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    "Laser", ou o som e o sentido

    RICARDO BREIM

    23/08/2015 02h03

    São Paulo, 1989

    Na época em que eu participava como estudante dos festivais de música do colégio Fernão Dias Pais, ao lado de Luiz Tatit, as canções concorrentes eram geralmente resultado de parcerias. Isso me parecia algo natural, pois imaginava que as competências para compor ou letrar uma canção eram específicas e independentes.

    Em 1989, quando eu já atuava como músico e utilizava sistematicamente as canções populares para ensinar música, duas canções me permitiram aprender que, quando se interpenetram, música e letra já não podem mais ser percebidas como simples justaposição.

    Acervo Pessoal Ná Ozzetti
    Ao fundo, da esq. para dir., Breim, Manny Monteiro e Acelino. Na frente, Renato Nunes, Zé Miguel Wisnik e Ná Ozzetti, em foto de 1989, na Escola Espaço Musical
    Ao fundo, da esq. para dir., Breim, Manny Monteiro e Acelino. Na frente, Renato Nunes, Zé Miguel Wisnik e Ná Ozzetti, em foto de 1989, na Escola Espaço Musical

    Nesse ano, José Miguel Wisnik e eu mantivemos uma rotina de encontros na escola de música Espaço Musical. Pretendíamos reunir material para o show em que ele se apresentaria como intérprete de suas canções. Cada encontro terminava quando conseguíamos escolher e gravar no sequenciador uma ideia inicial de arranjo para a canção daquele dia.

    Num desses encontros, Zé Miguel, que é descendente de poloneses, me mostrou "Polonaise", acompanhando-se ao piano com um gesto sonoro bastante incomum no universo da canção popular, mas, sem dúvida, familiar a ouvintes de Chopin, o polonês que parece ter entendido como ninguém as possibilidades desse instrumento.

    Em tais situações, um músico mais apressado tende logo a avaliar que, para ser ouvida como popular brasileira, uma canção como aquela precisaria de uma levada ou uma mudança nos acordes. Naquele dia, porém, "Polonaise" foi para mim um ponto de interrogação sobre toda pressa, um convite original à profundidade e à ruptura com a escuta estereotipada. Ao me abrir para a experiência de apreciá-la, buscando compreendê-la, deixando-me tocar, essa canção se revelou como uma fusão bem resolvida entre canção brasileira e música de concerto, ampliando limites.

    O piano que Zé Miguel utilizou ilustra muito bem a ideia que escutei de Luiz Tatit anos depois: "O bom arranjo é aquele que ajuda a canção a dizer melhor o que ela tem para dizer".

    Nossa parceria composicional iniciou-se enquanto conversávamos sobre as fusões dentro da canção popular, quando ele quis conhecer a melodia que eu havia composto, inspirada nas "Danças Romenas" de Béla Bartók.

    Eu me perguntava se seria capaz de recuperar aquela composição de sete anos antes, que nem havia chegado a escrever ou gravar. Quando me lembrei de que não a havia concluído, parei de tocar e comecei a me explicar, mas Zé Miguel me interrompeu e disse, incisivo:

    – Por favor, grave imediatamente essa música para mim!

    Tentei insistir na ideia de, antes, concluir a composição, mas ele disse:

    – Não precisa: está pronta!

    Qualquer pessoa que conheça de perto o tempo cuidadoso que Zé Miguel costuma dedicar ao trabalho com cada estrofe de suas canções poderá imaginar minha surpresa ao vê-lo chegar depois de cinco dias com a canção: "Laser".

    Depois da impressão de estar diante de uma letra completamente resolvida, fui descobrindo outras surpresas. Com a repetição da palavra "gota", Zé Miguel ajudou a revelar que o início da melodia parece sugerir um compasso ternário, embora seja, de fato, quaternário. Ao utilizar imagens de delicadeza ou leveza na metade inicial da primeira parte e de corte ou ferida na metade final, estabeleceu relação direta com os efeitos de sentido da variação musical, pois as principais notas melódicas da metade final resultam mais tensas na relação com os acordes.

    Convido o leitor a escutar a versão original de "Laser" no primeiro disco de canções de Zé Miguel e tentar descobrir outras surpresas. Se quiser um pouco de escola para esse tipo de experiência, procure conhecer as teorias construídas por Luiz Tatit a respeito da canção popular. Mas sem esquecer que, para compreender tão profundamente quanto possível essas magias que se dão entre música e letra, são necessárias várias vidas.

    RICARDO BREIM, 63, é músico, compositor, professor e dirige o Espaço Musical, escola que fundou há 30 anos.

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