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    Cientistas abrem pequenas empresas investindo em nanotecnologia

    FERNANDA PERRIN
    DE SÃO PAULO

    25/05/2015 02h00

    Um hidratante com o triplo do tempo de ação da média do segmento, que acelera o resultado sobre a pele do consumidor, é um dos itens do portfólio da Nanovetores, que encapsula princípios ativos para cosméticos.

    Utilizando a nanotecnologia, a empresa de Florianópolis (SC) "reveste" substâncias para que elas tenham maior permeabilidade, duração e eficácia do que as que não são revestidas.

    A ideia do negócio partiu de Ricardo Ramos, 42, após a mulher, Betina Ramos, 37, terminar um doutorado em nanotecnologia na França.

    Com apenas três anos, a Nanovetores exporta para 19 países e, só nos primeiros quatro meses deste ano, faturou R$ 4 milhões -o dobro do ano passado inteiro.

    A manipulação de nanopartículas (de um milionésimo de milímetro) tem inspirado cientistas a abrirem empresas para dar novas capacidades a materiais e produtos do dia a dia. Segundo o Sebrae, há cerca de cem negócios de pequeno porte atuando na área.

    A CHEM4U, de Mauá (SP), incorpora nanotecnologia a produtos de outras empresas para dar a eles propriedades bactericidas e fungicidas.

    Aplicada a uma embalagem alimentícia, por exemplo, a técnica permite a conservação por mais tempo. "O alimento [pode ficar] na prateleira ou no estoque sem ser contaminado", diz a engenheira química Leila Jansen, 56, que criou a empresa com o marido Ulisses Jansen, 56.

    O plano é expandir para produtos hospitalares.

    Assim como a maioria das pequenas empresas que atuam na área, a CHEM4U nasceu em uma incubadora de uma universidade.

    Como exige mão de obra altamente especializada e equipamentos de pesquisa de preços altos, há estreita colaboração entre as empresas e o meio acadêmico.

    FUTURO DE RISCOS

    "É o próximo ciclo de desenvolvimento mundial", diz Leandro Berti, da ADNano, start-up catarinense que desenvolveu um fluído nanoestruturado para amortecedores que economiza combustível e aumenta a segurança.

    O próximo passo de Berti é criar um amortecedor que potencialize a ação do fluido. Ele diz, porém, que está com dificuldade para conseguir investidores porque no Brasil "só se pensa em aplicativos para celular".

    Caio Cezar/Folhapress
    Leandro Berti, presidente-executivo da ADNano, que desenvolveu um fluido nanoestruturado
    Leandro Berti, presidente-executivo da ADNano, que desenvolveu um fluido nanoestruturado

    Célio Cabral, gerente de inovação e tecnologia do Sebrae, acredita que os investidores sejam cautelosos em razão do "risco tecnológico considerável" que essas empresas apresentam.

    Diante da dificuldade de conseguir financiamento privado, ele recomenda aos empreendedores buscarem editais e fundos de fomento públicos, como da Finep.

    Para José Martins, da Nanotimize, a falta de regulação é um outro problema de quem atua na área. A empresa de Itapira (SP) foi criada em 2008 com a proposta de aplicar nanotecnologia a produtos farmacêuticos, mas foi obrigada a mudar de rumo por falta de demanda -o primeiro projeto com nanotecnologia foi só em 2014.

    "Como não há definição [de critérios regulatórios], as farmacêuticas ficam com incerteza se vale a pena fazer investimentos de maior porte", afirma Martins.

    REGULAÇÃO

    A manipulação de nanopartículas permite conferir novas características a materiais, como maior permeabilidade e precisão.

    Por outro lado, elementos tão pequenos podem entrar na corrente sanguínea, causar inflamação celular e pesquisas já apontaram que alguns nanomateriais são potencialmente cancerígenos, de acordo com o professor Guilherme Lenz e Silva, da USP.

    Uma das soluções apontadas para garantir a segurança dos produtos é a regulação da tecnologia, nos moldes do que foi feito com a lei de biossegurança.

    Célio Cabral, gerente de inovação e tecnologia do Sebrae, defende que uma regulação também pode ajudar a tornar a área mais atrativa para investidores.

    Para José Martins, da Nanotimize, que incorpora tecnologias a produtos farmacêuticos, a empresa foi prejudicada pela falta de regulação. Ele diz que as empresas temem investir em nanotecnologia porque não há critérios claros que balizem o que pode ou não ser feito.

    Editoria de Arte

    "Como os nanomateriais são relativamente novos, não há um estudo sobre o efeito no organismo no longo prazo", diz o professor Lenz e Silva. Outro problema é como descartar os resíduos da produção.

    Ainda assim, ele questiona a necessidade de uma regulação. Independentemente de incorporar nanotecnologia ou não, qualquer cosmético ou medicamento precisa ser registrado na Anvisa, o que garante a segurança, diz.

    Maria Luisa Leal, diretora da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, concorda com a lógica. Ela não se diz contra uma regulamentação, mas afirma que "quando a Anvisa registra um produto, ela garante que ele tem eficácia, qualidade e segurança".

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