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    Alain Badiou revisita "A República" de Platão

    GIUSEPPE BIANCO
    VLADIMIR SAFATLE

    06/07/2014 03h08

    RESUMO O professor de filosofia da USP e colunista da Folha Vladimir Safatle e o pesquisador Giuseppe Bianco entrevistam o filósofo Alain Badiou. O francês fala sobre sua versão da "República", de Platão, agora publicada no Brasil, e comenta temas como a ascensão da direita na França e a ecologia considerada como misticismo.

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    Responsável por uma obra baseada na centralidade do conceito de "acontecimento" e em uma tentativa original de recuperação da ontologia a partir de sua aproximação com as matemáticas, Alain Badiou é um dos filósofos mais relevantes do cenário atual.

    Professor emérito da Escola Normal Superior, o francês nascido no Marrocos em 1937 sempre aliou seu interesse filosófico a um sólido engajamento político, seja no interior das discussões sobre o destino mundial da esquerda, através de discussões sobre a recuperação possível do comunismo, seja na luta contra políticas de discriminação de imigrantes, entre tantos outros debates nos quais ele se envolveu nas últimas décadas.

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    A República De Platão
    Alain Badiou
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    Entre as bases que sustentam tanto sua experiência filosófica quanto sua atitude militante está o pensamento de Platão. Agora, sai no Brasil sua "tradução" de "A República". Há que se colocar "tradução" entre aspas porque se trata, na verdade, de uma reescrita na qual problemas contemporâneos aparecem repostos no interior das estratégias textuais de um escritor milenar. Como diz o título, é "A República de Platão Recontada por Alain Badiou" [trad. André Telles, Zahar, R$ 59,90, 384 págs.; R$ 39,90, e-book].

    "Platão é nosso contemporâneo", dirá Badiou. Assim, pelas suas mãos, Platão aparece, por exemplo, como um defensor de um comunismo por vir que muito teria ainda a dizer a respeito de nossa situação atual.
    Hoje, porém, boa parte do pensamento vê em Platão seu antípoda. Badiou procura inverter esta operação, transformando o filósofo grego naquele capaz de pensar o que nosso tempo teima em não querer pensar. Nesta entrevista, ele explica suas razões.

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    Folha - Sua versão de "A República" é o resultado do seminário "Para hoje: Platão!", que o sr. apresentou por quatro anos (2006-10) na Escola Normal Superior. Qual é, para o sr., a importância do seminário como formato e de sua atividade no ensino, de forma geral?
    Alan Badiou - Particularmente, esse seminário sobre Platão teve uma grande importância para mim. Mas, em geral, cada seminário é algo da ordem de um laboratório, no qual testo publicamente teses e lanço hipóteses. Faço isso há muito. Trata-se, a partir do público e das pessoas presentes, de se interrogar sobre as condições de um ensino, a saber, sobre a transmissibilidade das verdades. O seminário, como todo ensino, é o lugar da transmissão de verdades.

    Entrando diretamente em seu projeto de reconstruir "A República", por que recuperar Platão no momento atual? Qual a função dessa operação filosófica?
    O século 20 foi radicalmente antiplatonista. A desqualificação de Platão esteve tanto na recuperação heideggeriana do ser quanto no neopositivismo anglo-saxão ou em um certo marxismo, que definia Platão como "ideólogo de proprietários de escravos".

    Nesse sentido, a razão positiva de minha empreitada consiste em mostrar como Platão nos permite combater aqueles que sempre foram os inimigos da filosofia, a saber, o sofismo, o ceticismo que não acredita na existência de verdades e que hoje está tão presente.

    Platão nos permite compreender como é possível expor o pensamento à sua potência universal, como é possível para todo e qualquer um entrar no movimento das verdades. Mesmo se as verdades apareçam em um contexto ligado a um acontecimento, elas permanecem e têm um caráter universal.

    Como o seu platonismo trata, por exemplo, a afirmação de Gilles Deleuze, para quem as ideias platônicas estariam submetidas a uma lógica da fundamentação profundamente normativa, ligada à noção de representação e avessa à produção de diferença?
    Creio que, no final das contas, Deleuze tem um leitura bastante clássica de Platão; suas críticas são as que sempre foram feitas. Não me parece que haja alguma inovação em, por exemplo, contrapor o caráter eterno da ideia à fluidez do movimento da vida, que podemos também encontrar em Bergson e mesmo em Nietzsche. Note que Deleuze foi, como Heidegger, uma espécie de pré-socrático, no sentido em que os gregos se referiam a eles, como físicos, como pensadores de uma totalidade que se desdobra na fluidez da vida. Neste sentido, Platão permitiu à filosofia referir-se a si, independente de toda contemplação acabada do universo.

    Como o sr. compreende interpretações, como as fornecidas por Pierre Hadot, que definem a filosofia entre os gregos como uma questão de exercício e de ascese espiritual?
    Creio que a concepção da filosofia como exercício espiritual continua profundamente ligada a uma figura religiosa do ato filosófico. A partir dessa orientação, trata-se de uma prática cotidiana que se aparenta, de certa forma, à oração.

    Eu insistiria, ao contrário, que a filosofia tem a ver diretamente com certo tipo de saber que reestrutura a experiência de todos e possui uma dimensão universal. Foucault retomou a orientação que você menciona, sublinhando como a filosofia era uma prática ligada ao cuidado de si.

    De minha parte, estou de acordo quanto ao fato de que a filosofia possa ter isso como efeito, mas, por outro lado, é verdade que, em filosofia, trata-se inicialmente de verdade, em sua dimensão universal e não limitada à configuração atual dos sujeitos humanos.

    O sr. atualiza a dimensão comunista do pensamento de Platão. Por outro lado, no final de "A Hipótese Comunista" (Boitempo, 2012), o sr. defende a recuperação do comunismo como ideia reguladora para o direcionamento das lutas políticas atuais, mesmo admitindo que a ideia do comunismo foi aplicada, no século 20, de "forma imprudente e dogmática demais". Quais são, a seu ver, as razões do fracasso dessa primeira vitória da ideia no século 20? O que ela teria de dogmático e imprudente?
    O comunismo do século 20 se deixou pautar completamente pelo problema do poder de Estado. Ele não foi sensível ao poder que se desenvolve fora da fusão produzida pelo Estado e fora da forma partido. Por isto, precisamos de uma fidelidade à hipótese comunista que seja capaz de se subtrair à forma partido e que esteja em excesso em relação ao Estado. Por isso, diria que, atualmente, a ideia do comunismo pressupõe a existência de novas formas políticas a serem experimentadas, que se referem a uma política sem partido.

    Em "Le Réveil de l'Histoire" (o despertar da história, Lignes, 2011), o sr. afirma que a revoltas recentes no mundo não são ainda a revivescência da ideia, no sentido platônico do termo. Mais à frente em seu livro, lemos que "a organização é o mesmo processo que o acontecimento". A duas afirmações juntas dão a impressão de que a função principal da ideia é fornecer um quadro capaz de normalizar a multiplicidade. O sr. não teme que essa maneira de pensar a ideia possa dar espaço ao retorno de formas dirigistas de política revolucionária?
    Isso é não compreender o que entendo por ideia. A ideia é o que permite às singularidades se organizarem como poder coletivo. Por isso, ela é o que dá o sentido à noção de engajamento. Uma política sem ideia é uma política sem transcendência, por isso incapaz de colocar para si o problema da revolução. Nesse sentido, ela será sempre incapaz de transformar nossa compreensão do mundo. A ideia é o que nos permite ser um pouco mais capazes de verdades.

    Os resultados das eleições europeias na França foram catastróficos para a esquerda, com a surpreendente vitória da Frente Nacional. Retomando o título de um de seus livros, do seu ponto de vista "a que dá nome Marine Le Pen?".
    Não se trata de saber ao que Marine Le Pen dá o nome, mas do que ela é o efeito. Não estou de acordo com a maneira habitual de tratar tal resultado eleitoral. Para mim, não há nada de surpreendente em tais resultados. Se quisermos entendê-lo, será necessário tomá-lo a partir de um quadro mais amplo.

    As políticas propostas pela direita nacionalista tanto em relação à situação nacional quanto em relação à política de imigração não estão em desacordo com o que foi feito pelos governos recentes. Pensemos na infame perseguição à população cigana, na perseguição aos jovens da periferia, na demonização dos imigrantes. Todas essas medidas imundas que denunciei mais de uma vez são, no fundo, uma verdadeira perseguição às classes populares, empreendida, inclusive, pelo governo socialista.

    Tudo isso foi não apenas aceito nos últimos anos mas teorizado e praticado pela esquerda. Ela não fez nada durante anos contra isso e é a ela que devemos atribuir a responsabilidade pela situação atual. Ela foi completamente impotente.

    Para terminar, gostaria de lembrar que o sr. já disse que a "ecologia é o novo ópio do povo", uma espécie de contrapolítica. Poderia nos explicar a razão desta afirmação?
    A ecologia é hoje um misticismo que não teme assumir tonalidades catastrofistas e escatológicas. Com o declínio das religiões históricas, a ecologia, com o acento que ela coloca em questões como a "preservação da natureza", ou mesmo do restabelecimento de uma relação perdida com ela, parece-me uma nova forma de messianismo. Eu não me preocupo exatamente com o destino da natureza, preocupo-me com o destino dos homens. É essa preocupação que deveria pautar nossas ações atuais.

    GIUSEPPE BIANCO, 38, doutor em filosofia pela Universidade Lille 3, é autor de "Badiou and the Philosophers" (Bloomsbury), com Tzuchien Tho.

    VLADIMIR SAFATLE, 41, é professor de filosofia da USP e colunista da Folha, autor de, entre outros, "A Esquerda que Não Teme Dizer Seu Nome" (Três Estrelas).

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