• Mercado

    Saturday, 17-Apr-2021 15:28:47 -03

    EUA aumentam taxa de juros pela 1ª vez desde 2006

    MARCELO NINIO
    DE WASHINGTON

    16/12/2015 17h00

    Jonathan Ernst - 9.out.2013/Reuters
    U.S. President Barack Obama announces his nomination of Janet Yellen to head the Federal Reserve at the White House in Washington October 9, 2013. If confirmed, Yellen will run the world's most influential central bank, providing some relief to markets that would expect her to tread carefully in winding down economic stimulus. The nomination puts Yellen on course to be the first woman to lead the institution in its 100-year history. REUTERS/Jonathan Ernst (UNITED STATES - Tags: POLITICS BUSINESS) ORG XMIT: WAS601
    Presidente do Fed, Janet Yellen, ao lado de Barack Obama, presidente dos EUA

    O Federal Reserve (banco central americano) anunciou nesta quarta (16) o aumento dos juros no país em 0,25 ponto percentual. É a primeira elevação desde junho de 2006.

    Com o aumento, a taxa básica de juros, que serve de referência para a remuneração dos títulos públicos americanos e estava entre zero e 0,25%, passa para 0,25% a 0,50%.

    Banco Central dos EUA
    Conheça o FED e o impacto da alta de juros
    bandeira dos Estados Unidos

    A decisão foi tomada por unanimidade pelos membros do comitê de política monetária do Fed, em sua última reunião do ano e já era esperada pela maioria dos analistas de mercado, devido aos sinais de recuperação da economia americana nos últimos meses.

    "O comitê julga que houve melhora considerável nas condições do mercado de trabalho neste ano e está razoavelmente confiante de que a inflação subirá, no médio prazo, à meta de 2%", explicou o Fed no comunicado em que anunciou o aumento de juros.

    Em comunicado, o Fed indica que os ajustes da política monetária serão "graduais". "Como um todo, levando em conta desdobramentos domésticos e internacionais, o comitê vê os riscos para a atividade econômica e para o mercado de trabalho como equilibrados", diz.

    De acordo com economistas consultados pela Folha, a decisão não deve causar altas expressivas no dólar ou turbulências na Bolsa e nas taxas de títulos públicos brasileiros.

    Evolução da taxa de juros dos EUA, em % -

    A expectativa em torno do aumento de juros nos EUA vinha causando ansiedade nos mercados a cada reunião do Fed nos últimos meses, sobretudo em mercados emergentes como o Brasil. A preocupação é de que, com a melhor remuneração criada após o aumento dos juros, os títulos americanos atrairão recursos aplicados nos países emergentes, de maior risco, pressionando a alta do dólar.

    Dados recentes reforçaram a confiança dos membros do Fed para começar a aumentar os juros.

    Entre eles, a criação de 211 mil postos de trabalho em novembro e a manutenção da taxa de desemprego em 5%, próxima da média histórica de 4,5% anterior à crise financeira de 2008. Outro dado positivo foi o índice de inflação, que manteve-se inalterada. Em novembro, o índice de preços ao consumidor, que exclui alimentos e energia, teve alta de 0,2% pelo terceiro mês consecutivo.

    Desemprego nos EUA - Em %

    Para Angel Ubide, pesquisador do Instituto Peterson de Ecomomia Internacional, o mercado já absorveu nos preços de ativos possíveis fugas de recursos para os Estados Unidos e a instabilidade de economias emergentes como a brasileira.

    "O problema do Brasil é interno, não foi criado pela economia americana ou pelo Fed", afirmou Ubide, expressando opinião semelhante à de grande parte dos analistas.

    PIB dos EUA - Variação trimestral

    HISTÓRICO E EXPECTATIVAS

    Os juros nos EUA estavam próximos de zero desde dezembro de 2008, quando a crise financeira culminou na falência do banco Lehman Brothers, instalando o pânico nos mercados e mergulhando a economia americana à pior recessão desde a década de 1930. O Fed então cortou a taxa de juros ao mínimo histórico, entre zero e 0,25%, num esforço para impulsionar a recuperação do país.

    Com a economia americana mostrando sinais de retomada, especialistas alertavam nos últimos meses para o risco de esperar demais para um aumento de juros, entre eles a criação de uma bolha de ativos financeiros, devido ao excesso de liquidez no mercado.

    Outro problema foi lembrado pela própria presidente do Fed, Janet Yellen, em discurso há duas semanas. Manter a taxa de juros perto de zero por um longo período, disse, talvez acabasse forçando o Fed a apertar a política monetária "abruptamente". "Isso poderia perturbar mercados financeiros e até levar a economia, inadvertidamente, à recessão", afirmou.

    Em meio à expectativa dos últimos meses, muitos economistas apontaram que o ritmo do aumento dos juros será tão ou mais importante que o momento da decisão.

    COLABOROU THAIS BILENKY, DE NOVA YORK

    Inflação - Em %

    O que é FED

    -

    E AGORA? PERGUNTAS E RESPOSTAS

    1. Como os juros nos EUA afetam outros países?

    Títulos do Tesouro americano são considerados a aplicação mais segura do mundo. Se seus juros sobem, atraem investidores, que retiram recursos de outros países

    2- Qual o impacto para o Brasil da migração de investimentos para os EUA?

    A maior procura por dólares faz subir a cotação da moeda americana. Se o país precisar de recursos externos, terá também que oferecer taxas maiores de juros

    3- Como os investidores vão reagir ao aumento dos juros?

    Depende. Muitos analistas afirmam que a alta não deve ter tanto reflexo em ativos como o dólar, que já estaria precificando o aumento. Outros especialistas acreditam que haverá uma corrida por títulos públicos americanos, considerados de risco zero.

    Isso porque as taxas de juros na Europa e no Japão —também considerados seguros— estão baixas e devem permanecer nesses patamares por algum tempo, enquanto os países europeus e a economia japonesa se recuperam da crise.

    4- O dólar no Brasil sobe cada vez que se fala de aumento de juros nos EUA. Como a moeda deve reagir?

    A grande diferença de juros —a taxa básica brasileira está em 14,25% ao ano— deve conter a fuga de investidores do Brasil em direção aos Estados Unidos, mas o dólar tende a se apreciar ante o real.

    A desvalorização da moeda brasileira, porém, deve ser gradual e ocorrer a cada elevação dos juros nos Estados Unidos. Não são esperadas variações muito bruscas.

    5- Além do dólar, que outros investimentos reagem ao aumento de juros?

    A Bolsa brasileira deve perder atratividade com a perspectiva de aumento de juros nos EUA, por ser um investimento de risco. Então é possível que o Ibovespa, principal índice do mercado acionário brasileiro, sofra algumas quedas, mas nada muito forte.

    O ouro também sofre, porque não paga juros. Além disso, sua cotação é influenciada pela demanda de países como a China, que tem desacelerado.

    O mercado de títulos é bastante afetado, pois papéis emitidos por empresas com grau especulativo —sem o selo de bom pagador—devem pagar uma remuneração maior. A dificuldade de captação pode causar a falência de algumas empresas.

    6- O Banco Central brasileiro está preparado para o aumento de juros nos EUA?

    O BC pode reforçar sua atuação no mercado cambial.

    Além disso, a leitura é que a depreciação de quase 40% na taxa de câmbio neste ano ajudou a preparar o Brasil para uma provável alta de juros nos EUA.

    Edição impressa

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2021