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    Ponto Crítico - Cinema - Dois filmes no divã

    GIOVANNA BARTUCCI

    19/04/2015 03h00

    Se há algo em comum entre "Para Sempre Alice", dos cineastas Richard Glatzer e Wash Westmoreland, e "Mapas para as Estrelas", de David Cronenberg, além de Julianne Moore (premiada por ambas atuações, incluindo o Oscar de melhor atriz com sua Alice), é o papel nuclear que experiências traumáticas e seus efeitos nos sujeitos ocupam nas tramas.

    Enquanto no filme do diretor canadense os traumas infantis aos quais foram submetidos seus personagens são o cerne a partir do qual se irradiam práticas de abandono, humilhação, loucura e assassinato, em "Para Sempre Alice" é a vivência cotidiana do desterramento subjetivo e da degradação física que constitui o âmago de uma experiência aterradora para todos os envolvidos.

    É verdade que o filme não deixa de lançar luz sobre a luta da protagonista –uma respeitada linguista da Universidade Columbia que sofre do mal de Alzheimer precoce– para rastrear e ater-se à Alice que reconhece como si mesma.

    Sua vitória, contudo, também depende daqueles que a cercam, sejam eles familiares ou amigos. E é nesse momento, mesmo optando por não se concentrar nos efeitos destrutivos da doença nas relações familiares, que "Para Sempre Alice" explicita a violência contra as pessoas submetidas a experiências dessubjetivantes –ao mesmo tempo que destaca, por outro lado, a importância das experiências subjetivantes.

    É o caso do marido afetuoso (Alec Baldwin) que, se tornando quase cruel, distancia-se da mulher à medida que ela deixa, pouco a pouco, de "ser ela mesma" –não mais podendo acompanhá-lo em suas realizações. Ou da filha Anna (Kate Bosworth), de quem Alice é/era mais próxima, que termina por ver na mãe não mais que uma mulher debilitada, esvaziando-a de sua condição de sujeito.

    Na outra ponta, cabe a Lydia (Kristen Stewart), a filha com quem sempre teve suas diferenças, a condição de creditar e validar, por meio do investimento amoroso necessário, as iniciativas de Alice no sentido de se reencontrar.

    Já no caso de "Mapas para as Estrelas", situações traumáticas organizam distintas experiências subjetivantes –para o bem ou para o mal.

    O dr. Stafford Weiss (John Cusack) é terapeuta de inúmeras celebridades, tem um programa de TV e mora, com a mulher, Cristina (Olivia Williams), e o filho, Benjie (Evan Bird), jovem astro de sucesso, numa casa ampla e confortável, cujas paredes são feitas de vidro. Mas a vida de Hollywood e a busca pelo sucesso, somados à exposição de seu cotidiano doméstico, contrastam com o fato de que um grave segredo organiza suas vidas.

    Separados na infância e sem conhecimento anterior de sua ligação consanguínea, os irmãos Stafford e Cristina dão à luz Agatha (Mia Wasikowska) e Benjie. Filhos de relações incestuosas, a brincadeira de infância que organiza o delírio da menina esquizofrênica –rejeitada pelos pais– dramatiza, não à toa, o seu casamento com o irmão. O destino trágico da família é selado, contudo, quando a filha, trazendo consigo o conhecimento do segredo que os une, retorna a Hollywood, após um período de internação em busca de reparação.

    Também Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz decadente violentada na infância pela própria mãe, busca retomar a época de sucesso –e superar o trauma– por meio de um remake em que viveria, de maneira ativa, uma personagem interpretada pela mãe quando jovem. Mas, o fato é que, em suas alucinações, Havana encontra-se absolutamente submetida à sua jovem e sádica mãe, e o seu destino trágico é selado quando conhece Agatha.

    É possível pensar que o problema em considerar "Para Sempre Alice" algo mais que um filme de atriz está na dificuldade em entrever na trama em que estão envoltos os personagens coadjuvantes algo que não o risco do melodrama. "Mapas para as Estrelas", por outro lado, parece sinalizar que, para além do desejo exibicionista da vida de aparências, da necessidade imperiosa de controle, poder e sucesso, podem ser encontradas experiências traumáticas jamais superáveis.

    GIOVANNA BARTUCCI, 52, é psicanalista, autora de "Onde Tudo Acontece - Cultura e Psicanálise no século 21" (Civilização Brasileira), 3º lugar na categoria psicologia e psicanálise do Prêmio Jabuti 2014.

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