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    Sem conseguir repatriar receitas, Gol quer cortar rota venezuelana

    SAMY ADGHIRNI
    EM SÃO PAULO

    01/10/2015 02h00

    Leonardo Wen/Folhapress
    ORG XMIT: 274901_1.tif Desastre Aéreo do Airbus-A320 da TAM: avião da Gol pousa na pista do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, SP, que passou a receber ranhuras após acidente com o Airbus-A320 que matou 199 pessoas em 17 de julho de 2007. (São Paulo, SP, 27.07.2007. Foto de Leonardo Wen/Folhapress)
    Avião da companhia aérea Gol no aeroporto de Congonhas, em São Paulo

    Impedida de repatriar o equivalente a R$ 351 milhões retidos na Venezuela devido a distorções de câmbio, a Gol está reavaliando a rota entre São Paulo e Caracas, que opera desde 2007.

    A empresa, fortemente atingida pela alta do dólar, já reduziu a frequência de 28 para 16 voos semanais desde o ano passado e estuda aprofundar os cortes. "Neste contexto de crise e alta do dólar, não há como negar que, se não encontrarmos uma solução [ao impasse na Venezuela], teremos de pensar se o voo será mantido", diz Alberto Fajerman, diretor de Relações Institucionais da Gol.

    Não era possível, até a conclusão desta edição, comprar passagens para Caracas.

    A TAM, que opera a mesma rota uma vez por semana e tem R$ 161 milhões bloqueados no país, se recusou a tratar do tema com a reportagem. O site da empresa, porém, já não oferece a opção de voo direto para Caracas.

    O problema, comum a todas as companhias aéreas estrangeiras na Venezuela, decorre do complexo sistema de câmbio na Venezuela, que é controlado com mão de ferro pelo governo socialista e funciona com base em diferentes taxas de conversão.

    A lei venezuelana obriga as empresas a vender em bolívar, moeda local. Parte do dinheiro arrecadado é usado para gastos na Venezuela, como salário de funcionários locais, pagamentos de taxas e de querosene, entre outros.

    O excedente, porém, precisa ser transformado em dólar para ser repatriado até a sede das companhias aéreas.

    Em 2012, as empresas podiam repatriar o dinheiro a uma taxa preferencial de 4,3 bolívares por US$ 1. Em 2013, o índice de conversão passou para 6,3 bolívares/US$ 1. O cenário tornou-se mais adverso neste ano, quando o governo impôs uma conversão a 12 bolívares/dólar, o que significou, na prática, uma desvalorização abrupta dos ativos das empresas aéreas no país.

    A Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata) vem cobrando do governo venezuelano que permita às empresas repatriarem fundos na taxa mais favorável. A dívida total das companhias atinge US$ 3,8 bilhões.

    A dificuldade de repatriar fundos, conjugada à queda da ocupação dos voos gerada pela crise econômica, já levou Air Canada e Alitalia a interromper voos para Caracas. O tráfego de passageiros no país caiu 8,5% no ano passado, contrariando tendência de alta na América Latina, segundo a Iata.

    QUEROSENE EM DÓLAR

    A situação complicou-se ainda mais com a decisão da Venezuela, adotada em setembro, de cobrar das estrangeiras querosene em dólar. "Temos um monte de dinheiro lá, que não podemos receber, só falta agora ter que mandar mais dinheiro para pagar o combustível extraído e refinado na própria Venezuela", questiona Fajerman.

    Caso a linha se encerre, a Gol cogita comprar imóveis para preservar seu capital no país até poder repatriá-lo.

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    Por que as empresas aéreas brasileiras estão recuando de voar para a Venezuela?

    O grande problema é o sistema de câmbio adotado pelo país, que causa distorções e prejuízos para as companhias. Um outro ponto de discórdia é o querosene, já que em setembro a Venezuela decidiu cobrar em dólar o combustível para as empresas estrangeiras

    Além disso, há o cenário econômico adverso. O governo venezuelano não divulga dados recentes do PIB, mas, segundo previsão do Fundo Monetário Internacional, a economia do país vai encolher 7% neste ano, o pior resultado entre os latino-americanos.

    As empresas brasileiras são as únicas que reclamam dessa situação?

    Não. Segundo a Iata (Associação Internacional do Transporte Aéreo, que reúne as principais empresas globais), a dívida total das companhias atinge US$ 3,8 bilhões. Empresas como Air Canada e Alitalia já interromperam voos para Caracas. Outras reduziram a frequência de voos para a capital venezuelana.

    Como isso vem afetando o turismo no país vizinho?

    O tráfego de passageiros no país caiu 8,5% no ano passado, contrariando tendência de alta na América Latina, de acordo com a Iata.

    Dados do governo venezuelano mostram, por exemplo, que o número de turistas estrangeiros em dezembro do ano passado foi um quarto menor do que dois anos antes, contribuindo para o mau desempenho na economia local. No mesmo período do ano passado, o total de venezuelanos indo para o exterior também caiu, mas de forma bem mais moderada (cerca de 7%).

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