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    As análises, em livros e filmes, de junho de 2013

    PABLO ORTELLADO
    cartum ARNALDO BRANCO

    29/06/2014 03h12

    RESUMO Conjunto de livros e documentários sobre as mobilizações de rua que eclodiram pelo país há um ano traça retrato de como, apesar de manterem eixo comum, movimentos tiveram particularidades em cidades como Belo Horizonte, Rio e São Paulo. Obras também buscam raízes históricas de novas formas de ativismo social.

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    A arrebentação de mobilização social no país em junho de 2013 foi acompanhada também de uma pequena onda editorial. Tratam-se não apenas de análises dos movimentos de junho mas de livros que buscam discutir questões como as novas formas de ativismo e que, juntos, ajudam a compreender o que há de diferente no horizonte político brasileiro.

    Embora a maior parte dos estudos sobre junho esteja dispersa em coletâneas e revistas acadêmicas, algumas análises de maior fôlego ganharam o formato livro. São ainda pouco diversas em comparação com as dos periódicos, mas têm o mérito de já contemplar as particularidades locais deste fenômeno.

    De certa maneira, a emergência das mobilizações pode ser traçada a partir da história do Movimento Passe Livre e das revoltas de transporte que têm acontecido regularmente pelo menos desde a chamada Revolta do Buzu, em Salvador, em 2003. De lá para cá, jovens têm, de tempos em tempos, bloqueado ruas das grandes cidades do país exigindo a revogação do aumento das passagens de ônibus.

    Por outro lado, particularidades dos protestos nas diferentes cidades do Brasil mostram que é preciso olhar para o que há de específico em cada lugar. Em comum, vemos apenas os traços gerais de mobilizações marcadas por formas de organização horizontal, pela crítica das instituições representativas e pelo emprego de formas de ação direta, como protestos de rua e ocupações.

    "Nas Ruas: a Outra Política que Emergiu em Junho de 2013" [Letramento, 264 págs., R$ 59,90], do antropólogo Patrick Arley e do sociólogo Rudá Ricci, tenta explicar o processo que forjou as manifestações de junho de 2013 em Belo Horizonte. Além do registro fotográfico dos protestos, feito por Arley, o livro também resgata os esforços dos ativistas que, desde o começo dos anos 2000, tentam construir um novo movimento social, fora do ciclo de lutas que tinha levado à formação do PT.

    Arnaldo Branco

    O livro narra o surgimento de coletivos de ativistas, festivais de contracultura e ações que misturam arte e política. É nessa tradição que o texto de Ricci enxerga a gênese do junho mineiro.

    Se essa tradição contracultural um pouco ligada ao anarquismo será a responsável pelas novas formas sociais que ficaram mais visíveis em junho, ela também é responsável por suas limitações.

    Em Belo Horizonte, o movimento se caracterizou por construir uma bem estruturada e relativamente longeva Assembleia Popular Horizontal, que se dividiu em diversos grupos de trabalho para discutir os problemas da cidade.

    Ao mesmo tempo em que aprofundou o debate público e construiu uma experiência viva de democracia direta, ela enfrentou obstáculos para converter essa vitalidade comunitária em mudança por meio das instituições políticas, em parte por dificuldade dos manifestantes, em parte por dificuldade dos governos estadual e municipal em reconhecer as particularidades das novas formas organizativas do movimento social.

    POTÊNCIA

    No Rio, o processo foi mais conturbado e potente na sua desestrutura e multiplicidade, como argumenta o ativista Bruno Cava em "A Multidão Foi ao Deserto: as Manifestações no Brasil em 2013 (Jun-Out)" [Annablume, 156 págs., R$ 40].

    O movimento carioca se caracterizou por ações pontuais e "ad hoc" que produziram ora manifestações multitudinárias, ora ações menores, como as ocupações contra o governador Sérgio Cabral ou a Câmara de Vereadores.

    Se a experiência de Belo Horizonte após a primeira onda de protestos foi marcada pela organização da Assembleia Popular Horizontal, o pós-junho no Rio se notabilizou por grandes atos em apoio à greve dos professores da rede pública. A mistura de ação sindical e apoio popular parece fazer a ponte entre a ida às ruas de junho de 2013 e as greves de trabalhadores de maio e junho de 2014.

    Os protestos de São Paulo, por sua vez, destacaram-se pela centralidade da luta contra o aumento das passagens de ônibus e metrô e pelo papel estratégico ocupado pelo Movimento Passe Livre. "#VemPraRua" [Breve Companhia/Companhia das Letras, 37 págs., R$ 4,99], e-book de Piero Locatelli, narra em tom de relato jornalístico as vivências do autor durante a campanha contra o aumento das passagens de 2013.

    Escrito e lançado ainda no calor dos acontecimentos, o livro do repórter da revista "Carta Capital" tem o mérito de acompanhar de perto o principal ator político em São Paulo e descrever com um olhar externo, mas ao mesmo tempo simpático, o desdobrar da crise de junho. O livro mostra, dia a dia, como o movimento preparou as suas manifestações e como os governos reagiram à crescente onda de insatisfação que levaria à revogação do aumento das passagens.

    A leitura conjunta dos três livros mostra como os processos das diferentes localidades estão interligados mas também como cada cidade teve um junho com coloração local. É pena que ainda não tenham surgido análises em livro do processo em Fortaleza, organizado em boa medida ao redor da luta contra a destruição de parte do Parque do Cocó, ou sobre os protestos em Porto Alegre, protagonizados pelo Comitê de Luta por um Transporte Público.

    ATIVISMOS

    Os protestos de junho também geraram interesse editorial por livros que tentam explicar as novas formas de ativismo. "Black Blocs" [trad. Guilherme Miranda, Veneta, 270 págs., R$ 34,90], do sociólogo canadense Francis Dupuis-Déri, é o primeiro título publicado no Brasil analisando com seriedade e de forma sistemática esse fenômeno.

    O livro tenta entender a gênese dos black blocs no movimento social alemão dos anos 1980, sua reconfiguração durante os protestos contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle, em 1999, e sua posterior difusão mundial, de Atenas a São Paulo, passando pelo Cairo, pela Cidade do México e por Gênova. A obra não apenas narra a história dos primeiros black blocs como retoma as discussões em torno dos ativistas que adotavam essa tática e outros atores políticos.

    Como o autor deixa claro na introdução, o objetivo não é proteger a tática das críticas, mas fornecer subsídios históricos e conceituais para que o debate possa ser realizado com seriedade.

    "Bela Baderna" [trad. Gabriela Vuolo e Tica Minami, Edições Ideal, 168 págs., R$ 25,90], organizado por Andrew Boyd e Dave Oswald Mitchell, também busca contribuir para o debate em torno de novas formas de ativismo. O volume se constituiu como uma espécie de catálogo, reunindo de maneira sistemática diferentes táticas, princípios e teorias empregadas pelos movimentos que estão na interface entre o novo ativismo e a contracultura.

    Táticas como o teatro de guerrilha e "flash mobs" e princípios como o da não violência e a visibilização são discutidos de maneira objetiva e orientada ao sucesso de ações e campanhas ativistas.

    O livro traz ainda uma seleção de estudos de casos em que essas táticas, princípios e teorias foram postos em prática -incluída aí uma análise de junho de 2013 no Brasil. Embora seja uma tradução da versão pocket do livro original norte-americano e a maior parte dos exemplos evocados venham da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, o livro tem o mérito de sistematizar e organizar para o leitor muito do que tem surgido no novo ativismo social.

    *FILMES *

    Passado um ano, a produção audiovisual sobre os protestos de junho também começa a vir a público. Um dos primeiros filmes lançados foi "A Partir de Agora", documentário de Carlos Pronzato, disponível no YouTube.

    O diretor teve um papel importante na gênese do Movimento Passe Livre com o documentário "Revolta do Buzu" (também no YouTube), que relatava como a revolta espontânea dos jovens do ensino médio de Salvador contra o aumento das passagens de ônibus havia sido apropriada pela UNE (União Nacional dos Estudantes) em negociações com a prefeitura. A leitura da revolta de Salvador proposta pelo documentário influenciou muito os ativistas de Florianópolis que fundariam o MPL.

    No filme sobre junho, Pronzato segue analisando a trajetória do Passe Livre e das mobilizações contra o preço dos transportes e argumenta que estaria ali a origem dos protestos de 2013. O filme tem poucas cenas das manifestações e se constrói em torno de depoimentos de ativistas do movimento e de analistas próximos a ele.

    Já o filme "Junho - O Mês que Abalou o Brasil", de João Wainer, em cartaz nos cinemas, se constrói em torno das muitas imagens dos protestos que foram capturadas para a cobertura da "TV Folha". Em formato de reportagem, o filme [produzido pela Folha] também se concentra nos protestos de São Paulo e no protagonismo do MPL, embora, em comparação com o filme de Pronzato, contenha maior diversidade interpretativa.

    Enquanto no documentário de Pronzato as análises e depoimentos estão no centro da narrativa, ilustradas por cenas de rua, no documentário de Wainer há um esforço por deixar as imagens dos protestos conduzirem a narrativa -e, quando as imagens não são suficientes, elas são complementadas por depoimentos. Além disso, o documentário de Pronzato é um filme engajado, de movimento, enquanto que o de Wainer busca o equilíbrio jornalístico.

    É preciso ainda aguardar a disposição dos distribuidores para vermos no circuito exibidor de cinemas o panorama mais completo da produção audiovisual sobre os protestos de junho, que inclui ainda "20 Centavos", de Tiago Tambelli, e "Rio em Chamas", filme coletivo produzido por Daniel Caetano, disponível no Vimeo.

    PABLO ORTELLADO, 40, é professor do curso de gestão de políticas públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e coautor de "Vinte Centavos: A Luta Contra o Aumento" (Veneta).

    ARNALDO BRANCO, 42, é autor de "O Mau Humor de Arnaldo Branco" (Flâneur).

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