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    Três mil crianças vietnamitas escravizadas no Reino Unido

    ANNIE KELLY E MEI-LING MCNAMARA
    DO "OBSERVER"

    31/05/2015 02h08

    Hien tinha 10 anos quando chegou ao Reino Unido. Ele não sabia onde estava, ou de onde tinha vindo. Só sabia que estava aqui para trabalhar. Desde que desceu da caçamba de um caminhão depois de atravessar o canal vindo de Calais, sete anos atrás, sua experiência de vida vem sendo a exploração e a miséria. Ele foi escravo doméstico, foi vendido para trabalho em fábricas de maconha, sofreu abusos e surras e terminou processado e aprisionado. Foi uma vida de terror, isolamento e dor.

    A história de Hien não é única. Ele é uma das três mil crianças vietnamitas que se estima façam trabalhos forçados no Reino Unido, usado para ganho financeiro por quadrilhas criminosas que operam fábricas de maconha, salões de manicure, fábricas de roupas, bordéis e residências. Pagando até 25 mil libras pela passagem ao Reino Unido, essas crianças devem coletivamente quase 75 milhões de libras àqueles que as traficam.

    Embora haja crescente conscientização quanto ao uso de crianças vietnamitas no florescente comércio de maconha britânico, especialistas em tráfico de crianças agora alertam que as autoridades do Reino Unido não conseguem acompanham a velocidade com a qual as gangues vietnamitas baseadas no país recrutam e exploram crianças para uso em outras atividades criminosas, a exemplo de contrabando de armas, produção de cristais de anfetamina e quadrilhas de prostituição.

    "Pelo nosso cálculo, existem cerca de três mil crianças vietnamitas no Reino Unido exploradas para lucro por quadrilhas criminosas", disse Philip Ishola, antigo diretor do Serviço de Combate ao Tráfico de Pessoas do Reino Unido.

    "A polícia e as autoridades estão cientes, agora, de que crianças traficadas são forçadas a trabalhar em plantações de maconha, mas isso é só a ponta do iceberg. Muitas vezes a mesma criança é explorada não apenas na fazenda de maconha mas de múltiplas maneiras. Isso está acontecendo bem diante dos nossos olhos e não estamos fazendo o bastante para combatê-lo";

    A polícia admite estar enfrentando problemas com a velocidade da diversificação e expansão das atividades das gangues vietnamitas pela Inglaterra e rumo à Escócia e Irlanda do Norte. "No momento, estamos lutando nas trincheiras, nos salões de manicure", disse o detetive inspetor Steven Cartwright, que comanda a unidade de combate ao tráfico de pessoas da polícia nacional britânica, em Londres. "É vital que compreendamos os novos métodos em uso pelas gangues, porque precisamos conter a demanda em uma ponta limitar sua capacidade de ganhar dinheiro na outra".

    A jornada de Hien ao Reino Unido começou quando ele foi levado de sua aldeia, aos cinco anos por alguém que dizia ser seu tio. Como órfão, ele não teve escolha a não ser fazer o que lhe diziam. Passou cinco anos viajando por terra, sem saber que países estava atravessando, até cruzar clandestinamente o Canal da Mancha e ser levado a uma casa em Londres. Aqui, ele passou os três anos seguintes aprisionado como escravo doméstico, cozinhando e fazendo faxina para grupos de vietnamitas que chegavam e partiam da residência onde ele estava aprisionado.

    Os homens da casa o espancavam e o forçavam a beber álcool até enjoar. Outras coisas aconteceram a ele sobre as quais Hien ainda não fala. Ele jamais era autorizado a sair de casa, e foi informado de que se tentasse escapar a polícia o deteria e o colocaria na prisão.

    Durante o tempo passado na casa, diz Hien, muitas outras crianças vietnamitas também foram levadas para lá. Elas contaram que estavam lá para trabalhar e pagar as dívidas de suas famílias no Vietnã. Ficavam alguns dias na casa e Hien jamais voltava a vê-las. Ele se tornou morador de rua depois que o "tio" o abandonou. Dormia nos parques e comia comida encontrada no lixo. Terminou recolhido por um casal vietnamita que ofereceu a ele um lugar para morar e o forçou a trabalhar em plantações de maconha em apartamentos, primeiro em Manchester e depois na Escócia.

    Em seu depoimento à polícia, ele diz que ainda não compreende exatamente o que eram aquelas plantas, ainda que agora saiba que elas valiam muito dinheiro. Cuidava delas, usando pesticidas que o adoeciam, e só saía do apartamento quando ajudava a transportar as folhas para secar em outro lugar. Ele vivia trancafiado, ameaçado, surrado e completamente isolado do mundo externo.

    "Jamais recebi dinheiro por trabalhar lá", diz. "Não fiquei lá pelo dinheiro, mas porque tinha medo e esperava que a coisa toda terminasse logo".

    Quando a polícia chegou, encontrou Hien sozinho com as plantas. Ele contou sua história aos policiais mas ainda assim foi enviado a uma instituição para jovens delinquentes na Escócia, onde passou quase 10 meses detido, acusado de cultivo de maconha. Foi libertado apenas depois da intervenção de um promotor público, que o levou a ser identificado como vítima do tráfico de pessoas.

    Crianças vietnamitas como Hien são presa fácil para as quadrilhas de tráfico de pessoas cada vez mais sofisticadas que operam entre o Reino Unido e o Vietnã. Crianças formam cerca de um quarto das 13 mil pessoas que se acredita sejam traficadas para o Reino Unido a cada ano. O Escritório das Nações Unidas para as Drogas e o Crime estima que 30 crianças vietnamitas cheguem ilegalmente ao Reino Unido a cada mês, por meio de rotas bem estabelecidas de contrabando de pessoas.

    "As crianças são um ativo cada vez mais valioso para as quadrilhas de criminosos porque são fáceis de capturar e de intimidar e explorar, e é fácil mantê-las isoladas e inconscientes do que realmente está acontecendo em torno delas, o que torna bem menos provável que revelem alguma coisa de útil à polícia", diz Ishola.

    Quando se trata de crianças vietnamitas, ele diz, a cultura de ver uma criança como "galinha dos ovos de ouro" que será colocada para trabalhar no exterior e sustentar a família ainda prevalece. Essa atitude é explorada pelas gangues, que iludem as famílias e as levam a acreditar que existem empregos legítimos para seus filhos no Reino Unido.

    "Durante sua jornada ao Reino Unido, os traficantes cobram mais e mais dinheiro das crianças e, quando elas enfim chegam, a pressão pelo pagamento dessa enorme dívida é um fator chave em sua vulnerabilidade a serem exploradas e aprisionadas em trabalhos forçados", ele diz. "Ao chegar, as crianças enfrentam um sistema bem organizado de atividade criminosa, com métodos de controle que variam da extrema brutalidade física ao jugo da dívida. Antes mesmo que cheguem, a armadilha já se fechou sobre elas".

    Membros da diáspora vietnamita em Londres disseram ao "Observer" que haviam visto uma explosão no tráfico de crianças por quadrilhas criminosas operando na periferia de suas comunidades, nos últimos anos. "Algumas dessas crianças e vítimas me disseram que chegar ao Reino Unido lhes custou 25 mil libras", diz um líder da comunidade vietnamita em Londres, que não permitiu que seu nome fosse mencionado. "Elas já chegam com uma dívida e não são autorizadas a partir até que a dívida seja paga. Isso é escravidão e exploração".

    Como Hien, muitas das crianças terminam trabalhando em plantações de maconha. O elo entre o tráfico de crianças e o comércio de maconha nos Reino Unido vem se reforçando, e as crianças vietnamitas são o principal grupo em risco. De acordo com um relatório da ONG AntiSlavery International, quase todas as potenciais vítimas de tráfico de pessoas associado à maconha são vietnamitas, e mais de 80% delas são crianças. Muitas dessas crianças terminam processadas no sistema judicial britânico, a despeito de grande número delas serem identificadas como vítimas do tráfico. Isso levou as crianças vietnamitas a se tornarem o segundo maior grupo étnico entre os jovens aprisionados em centros de detenção juvenil em todo o Reino Unido.

    As gangues vietnamitas historicamente dominam o comércio britânico de maconha, que movimenta um bilhão de libras ao ano, e tiveram papel chave em elevar a proporção de maconha de cultivo caseiro no mercado do país de 15% em 2005 a cerca de 90% hoje. Embora o comércio da droga continue a ser imensamente lucrativo - o número de fábricas de maconha vietnamitas no Reino Unido cresceu em 150% nos dois últimos anos -, o domínio das gangues foi enfraquecido graças à repressão policial expandida e à concorrência da produção britânica. Agora, as gangues estão encontrando maneiras novas e mais eficientes de fazer negócios.

    "Em termos de ação policial, creio que estejamos com dois anos de atraso", disse Daniel Silverstone, criminologista da Universidade Metropolitana de Londres que escreve frequentemente sobre as quadrilhas vietnamitas no Reino Unido.

    "Os traficantes mudaram seu modus operandi nos últimos anos, em resposta direta à atenção e intervenções policiais. Alguns anos atrás, a concentração nas plantações de maconha era quase exclusiva, mas agora seus interesses de negócios se diversificaram bastante. Com isso, estamos vendo expansão à Escócia e Irlanda do Norte, o uso de salões de manicure como locais de trabalho forçado e lavagem de dinheiro, e uma progressão rumo às drogas e aos cristais de anfetamina". Isso significa que crianças, parte integral das operações de negócios das gangues, agora também estão sendo movidas para outras áreas de exploração. "À medida que seu domínio sobre o comércio nacional de maconha se reduz um pouco, elas buscam maximizar os lucros com essas crianças de toda maneira que puderem", ele acrescenta.

    A polícia metropolitana de Londres diz que hoje existe muito mais consciência sobre a complexidade do problema do tráfico de crianças no Reino Unido e como enfrentá-lo, mas que a natureza fechada da comunidade vietnamita torna as coisas difíceis. "O que vem sendo um desafio persistente para nós é avançar dentro dessa comunidade", diz Phil Brewer, que comanda a nova unidade de tráfico de pessoas e sequestros da polícia londrina. "Usualmente só descobrimos sobre a situação de uma dessas crianças quando realizamos uma busca e encontramos alguém em uma fábrica de maconha ou salão de manicure, mas muitas vezes essa pessoa já passou por múltiplas formas de exploração antes cheguemos a ela".

    Parosha Chandran, uma advogada importante no ramo de direitos humanos e especialista da ONU em tráfico de pessoas, representou crianças vietnamitas acusadas de cultivo de maconha que passaram por grande variedade de situações de tráfico antes de chegarem às plantações de maconha.

    "As crianças vietnamitas traficadas raramente enfrentam apenas uma espécie de trabalho forçado", ela diz. "Já vi casos de jovens sujeitos a um amplo espectro de práticas de exploração. Em um de meus casos, por exemplo, a criança era forçada a cuidar de casas e dos filhos de outras pessoas, mesmo que ele mesmo ainda fosse criança, e depois levada a trabalhar em um salão de manicure, e mais tarde transferida a outro local, onde costurava etiquetas em roupas - e tudo isso aconteceu antes que ele chegasse à fábrica de maconha".

    Em março, o Reino Unido aprovou sua primeira Lei da Escravidão Moderna, criada para reforçar os processos contra os traficantes de pessoas e oferecer mais proteção às vítimas da escravidão moderna no Reino Unido. No entanto, Chandran diz que as crianças do Vietnã continuam a ser processadas por cultivo de maconha enquanto aqueles que as traficam escapam livres.

    "O foco central da Lei da Escravidão Moderna é processual, e isso é um erro, já que suas cláusulas não protegem por completo os direitos das crianças traficadas", ela diz. "Como país democrático, precisamos encontrar soluções duráveis para garantir que essas crianças fiquem protegidas contra danos pelo resto de suas vidas".

    Em acomodações seguras para as vítimas de tráfico de crianças operadas pela Love146, uma organização assistencial, Lynn Chitty, a diretora da operação no Reino Unido, conta ter ajudado entre 40 e 50 crianças vietnamitas a reconstruir suas vidas, depois de experiências de tráfico.

    "Vimos crianças começando a ser exploradas de múltiplas maneiras, a fim de maximixar o lucro que se pode extrair delas", diz Chitty. "Recentemente tivemos um cliente que passou por servidão doméstica, foi forçado a trabalhar em um salão de manicure e de noite era levado a um bordel e explorado lá a noite inteira".

    Os métodos usados para atrair crianças vietnamitas ao Reino Unido também estão se tornando mais sofisticados, e incluem o uso da mídia social. "As crianças vietnamitas são trazidas ao Reino Unido por adultos vietnamitas, e colocadas em serviço doméstico", diz Swat Pandi, do centro de orientação sobre o tráfico infantil da Sociedade Nacional de Prevenção da Crueldade Contra a Criança (NSPCC). "A criança se sente endividada para com os adultos pela comida e abrigo, e é informada de que precisa retribuir o favor cuidando de plantações de maconha. Essas crianças sofrem nível elevado de abuso emocional, negligência e, na ausência de qualquer fator de proteção, são altamente vulneráveis a abusos físicos e sexuais".

    A despeito da promessa do governo de pôr fim à escravidão moderna e da primeira lei de combate à escravatura moderna no Reino Unido, aprovada em março, Chitty diz que não viu mudança no número de crianças vietnamitas que procuram seus serviços assistenciais. "As coisas estão como sempre estiveram", ela diz. "Continuamos a ter problemas com a salvaguarda imediata e a colocação apropriada das crianças vítimas do tráfico. E os jovens continuam a ser tratados como criminosos pelos tribunais".

    Mesmo quando uma criança é tirada do tráfico e colocada aos cuidados das autoridades locais, é provável que termine retornando ao controle dos traficantes. Em 2013, um relatório do Centro pela Justiça Social, uma organização independente de pesquisa, concluiu que 60% das crianças traficadas que ficam aos cuidados das autoridades locais estão desaparecidas, e para um terço delas isso aconteceu uma semana depois da chegada, no máximo. A maioria jamais volta a ser localizada. Há cada vez mais denúncias de retorno de crianças ao tráfico depois de passarem por lares de recolocação ou de receberem asilo.

    "Não acredito que compreendamos toda a empreitada", diz o detetive inspetor Cartwright. "A despeito de nossas melhores intenções, creio que não estejamos oferecendo a elas coisa alguma que as persuada a ficar. Muitas terminarão resubmetidas ao tráfico porque não lhes oferecemos alternativa melhor ao que os traficantes estão propondo".

    Hien está tentando reconstruir sua vida depois de receber asilo na Escócia, mas encontra dificuldades para viver em paz depois de anos de trauma. "Ainda me preocupo que os traficantes me encontrem e venham à minha casa. Mas sei que desta vez pedirei ajuda", ele diz. "Penso que aqui existe justiça mas preferiria não ter ficado tanto tempo preso. Ao contar minha história, quero que as pessoas possam compreender aquilo por que passei aqui".

    Os números da escravidão moderna

    10.000
    O Departamento do Interior britânico estima que existam entre 10 mil e 13 mil vítimas da escravidão moderna no Reino Unido.

    100
    Estimativas sugerem que 100 crianças podem ser traficadas ao Reino Unido a cada semana. Mulheres albanesas e nigerianas, incluindo adultas, formam os maiores grupos encaminhados às agências como possíveis vítimas, enquanto os vietnamitas respondem pelo maior número de homens referidos, e as crianças vietnamitas respondem pelo maior número de cidadãos estrangeiros explorados no Reino Unido.

    34%
    A Agência Nacional do Crime britânica reportou 34% de alta no número de potenciais vítimas de tráfico em 2014, ante o ano anterior. Os adultos são predominantemente vítimas de exploração sexual, e os menores são explorados no trabalho.

    51%
    A Sociedade Nacional de Prevenção de Crueldade Contra a Criança (NSPCC) diz que 51% de todos os jovens vietnamitas encaminhados ao seu centro de aconselhamento sobre tráfico infantil foram reportados como desaparecidos, em algum momento.

    96%
    A Anti-Slavery International diz que das potenciais vítimas de tráfico forçadas a cultivar maconha, 96% são do Vietnã e 81% são crianças.

    25%
    Quase 25% das vítimas do tráfico são crianças.

    30 mil libras
    As agências reportam que as vítimas e suas dívidas são vendidas, por até 30 mil libras, a outros traficantes para exploração múltipla, o que inclui exploração sexual, servidão doméstica e cultivo de maconha.

    58%
    Das crianças traficadas que desapareceram, informou o NSPCC em seu relatório ao Parlamento em 2012, 58% estão sendo exploradas para atividades criminosas e cultivo de maconha.

    Tradução de PAULO MIGLIACCI

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