cidade de Fiume (hoje Rijeka, na Croácia), cujo controle estava em disputa, estabelecendo-se como ditador. Reinou por 15 meses como "Duce" de Fiume, até que um bombardeio da marinha italiana o forçou a se retirar.

    Em fevereiro de 1921 ele se mudou para a casa vizinha ao lago Garda onde viveria em reclusão parcial até a morte, em 1938, dedicando-se à cocaína, coito e decoração de interiores. Sua aposentadoria foi bancada, majoritariamente, pelo governo fascista, que queria mantê-lo quieto e fora do caminho. Mussolini desejava promover d'Annunzio como o João Batista do fascismo, e fazê-lo seria muito mais fácil caso o homem, que discordava dessa interpretação, estivesse fora do caminho.

    "Ainda que d'Annunzio não fosse fascista", afirma Hughes-Hallet, "o fascismo era d'annunziano". Em 1892, ele havia escrito que "os homens serão divididos em duas raças. Aos superiores, que se terão erguido pela pura energia de sua vontade, tudo será permitido; aos inferiores, nada ou quase nada". Admiradora de alguns de seus trabalhos, e insistindo em avaliar d'Annunzio em seu contexto, Hughes-Hallett faz o possível para não pronunciar opiniões sobre a vida do escritor. Ela afirma ser "uma mulher escrevendo sobre um homem que se autodenominava 'o poeta da virilidade', e uma pacifista escrevendo sobre um homem belicoso, mas a desaprovação não é uma resposta interessante". Apesar disso, ela o define como "repulsivo" em diversas ocasiões --o que d'Annunzio de fato era. Desaprovação nem sempre é interessante, mas ocasionalmente é inevitável.

    Tradução de PAULO MIGLIACCI

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