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    Leia a última entrevista de Antônio Ermírio de Moraes à Folha

    DE SÃO PAULO

    25/08/2014 09h04

    O empresário Antônio Ermírio de Moraes, que morreu na noite deste domingo (24) aos 86 anos, falou com a Folha em 2005, ao completar 77 anos.

    O executivo teve os diagnósticos de Alzheimer e hidrocefalia confirmados em 2006 e afastou-se da gestão do Grupo Votorantim em 2008.

    Ele comentou o que considerava uma falta de prioridades do governo do país, que na época tinha Luiz Inácio Lula da Silva como presidente –para Ermírio de Moraes, Lula precisava trabalhar mais.

    A entrevista, concedida ao jornalista Guilherme Barros, foi publicada no dia 3 de junho de 2005 no caderno "Dinheiro". Leia abaixo:

    Para Ermírio, Lula precisa trabalhar mais

    O empresário Antônio Ermírio de Moraes, presidente do grupo Votorantim, terá direito a uma dupla comemoração amanhã em Alumínio (SP), onde fica a sede da CBA (Companhia Brasileira de Alumínio). Ele participará de um churrasco com os 5.000 funcionários da empresa para comemorar os 50 anos CBA e, ao mesmo tempo, seu aniversário de 77 anos. O empresário não convidou ninguém de fora para a festa. "Temos de prestigiar as pessoas que trabalham conosco."

    Para o empresário, o Brasil está perdendo uma chance de ouro de se tornar uma grande potência no agronegócio. Ele acha que o governo deve ter como meta o desenvolvimento do cerrado, uma área de 75 milhões de hectares com baixo rendimento agrícola.

    O que falta, para o empresário, é a fixação de prioridades por parte do governo. Para ele, "o governo joga muita conversa fora e se perde nos objetivos". Para Ermírio de Moraes, o país tem tudo para se tornar uma grande potência, "mas para isso precisa ser bem dirigido". Ele acha também que o governo precisa trabalhar muito mais do que hoje. "O Lula precisa trabalhar mais e usar um pouco menos o aviãozinho dele", afirmou. A seguir, os principais trechos da entrevista.

    *

    Folha - Ao comemorar 77 anos de idade e 50 anos da CBA o sr. está otimista com o país?
    Antônio Ermírio de Moraes - O cerrado brasileiro ocupa uma área de 75 milhões de hectares. O problema de a terra não ser uma das mais férteis é perfeitamente corrigível. Com o calcário, que há em abundância na região, pode-se corrigir a acidez da terra e torná-la fértil. Se dermos atenção ao cerrado, o Brasil pode se tornar o maior produtor de soja e de cereais do mundo.

    O que falta ao Brasil para dar mais atenção ao cerrado?
    O que precisamos é de estradas de ferro. Isso tem de ser um programa de governo. O governo precisa investir na expansão do setor ferroviário. Se fizer isso, o Brasil se torna o celeiro do mundo. O Brasil tem terra, tem sol e tem água –as três coisas básicas para tornar o cerrado o celeiro do mundo. Mas, para isso, precisa melhorar o transporte ferroviário. Nós temos no cerrado uma área correspondente a toda a área plantada nos Estados Unidos, e não a aproveitamos. Precisamos de um plano sério de governo que leve adiante a ideia. O Ministério da Agricultura precisa levar a ideia adiante.

    Quanto é preciso investir?
    O investimento maior é mesmo no transporte ferroviário para ligar Goiás a uma região portuária. O Brasil é o único país do mundo onde o caminhão responde por 60% do transporte de cargas, quando no resto do mundo 60% são por ferrovia. Um país não pode crescer nessa base. É caro.

    O que impede o governo de investir nessa área?
    O que atrapalha é o governo não ter prioridades. O governo joga muita conversa fora e se perde nos objetivos. O Brasil não produzia nada de aço e resolveu fazer 20 milhões de toneladas. Agora produz 32 milhões de toneladas, que é pouco ainda, mas produz. O setor agrícola não pode ser esquecido. Os países industrializados estão interessadíssimos num projeto de desenvolvimento do cerrado.

    O sr. tem interesse em investir nesse setor?
    Só queria ter 25 anos para isso. Hoje, aos 77 anos, estou muito velho. O que eu quero é jogar a ideia. Nesta fase da vida, os investimentos que eu tinha que fazer eu já fiz e continuo fazendo. Não tenho nenhum interesse pessoal ao lançar essa ideia. Meu interesse é mesmo convencer o governo a dar prioridade a esse negócio. Se tivesse 25 anos, começaria a desenvolver essa área. Em alumínio, quando fizemos a CBA, há 50 anos, começamos com mil toneladas por ano, e hoje já são 400 mil. Na agricultura, os resultados serão muito mais rápidos. Agora, o governo tem de ter um plano de ação. Os outros países todos têm medo do Brasil. O Brasil, bem dirigido, tem condições de ser uma potência econômica fantástica. Mas precisa ser bem dirigido.

    O sr. acha que país está sendo mal dirigido?
    Tenho muita admiração pelos ministros Furlan [Desenvolvimento], Roberto Rodrigues [Agricultura], Palocci [Fazenda] e a Dilma [Minas e Energia], que estão fazendo boas administrações, mas acho que o governo poderia andar mais depressa. Não sou pessimista. Acredito no Brasil, e é por isso que estou chamando a atenção para essa oportunidade de investir no cerrado. Há 50 anos, ao construir a CBA, as pessoas poderiam achar que eu estava louco por querer concorrer com os grandes produtores de alumínio, como Alcan, Alcoa e a Vale, e nós vencemos.

    Folha - Como vê o governo Lula?
    Ele está fazendo o que pode. Evidentemente, ele não tem o preparo que eu gostaria que um presidente tivesse, mas ele tem força de vontade. Ele pode corrigir essa parcela com gente mais competente. Arranja um bom ministério em todos os setores e comanda esse bom ministério. Agora, o Lula precisa trabalhar mais e usar um pouco menos o aviãozinho dele.

    E a economia, como o sr. vê a desaceleração do PIB?
    Estamos passando uma fase meio difícil agora, mas acho que é passageira. O Brasil vai reagir. Apesar da desaceleração, o Brasil bateu recordes de exportações. Se o Brasil apostar na agricultura, o resto corre atrás.

    O sr. acha os juros responsáveis pela desaceleração?
    Os juros desanimam muita gente. É duro pagar juros tão altos. Nós, que não somos grandes devedores, já sofremos. Agora, imagine para quem vai começar um negócio...

    O câmbio pode afetar as exportações?
    Ermírio de Moraes - Pode. O câmbio está muito baixo. Se a exportação cair, o desemprego vai subir. Hoje, 45% da CBA está sendo exportado, que é uma indústria de base e deveria ficar no país.

    O sr. é favor de algum controle de capital?
    Compartilho sim da ideia. Nós queremos gente que venha para cá e acredite no Brasil, que fique aqui, e se desenvolva junto com a gente. Não queremos o dinheiro do oportunista.

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