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    O politicamente correto quer regular as piadas

    JOEL PINHEIRO

    18/01/2015 03h23

    RESUMO Os debates sobre os limites do humor, reacendidos após os atentados em Paris, demonstram a tentativa de certos grupos de esquerda de criar uma função social para a piada. Essa é uma discussão retórica que não leva a nada; nosso riso não precisa -e nem pode- se revestir de alguma causa política para se justificar.

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    O massacre desumano no "Charlie Hebdo", além de solidariedade, produziu uma boa dose de controvérsia por aqui. Controvérsia que começou quando, no próprio dia do atentado, comentaristas culparam as vítimas: com charges daquele teor, estavam pedindo. Outros, com mais nuance, entraram na onda do "mas". "Je suis Charlie, mas...".

    E não é por menos: o massacre teve, como justificativa ou pretexto, o humor; o mesmo humor que incomoda setores de nossas classes letradas. Assim, até solidários entusiastas, como alguns jornalistas, se apressaram em deixar claro: apoiar os humoristas heroicos do "Charlie" não tem nada a ver com aprovar o humor fascista de um Danilo
    Gentili e outros comediantes politicamente incorretos.

    A piada ofensiva é um tópico favorito da indignação de nossos intelectuais, incluídos aí humoristas de sucesso como Gregorio Duvivier e Laerte. O debate dos limites do humor voltou com tudo. O que outrora parecia diversão inocente, dizem, na verdade marginaliza oprimidos e promove a violência. O humor é uma arma quase sempre apontada para os mais fracos.

    Essa posição tem uma ilustre história filosófica -a compreensão do riso-, que passa por Platão, Aristóteles e Hobbes. Segundo eles, o riso advém da percepção de superioridade. É um ato agressivo, potencialmente humilhante. Partindo dessa premissa, mas não querendo abolir de vez o humor, as vozes do politicamente correto criaram a função social da piada, resumida na máxima "deve-se rir do opressor, e não do oprimido", como diz Gregorio Duvivier em sua coluna na Folha em 11/01.

    Por esse critério, o "Charlie Hebdo" sai condenado. É um jornal de franceses brancos que ataca rotineiramente a minoria muçulmana pobre e não branca. Duvivier os defende: opressor é quem porta o fuzil. Mas isso não é sempre verdade. É evidente que os membros do "Charlie" ocupavam uma posição social superior à da juventude de periferia que se deixa seduzir pelo fundamentalismo. Violência não é monopólio de quem está por cima.

    POR AQUI

    No Brasil, não matamos humoristas. A guerra se dá no campo do processo -que também depende da violência física, canalizada pelo Estado- e da hostilização social. Não há martírio para santificar nossos comediantes, que por isso são alvos mais fáceis.

    Ocorre que nosso melhor humor, da chanchada aos "Trapalhões", "Hermes e Renato", "Pânico" e stand-up, sempre foi inclusivo: não poupa ninguém. É falso dizer que seja racista, sexista, reacionário; como se se fixasse em mulheres, gays, negros e pobres, e não ridicularizasse também o homem branco, a classe média, o marido, a grã-fina, a socialite, o playboy, o policial, o político, o sacerdote. E é um humor com baixo teor de ódio; imperam a brincadeira, o deboche e o desbunde geral.

    É um insulto alegar que os Trapalhões promoviam racismo e homofobia, como fez Laerte em entrevista recente. Renato Aragão dissera que, no passado, negros e gays não se importavam com as piadas. O cartunista retrucou que as minorias sentiam-se ofendidas sim, mas eram oprimidas demais para se manifestar. Será?

    É preciso questionar. As minorias nos anos 1990 sentiam-se de fato ofendidas ou esse sentimento foi alguma coisa criada recentemente pelo avanço de militâncias políticas combativas? O sucesso de bilheteria da trupe e o carinho popular que os Trapalhões sempre receberam indicam que Didi tem razão. As pessoas estão ficando ofendidas mais facilmente; algumas parecem até desejar a ofensa.

    Nosso humor, que sempre foi amoral, é agora taxado de imoral. Resta saber se a alternativa do humor politizado é possível. Rir por obrigação não tem graça; pode provocar estresse. A preocupação agora é "rir da coisa certa". Isso serve para alimentar o campeonato de pontos na escala do progressismo, mas já não é humor.

    Todos os nossos humoristas, mesmo os mais conscientes, agem na prática com muito menos freios. Partem da ideia simples de que é possível fazer graça de todos sem que ninguém se sinta mortalmente ofendido. O próprio "Porta dos Fundos", de Duvivier, fez um esquete hilária sobre nomes em latas de refrigerante. A graça depende de um subtexto cruel: o que um nome e sua grafia dizem sobre a condição social de seu possuidor. Será que a esquete "empodera" os pobres? Ou será que os oprime? Essa é uma discussão retórica que não leva a nada. Nosso riso não precisa -e nem pode- se revestir de alguma causa política para se justificar.

    E a briga é, no fundo, política. A função social da piada presta-se ao interesse de uma esquerda que aposta no conflito como mecanismo de progresso social (ou de ganho eleitoral). Proscreve o humor feito com os grupos de que ela se declara representante, ainda que as grandes massas de mulheres, negros, mestiços e homossexuais não pautem seus gostos pela ortodoxia dos movimentos organizados. A essa esquerda, monopolista da virtude, não interessa uma sociedade em que todos riam de todos e, por isso, convivam com um pouco menos de atrito.

    O humor é mais do que só imposição de superioridade. É também resultado da bem-vinda frustração de expectativas (Descartes, Kant) e da incongruência entre conceito e experiência (Schopenhauer). É prazer e descanso, necessários em meio aos fardos deste mundo (Tomás de Aquino) e é indicador socialmente útil daquilo que fica aquém do potencial humano (Bergson).

    Em todos os casos, promove o distanciamento, alivia tensões e sublinha temas que não se ousa apontar no discurso sério. Se jogarmos isso fora, podemos endurecer relações sociais e permeá-las de hipocrisia, empurrando para a esfera do proibido experiências que hoje afloram no humor. E se a vida se tornar mais cinzenta, e nem por isso mais justa?

    ALVOS

    As charges antimuçulmanas do "Charlie" iam um passo além dos nossos piadistas: sua intenção era apenas provocar. Para atacar um pequeno grupo que se julga o porta-voz de uma religião e que quer se impor pela força, acabavam por insultar todos os muçulmanos moderados que jamais pensariam na retaliação homicida. Foram, sem dúvida, demasiadamente ofensivas. A chacina mostrou como eram necessárias.

    A ofensa de mau gosto também tem função social. Não é só porque se é minoria que se é intocável. Nem mesmo as vítimas são santas, e nenhuma vítima é apenas vítima. "Oprimido" e "opressor" não esgotam as relações humanas possíveis, mesmo as desiguais. A luta de classes é uma escolha política, não um dado natural.

    É terrível quando uma sociedade se dedica a ridicularizar uma minoria. Mas é bom que, de vez em quando, em um meio letrado no qual todos querem ser bonzinhos, alguém simplesmente chute o balde da forma mais vulgar.

    Esse é o verdadeiro teste da sociabilidade e o revelador de fanatismos. Quem resiste à provocação gratuita está pronto para viver num mundo plural, onde convivem visões de mundo e valores irreconciliáveis. É por essas e outras que, mais do que nunca, é preciso que alguns -não todos- sejam "Charlie".

    JOEL PINHEIRO é 29, economista e mestre em filosofia, editou a revista "Dicta&Contradicta".

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