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    A arte longa de Truffaut

    SERGE TOUBIANA
    tradução ÚRSULA PASSOS

    21/06/2015 02h05

    RESUMO Diretor, ator e crítico, François Truffaut (1932-84) deixou 21 longas, diversos curtas e centenas de artigos publicados em revistas. Neste texto, o diretor da Cinemateca Francesa escreve sobre o cineasta, que será objeto de uma exposição sob sua curadoria no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, a partir de 14 de julho.

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    "Eu faço filmes para realizar meus sonhos de adolescente, para me fazer bem e, se possível, fazer bem aos outros." Essa frase de François Truffaut exprime simples, clara e plenamente seu amor pelo cinema e seu desejo de fazê-lo. Esse homem organizou sua vida para atingir seu objetivo. Morto em 21 de outubro de 1984, aos 52 anos, devido a um tumor cerebral, ele deixou a sensação de ter levado a vida a toda velocidade, como que apressado pelo tempo e como se quisesse conseguir fazer tudo enquanto ainda fosse possível.

    Vinte e um longas-metragens, um punhado de curtas, centenas de artigos sobre cinema publicadas num grande número de publicações –principalmente na revista mensal "Cahiers du Cinéma" e na semanal "Arts"–, prefácios dedicados a livros de homens que ele admirava ou que o ajudaram (Renoir, Bazin, Welles, Rossellini, Ophuls, Néstor Almendros, Sacha Guitry, Tay Garnett etc.), o famoso livro de entrevistas "Hitchcock/Truffaut", publicado em 1966, traduzido em diversas línguas [no Brasil, pela Companhia das Letras], reeditado sem parar desde então.

    Sucessão Pierre Zucca
    Jean-Pierre Léaud (esq.), Claude Jade e François Truffaut durante filmagem de "Domicílio Conjugal" (1970)
    Jean-Pierre Léaud (esq.), Claude Jade e François Truffaut durante filmagem de "Domicílio Conjugal" (1970)

    Sem contar o Truffaut ator. Seja em alguns de seus filmes –"O Garoto Selvagem" (1970), "A Noite Americana" (1973) e "O Quarto Verde" (1978)– ou no filme de Spielberg "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977). Sem esquecer a publicação de sua correspondência, que recupera muitas cartas, dos milhares que escreveu durante a vida a todo tipo de gente, próxima ou distante. Enfim, missão cumprida, vida vivida, resultado, tudo somado, satisfatório.

    AMARGO

    Isso não impede que sua morte tenha deixado um gosto amargo, um sentimento de inacabado, de melancolia profunda, não somente para os seus, para os mais próximos, suas atrizes e seus atores, e sua família da Les Films du Carrosse [produtora fundada por ele em 1957]. Quantos cineastas hoje, garotos e garotas, se inspiram em sua obra e em seu gosto pelo romanesco, lamentando não tê-lo conhecido, cruzado ou trombado com ele? E isso não apenas na França mas no Japão, nos Estados Unidos e no resto do mundo? Truffaut fez "De Repente num Domingo" (1983), seu último filme, quando ele tinha ainda muitos projetos engatilhados. Muitos roteiros bastante avançados, coescritos com Jean Gruault (o projeto "00-14") ou Claude de Givray ("Ladra e Sedutora", que Claude Miller filmou em 1988), sem esquecer um projeto com o qual ele se importava muito, "Nez de Cuir", que ele vislumbrava com Gérard Depardieu –de quem se tornou parceiro– e Fanny Ardant.

    Fraco, doente, acreditando-se convalescente ou querendo acreditar estar, Truffaut mantinha a esperança de continuar seu trabalho para, de alguma forma, completar o quadro, como diz o delirante e apaixonado Julien Davenne em "O Quarto Verde". Sim, completar o quadro. Mas qual deles? O de um homem inteiramente dedicado a sua única paixão: o cinema. Um tipo de devoção radical, exclusiva. Sagrada. Desprovida de narcisismo.

    Após sua morte, muitos classificaram François Truffaut na categoria bem-comportada dos cineastas "acomodados", que traiu seus ideais de juventude, sem enxergar nele a incrível força da obstinação e da ideia fixa, que consistia em seguir um sonho adolescente: "Eu quero que meus filmes deem a impressão de terem sido filmados com 40°C de febre", dizia ele.

    Acredita-se, com razão, que a obra inteira é coerente, harmoniosa, redonda: ela é. Muitos filmes se encadeiam numa bela lógica.

    A "saga Doinel", série original e única que vê crescer um personagem, vivido por Jean-Pierre Léaud, de 14 a 38 anos, em cinco episódios de sua educação sentimental. Os filmes "paixão", de "Jules e Jim" (1962) a "A Mulher do Lado" (1981), passando por "Um Só Pecado" (1964), "A Sereia do Mississipi" (1969), "As Duas Inglesas e o Amor" (1971), "A História de Adèle H." (1975), "O Último Metrô" (1980), nos quais Truffaut se esforça em exorcizar sua visão fúnebre do amor louco: "Nem com você nem sem você". A fala de Madame Jouve (Véronique Silver) em "A Mulher do Lado" resume perfeitamente essa equação impossível, na qual o casal apaixonado queima suas asas até a morte: "Como as grandes aves de rapina, ele plana sobre nós, ele para e nos ameaça"¦ Sim, o amor dói".

    Os cinco filmes adaptados da "série noire": "Atirem no Pianista" (1960), visão poética à la [Raymond] Queneau do mundo dos gângsteres, "A Noiva Estava de Preto" (1968), com música de Bernard Herrmann, a ser revisto por sua audácia narrativa e pela força da ideia fixa (uma mulher decide de uma vez por todas matar), "A Sereia do Mississipi", belo filme "doente" no qual Belmondo é frágil, por vezes manhoso, enquanto a heroína, interpretada de forma magnífica por Catherine Deneuve, conduz a história mentindo descaradamente.

    A beleza dos casais em Truffaut: Aznavour-Marie Dubois ("Atirem no Pianista"), Jeanne Moreau e seus dois amantes, Oskar Werner e Henri Serre ("Jules e Jim"), Desailly-Françoise Dorléac ("Um Só Pecado"), Belmondo-Deneuve ("A Sereia do Mississipi"), Deneuve-Depardieu ("O Último Metrô"), Fanny Ardant-Depardieu ("A Mulher do Lado") ou Fanny Ardant-Trintignant ("De Repente num Domingo"). Sim, os casais são mágicos, mesmo se sempre têm algum defeito, um grão de areia, como nas canções de amor que terminam tristemente. Amam-se, largam-se, voltam a se juntar porque o amor é mais forte, mas há sempre um momento no qual o desequilíbrio aparece, no qual a busca pela harmonia fracassa. E aí machuca.

    Há também, é claro, os filmes sobre a infância: do curta "Os Pivetes" (1957) a "Idade da Inocência" (1976), passando por "Os Incompreendidos" (1959) e "O Garoto Selvagem" (1970), nos quais Truffaut, numa espécie de retorno imaginário a sua própria infância, tenta descobrir os mistérios dos seres e da linguagem, conciliando ao mesmo tempo seu gosto pela escola das ruas e sua crença no aprendizado da linguagem, única arma que permite forjar um destino, até mesmo ter seu lugar na sociedade.

    PORTA ABERTA

    Nessa obra construída de maneira consciente, harmoniosa, aparece uma abertura, um sentimento de incompletude, uma porta aberta para um futuro sem ilusão. Truffaut morreu muito cedo e muito jovem para que nos contentemos de só lamentar sua falta.

    Acima de tudo, há um grande mistério em seu cinema, alguma coisa que, de um filme para o outro, volta para fazer eco, um ricochete. Como uma mania. Vistos e revistos, seus filmes assumem, segundo o tempo e a época, cores mutantes, tonalidades novas; é uma surpresa revê-los, com um outro olhar, como se o tempo jogasse a favor deles, ou contra eles, e como se eles nos olhassem em uma outra idade de nossa própria vida.

    É assim "O Homem que Amava as Mulheres" (1977), com o genial Charles Denner, duplo ideal do cineasta. O que retorna nesse filme é o amor, a conquista amorosa (e sexual) sob a forma de uma obsessão e de uma mania. Depois das 18 horas, Bertrand Morane [personagem de Denner] não suporta mais a companhia dos homens. Ele vai à caça, como um "conquistador", com seus olhos de pássaro noturno, ar ansioso. Isso o coloca num estado impossível, como se sua vida dependesse disso. Então ele retorna a sua obsessão pelas mulheres, as "pequenas maçãs" e os "longos caules", na sua infância e adolescência, fazendo-a nascer de uma relação muito particular com sua mãe, totalmente indiferente a ele. Roteiro hiper "truffautiano", se pensarmos como a própria mãe do jovem François Truffaut era indiferente quanto a seu filho único. Dessa falta de amor, da falta de interesse de uma mãe por seu filho, nasceu uma vocação, a de fazer filmes, ou a de amar todas as mulheres.

    Ideia fixa, obsessão por conseguir viver apenas do que se ama: o cinema. Esse esquema ficcional tão romanesco é caro a Truffaut e retorna sob uma forma mórbida e elegíaca em "O Quarto Verde", no qual o próprio cineasta, ator, devota um culto a sua mulher e a seus amigos mortos. Há uma ligação lógica, ao mesmo tempo evidente e secreta, entre Bertrand Morane, que cultua todas as mulheres (que ele teve), e Julien Davenne, que, fechado numa câmara mortuária, coloca a aliança no dedo de sua mulher morta. Dois filmes que conversam, acompanhados pela música sublime (post-mortem) de Maurice Jaubert. O cinema ou a arte de celebrar os mortos, ou os vivos (como Denner) que ignoram ainda que ela erra em torno deles.

    SERGE TOUBIANA, 65, é crítico de cinema, diretor da Cinemateca Francesa desde 2003 e autor de "Truffaut, Uma Biografia", com Antoine de Baecque (Record; esgotado), e "Amos Gitai - Exílios e Territórios" (Cosac Naify).

    ÚRSULA PASSOS, 27, é redatora da "Ilustríssima".

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