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    Guerra ao chiclete: como Lee Kuan Yew tirou a goma de mascar das ruas de Cingapura

    LEO BENEDICTUS
    DO "GUARDIAN"

    25/03/2015 18h15

    Você já deve ter ouvido falar que mascar chiclete em Cingapura pode resultar em sentença de prisão e chibatadas...

    É a única coisa que se pode esperar que estrangeiros saibam sobre Cingapura –não que se trata de uma pequena cidade-estado, localizada em uma ilha, que talvez tenha registrado o maior milagre econômico de todos os tempos sob a autoritária batuta de Lee Kuan Yew, que morreu na segunda-feira. Não, pelo menos não mais, que a ilha serviu de cenário à maior humilhação do Império Britânico, quando foi conquistada pelo Japão em 1942. Não: a única coisa que todo mundo sabe sobre Cingapura é que você será chicoteado se cuspir seu chiclete no chão. Ou que a goma de mascar é proibida. Ou algo assim. Basicamente, Cingapura é um país para lá de fastidioso.

    Bao Xuelin - 25.mar.2015/Xinhua
    Visitantes diante de retrato de Lee Kuan Yew no Museu Nacional de Cingapura
    Visitantes diante de retrato de Lee Kuan Yew no Museu Nacional de Cingapura

    Como sempre, a verdade não é exatamente aquilo que se apregoa. A posse de goma de mascar (e o ato de mascá-la) jamais foram proibidos, formalmente. O que foi considerado ilegal, em 1992, foi a venda ou importação do produto. O gatilho para a medida aparentemente foram os danos que os chicletes poderiam causar ao dispendioso sistema de metrô do país –se os sensores das portas ficassem cobertos de chiclete, ou simplesmente se os bancos do metrô fossem estragados. A punição para o tráfico ilegal de goma de mascar jamais foi corporal, mas até mesmo um delito primário podia resultar em multa de até 100 mil dólares de Cingapura (o equivalente a cerca de R$ 230 mil), e dois anos de prisão. (Em 2004, foi adotada uma pequena isenção para a "goma de mascar de uso terapêutico" –o que incluía a marca Wrigley's Orbit–, essencialmente como um favor aos Estados Unidos para facilitar um tratado bilateral de comércio.)

    O efeito da proibição original foi imediato. Em poucos meses, a goma de mascar mais ou menos desapareceu de Cingapura. Os chicletes esmagados sumiram do pavimento. As portas dos trens de metrô passaram a cumprir suas funções sem obstáculo. De fato, foi provavelmente por isso que a proibição teve efeito tão forte sobre as pessoas. Para qualquer um que sofra nem que de apenas um leve traço de autoritarismo (e acho que a definição se aplica a todos nós), Cingapura oferece a esperança de que seja possível "exterminar" até mesmo as formas mais amenas de comportamento antissocial.

    Porque o chiclete não era o único alvo. Em Cingapura, um condenado de fato pode ser açoitado como pena, ou pelo menos pode ser surrado com uma bengala, se ele for homem e tiver menos de 50 anos. A punição se aplica a muitos crimes, entre eles muitos delitos bastante modestos, como o vandalismo e –tome nota– exceder o tempo de seu visto. Se condenado, você será despido em uma cela de prisão, amarrado em uma moldura de madeira e espancado nas nádegas com uma bengala de vime molhada e com diâmetro não superior a 1,27 centímetro. (Cabe lembrar, aqui, que a punição por bengalada foi aplicada em Cingapura pelos britânicos, por muitos anos.)

    Toda pornografia é ilegal, naturalmente, o que inclui a revista "Playboy". No passado, a revista "Cosmopolitan" e a série "Sex and the City" foram proibidas. É ilegal jogar lixo na rua, bem como "cuspir qualquer substância ou expelir muco do nariz em qualquer rua ou lugar público". A penalidade para um réu primário pode chegar a 2 mil, ou a 10 mil dólares de Cingapura, caso o acusado chegue à sua terceira condenação. Nos dois casos, o condenado pode ser forçado a limpar as ruas, usando um colete verde. Quer seja por conta de suas leis ou por conta de seu povo, Cingapura, e todos concordam quanto a isso, é extremamente limpa.

    Tradução de PAULO MIGLIACCI

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