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    Biografia recém-lançada tira cantora Áurea Martins da invisibilidade

    ALVARO COSTA E SILVA

    17/12/2017 02h00

    Greg Salibian/Folhapress
    A cantora Áurea Martins no evento de entrega do Troféu Raça Negra, em 2013

    Áurea Martins é um dos segredos mais bem guardados da música brasileira. Quem ainda não a descobriu não imagina o que está perdendo: uma cantora elegante, sensual, de timbre rouco e quente, afinação absurda, interpretação sem exageros. Ampara-se num farto repertório, em que se destacam o samba-canção e o jazz.

    Aos 77 anos, ela acaba de ganhar uma biografia: "Áurea Martins: "A Invisibilidade Visível" [Folha Seca, 248 págs., R$ 50], de Lúcia Neves. O livro será lançado, com direito a sarau de música, nesta segunda-feira (18), a partir das 18h, na rua do Ouvidor, 37, onde fica a livraria responsável pela edição.

    Começou no rádio como só as grandes fizeram, ganhando programas de calouro. Na Rádio Nacional, Áldima Pereira dos Santos virou Áurea Martins, por inspiração de Paulo Gracindo (que entendia dessas trocas, pois se chamava Pelópidas) e Mário Lago.

    Áurea, pelo sorriso de belos dentes brancos, e Martins, porque a achavam parecida com o cantor Abílio Martins, uma espécie de Jamelão do segundo grupo.

    A biografia é particularmente esclarecedora sobre o longo período, entre 1970 e 1988, no qual Áurea brilhou como cantora da noite carioca. Pegou o mítico Dancing Brasil, atuando no conjunto musical (com o pianista Rubinho Bastos) e na orquestra (com Fats Elpídio). Lá conheceu sua madrinha artística e grande amiga, Elizeth Cardoso, que também passou pela escola dos dancings.

    Foi crooner de outro templo boêmio, a boate Drink, em Copacabana. Em 1972, gravou seu primeiro LP, "O Amor em Paz", com arranjos de Luizinho Eça executados pelo Tamba Trio —um luxo só. Se isso não bastasse, Paulo Mendes Campos faz uma rara participação no disco, lendo trechos do seu poema "No Princípio do Amor".

    Number One, 706, Special Bar, O Teclado, Da Vinci, Equinox, Cálice: não houve casa noturna de alguma importância na zona sul em que a cantora não se apresentasse.

    E levou a mesma classe até a Lapa, renascida musicalmente a partir dos anos 2000. Sua voz de contralto continua firme. Quem sabe teremos canja no lançamento da biografia?

    SE MEU TEATRO FALASSE

    Nos últimos anos, o Rio perdeu cerca de 40 salas de espetáculos. O Teatro do Leblon chegou a ficar dois meses de portas fechadas por falta de recursos. Mas suas duas salas estão de volta: a Marília Pêra para aulas de teatro musical com Charles Möeller e Claudio Botelho, e a Fernanda Montenegro para shows da companhia Ginga Tropical.

    Möeller e Botelho usaram o local para os ensaios de "Se Meu Apartamento Falasse", versão brasileira de "Promises, Promises", comédia musical de Burt Bacharach inspirada no filme de Billy Wilder. A peça está em cartaz até 14 de janeiro no Teatro Bradesco, na Barra da Tijuca.

    O melhor de tudo é que o Teatro do Leblon não precisou, para resistir, mudar o nome para alguma coisa esdrúxula como XP Investimentos, ex-Teatro do Jóquei. Saudades de nomes simples como Teatro da Praia ou Teatro de Bolso.

    OITO NO MAM

    O Museu de Arte Moderna está agitado neste fim de ano, com oito exposições.

    Acabam de estrear: "O Ritmo do Espaço", com obras do japonês naturalizado brasileiro Yutaka Toyota; a instalação "Blind Gallery", assinada pelo britânico Christopher Page; uma individual do italiano Lucio Salvatore; e esculturas em madeira de Zanini de Zanine.

    Seguem em cartaz: "Alucinações à Beira-Mar", com obras da coleção de Gilberto Chateaubriand; telas de Pollock, que podem ser vistas em "Estados da Abstração no Pós-Guerra"; e as mostras-homenagens ao crítico inglês Guy Bret e aos 25 anos de carreira do artista carioca José Bechara.

    POLVO NO CANASTRA

    Que mistério tem o Canastra? É um boteco de apenas uma porta, que fica na esquina das ruas Barão da Torres e Jangadeiros, em Ipanema, quase ao pé da favela Pavão-Pavãozinho. Será o vinho branco gelado? Ou a ostra com limão? O polvo com cebola?

    Os três sócios são franceses. E o certo é que o lugar à noite vive lotado, com mesas nas calçadas, uma versão do Baixo Gávea mais descontraída, com muita gente conversando em pé e azarando.

    Outro dia ali se passou uma cena digna da geral do antigo Maracanã: um saco cheio de xixi foi jogado do alto de um prédio em cima dos frequentadores. Calma, cara.

    *

    ALVARO COSTA E SILVA, o Marechal, 54, é jornalista e colunista da Folha. Escreveu "Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro" (Casarão do Verbo).

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