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    Bienal de Charjah põe Ocidente em questão

    ALCINO LEITE NETO
    EDITOR DA TRÊS ESTRELAS

    31/03/2013 03h00

    Por um instante, fico em dúvida se devo ou não cumprimentar a mulher à minha frente, vestida com o chador, o tradicional traje árabe preto, que lhe cobre todo o corpo, fora o rosto e as mãos. Conselhos de todo tipo haviam me deixado em alerta sobre as regras que cercam o contato com o sexo feminino em Charjah, um dos Emirados Árabes Unidos. Ela, porém, dirige-se a mim com sorriso solto e em inglês fluente, estendendo-me a mão pequena e delicada. Com uma naturalidade bem ocidental, nós nos apresentamos.

    Estou diante da sheika Hoor Al Qasimi, e estamos os dois na entrada da 11ª Bienal de Charjah, o maior evento de artes plásticas do mundo árabe, desta vez com a participação de mais de cem artistas de toda parte, inclusive nove brasileiros: Lucia Koch, Sara Ramo, Tamar Guimarães, Cinthia Marcelle, Ernesto Neto, Pablo Lobato, Cao Guimarães, Felipe Bragança e Zahy Guajajara.

    A sheika Hoor tem pouco mais de 30 anos. É filha do governante de Charjah, o sheik Sultan Mohamed Al Qasimi, cuja família reina ali desde o século 18. Assim como o pai, ela estudou na Inglaterra. Ele fez doutorado em história e ciências políticas. Hoor formou-se em pintura e curadoria, e desde 2003 preside a Fundação de Arte de Charjah, que organiza a Bienal. Conta-se que o sheik, que é também autor de vários livros de história e dramaturgo, teria decidido criar o evento em 1993 por suas afinidades com as artes. Na mesma semana da Bienal, ocorria a 23ª edição do Festival de Teatro de Charjah, aberto com a peça "O Ditador", de Essam Mahfouz.

    Depois da capital, Abu Dahbi, e de Dubai, Charjah é a terceira maior cidade dos sete Emirados Árabes Unidos, federação criada formalmente em 1971, após décadas de intervenção britânica na região. Com um milhão de habitantes, Charjah não tem a pujança de Abu Dahbi (1,6 milhão), o maior produtor de óleo, nem a de Dubai (1,7 milhão de habitantes), o potente centro financeiro e turístico. Mas o gosto pessoal do sheik Mohamed, bem como seu apreço pelo patrimônio histórico, parecem ter se aliado a uma sábia estratégia de marketing, com vistas a fazer de sua cidade um contraponto culturalmente sofisticado à ostentação um tanto frívola de Dubai.

    Vista do 124º andar do edifício Burj Khalifa, considerado o mais alto do mundo, Dubai produz impressões contraditórias. Ficamos incertos se estamos em meio a uma impressionante empreitada modernizadora, com os edifícios audaciosos brotando do deserto arcaico, ou se tudo aquilo não passa de uma gigantesca encenação, como o cenário de um filme futurista.

    Ao rés do chão, é igualmente poderosa, mas menos inóspita: o deserto dá lugar a numerosos e bem cuidados jardins e praças, rodovias, viadutos e metrô high-tech. Como todas as construções são, afinal, bastante novas, tem-se a sensação de que primeiro ergueram a cidade para depois povoá-la. A agitação da vida cotidiana se concentra em ambientes turísticos ou fechados: shoppings, hotéis luxuosos, restaurantes internacionais e centenas de escritórios. Nas ruas, é como se todos ali estivessem apenas de passagem.

    Por isso, um complicado engarrafamento, pela manhã e à tardinha, toma conta da rodovia que liga Dubai a Charjah, distantes uma da outra apenas 15 km. Muitos que trabalham na primeira vivem na segunda, por causa do custo de vida -o aluguel custa metade do preço de Dubai.

    Em escala mais modesta, Charjah também vive sua modernização, mas como se fosse um apêndice da titânica vizinha. A sua arquitetura é menos espetacular, mais uniforme e tradicionalista. Os costumes também são mais austeros, como a proibição total ao álcool.

    Por esse motivo, após o jantar de abertura da Bienal os convidados foram levados de ônibus até um hotel em Dubai, onde puderam festejar e bebericar à vontade.

    DILBAR
    Muito solicitada, sheika Hoor se despede de mim, e sigo pelos corredores ao lado do cineasta e artista tailandês Apichatpong Weerasethakul, que me leva até a sala onde se exibe o trabalho que fez em parceria com Chai Siri, "Dilbar". Apichatpong -que adotou entre amigos o nome ocidental Joe, para facilitar as coisas- também foi o curador de uma mostra de filmes na Bienal, exibida no Mirage Cinema, um espaço ao ar livre.

    Nascido em Bangcoc, Apichatpong é um poeta extraordinário do cinema contemporâneo. Tem 42 anos e vive numa casa de madeira no interior da província de Chiang Mai. As atenções se voltaram para ele quando seu segundo longa-metragem, "Blissfully Yours", foi premiado em 2002 na mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes.

    Desde então, ele caiu nas graças dos críticos e não os decepcionou, realizando belos filmes, em que alia a pesquisa formal à busca de uma linguagem narrativa livre, lírica, imaginativa e também inquietante. Cannes rendeu-se outras vezes a ele: deu-lhe o Prêmio do Júri em 2004 por "Tropical Malady" e, finalmente, a Palma de Ouro de 2010 por "Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas".

    O gosto de Apichatpong pelo experimentalismo levou com que também atraísse os olhares do meio das artes plásticas, e por isso há alguns anos ele tem apresentado seus trabalhos em museus e galerias, como a instalação "Primitive Project" (2009), sobre os fantasmas políticos da Tailândia. Em julho, deve vir ao Brasil, para um workshop em Belo Horizonte, promovido pelo Instituto Inhotim.

    Percorro a mostra, que acontece numa área ancestral de Charjah, tombada e recuperada, repleta de construções cor de areia, corredores labirínticos, jardins e muralhas. Há obras de artistas celebrados, como Olafur Eliasson, Gabriel Orozco, Francis Alÿs, Yang Fudong e Matthew Barney.

    Entretanto, para os que têm pouca intimidade com o mundo das artes plásticas, a Bienal de Charjah é uma povoação de ilustres desconhecidos, como deixa ver a lista dos premiados neste ano: Tiffany Chung, Monir Shahroudy Farmanfarmaian, Magdi Mostafa, Fumito Urabe e Wael Shawky -que apresentou dois ótimos trabalhos, entre eles "Dictums", com textos de curadores cantados em urdu, a língua nacional paquistanesa, como se fossem música religiosa.

    Também Apichatpong e Chai Siri foram premiados por "Dilbar", uma pungente videoinstalação sobre operários oriundos de Bangladesh que trabalharam na construção da Bienal. Trata-se de um tema muito sensível nos Emirados Árabes Unidos, para onde milhares de imigrantes de países muçulmanos partem em busca de um futuro melhor -o que eles nem sempre encontram. Durante o evento, os jornais noticiaram mais dois suicídios de indianos na região por causa de dívidas. "Presas de agiotas famintos", dizia a manchete do "Gulf News" de 18 de março.

    POLÍTICA
    A abordagem social e política não é característica apenas do filme de Apichatpong e Chai Siri. Está presente em inúmeras obras da Bienal, interessadas em discutir desde o racismo e o colonialismo -como em "Làk-kat", filme do albanês Anri Sala, um dos melhores trabalhos da mostra- até os estereótipos ocidentais a respeito do mundo árabe -como na provocadora instalação "Studio Pietà - King Kong Komplex", do britânico Simon Fujiwara.

    O foco crítico das obras e o elenco de artistas de diversas procedências atendem ao desejo da curadora, a japonesa Yuko Hasegawa, de pôr em questão o "Westerncentrism" (a centralidade do Ocidente) na cultura e repensar a relação entre o mundo árabe, a Ásia, a África e a América Latina. Daí o título da mostra: "Re: emerge - Towards a New Cultural Cartography" (Re: emergir - Rumo a uma Nova Cartografia Cultural).

    É um mérito de Charjah promover a (re)descoberta de criadores de países ditos "periféricos", estabelecendo entre eles um circuito de trocas e interferências, e propor que reflitam sobre a situação das diferentes culturas em face das novas configurações geopolíticas do mundo. Entretanto, em muitos trabalhos, o discurso político parece sobrepor-se à invenção artística, redundando em puro blablablá engajado. Em outros, a imaginação parece refreada pelas boas intenções e a correção política, ou se manifesta em resultados formais bastante previsíveis.

    Curiosamente, na Bienal de Charjah não há nenhum trabalho que possa ser considerado blasfemo ou ofensivo aos costumes da região (por exemplo, exibir pessoas inteiramente nuas). Abordar, mesmo em obras artísticas, uma coisa e outra, pode resultar em pena severa no emirado. Foi por causa de uma instalação sobre o estupro de mulheres na Argélia por um grupo de muçulmanos que o curador anterior, Jack Persekian, acabou demitido em 2011. Nenhum dos trabalhos questiona frontalmente o sistema político dos Emirados Árabes Unidos, onde a democracia -essa impertinente mania ocidental- é, por enquanto, uma miragem.

    *
    Nota
    O jornalista Alcino Leite Neto viajou a Charjah a convite da 11ª Bienal, na qual foi co-curador da mostra projetada por Apichatpong Weerasethakul.

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