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    Imigrante de 90 anos faz renascer o cultivo de chá no Vale do Ribeira

    DA BBC BRASIL

    22/04/2017 12h45

    BBC/Brasil
    Dona Elizabete Ume Shimada, que produz chá no Vale do Ribeira
    Dona Elizabete Ume Shimada, que produz chá no Vale do Ribeira

    Aos 90 anos, dona Elizabete Ume Shimada gosta de ver o amanhecer "na roça". Por isso, acorda antes do sol raiar e já vai para a plantação de chás, onde prepara as mudas e ainda colhe manualmente as folhas para uma produção de pequena escala, mas que vem promovendo a retomada do plantio em Registro, no interior de São Paulo –cidade que já foi conhecida como a "capital do chá" no Brasil.

    Em 2014, depois de quatro anos de intervalo sem ter para quem vender o chá preto produzido há duas gerações na sua família, dona Shimada –ao lado dos seis filhos, com 13 netos e seis bisnetos– recuperou a plantação de chá então tomada por pragas, investiu em uma produção independente e lançou, em 2015, o Obaatian - O Chá da Vovó.

    A produção de apenas 20 quilos mensais é pequena, mas promissora, e já ajudou a incentivar outros produtores da região do Vale do Ribeira, onde fica Registro.

    Desde que voltou a plantar o chá, que ocupa um quarto dos dez hectares do Sítio Shimada, ela viu ressurgir o interesse pelo produto na região, além de ter desfilado, neste ano, como destaque de um bloco de Carnaval cujo samba enredo era justamente a relação da cidade - que tem uma folha de chá desenhada na bandeira - com o produto trazido pelos japoneses.

    Carismática, dona Elizabete recebeu a BBC Brasil na casa de um dos seus filhos no bairro da Aclimação, em São Paulo. Apesar de não se lembrar de onde veio a semente que iniciou a plantação da família há 85 anos, tem um sonho grande: quer que o chá da Elizabete chegue à "xará" inglesa.

    "Eu queria muito que a rainha Elizabeth tomasse o chá da Elizabete, de Registro", disse ela.

    Se o sonho é chegar à Inglaterra, pelo menos no Japão o chá do Sítio Shimada já aterrissou. A história do chá da "Obaatian" ("vovó", em japonês) chamou a atenção de empresários do país, que a convidaram, em 2015, para contar como foi o processo de recuperação da plantação em um evento internacional sobre o produto, o Japanese Black Tea Festival.

    "Muita gente chorou, sabe? Ficaram emocionados com a história do meu chá", conta ela, orgulhosa.

    BBC/Brasil
    Dona Elizabete Ume Shimada, que produz chá no Vale do Ribeira
    Dona Elizabete Ume Shimada, que ainda visita a produção

    TRISTEZA

    Dona Shimada também já chorou por causa do chá. A recuperação da plantação do Sítio Shimada veio depois de um período de baixa nas vendas e de pouco interesse pelo produto –uma situação bem diferente das décadas de 1980 e 1990, conhecida como a época de ouro do chá no Vale do Ribeira. Nesse período, a região tinha pelo menos 40 fábricas e mais de 1,5 mil produtores.

    Hoje, no entanto, resta apenas uma grande fábrica - a Amaya, que, até 2011, comprava toda a colheita do Sítio Shimada. Poucos produtores conseguiram prosseguir com as plantações e muitos diversificaram, substituindo o chá por pupunha e banana.

    A redução na produção dos chazais é atribuída à concorrência com o mercado internacional –como 90% era exportado para países como Inglaterra e Canadá, a cotação do dólar afetava diretamente o preço do produto. Além disso, países africanos começaram a oferecer valores mais competitivos, o que intensificou a queda na produção brasileira.

    O Sítio Shimada sobreviveu graças ao pioneirismo de dona Elizabete. Em 1991, quando o interesse pelo chá começou a diminuir, a lichia ainda era uma frutinha pouco conhecida dos brasileiros.

    Mesmo assim, ela comprou 600 pés, que demoraram seis anos para dar frutos –mas, quando finalmente brotaram, em 1997, a família conseguiu manter a produção nas terras, sempre dividindo espaço com o chá preto.

    Mas, em 2011, a fábrica Amaya parou de comprar o chá dos Shimada. Foram três anos de interrupção –e tristeza– na produção no sítio familiar.

    "Eles disseram que não iriam mais comprar nosso chá. Cheguei em casa muito triste. Aí passou 2011, 2012, o chá cada vez mais feio. Abracei o pé do chá e chorei, né? O que eu ia fazer? O chá estava praticamente coberto, o cipó cobriu os pés."

    Nesse período, dona Shimada costurou, plantou bambu, manteve o plantio da lichia e nunca se acostumou a ver a produção de chá interrompida. "Eu olhava para os pés de chás todos tomados por cipó e ficava triste, mas o que eu poderia fazer, né?".

    'RASTEJANDO COMO JACARÉ'

    Mas, em 2014, um amigo a avisou de duas máquinas de enrolamento de folhas de chá –essenciais para a produção– que estavam à venda em um ferro velho.

    "Eu fui lá olhar, e elas estavam podres, muito velhas. Mas criei coragem e comprei. Depois de seis meses, ficaram como novas, como ouro, uma beleza, fiquei muito contente", conta ela.

    Nesse período, ela juntou a família e três estudantes voluntários de escolas da região e começou a plantar o chá, como tinha aprendido com o pai.

    "A plantação estava feia, precisava tirar o cipó, e a gente limpou se rastejando que nem jacaré. Tinha tanto mato que matei duas cobras venenosas na limpeza. Depois, a gente plantou e começou a catar os brotos, bem catadinho, um a um. A gente caprichou nos brotinhos", contou.

    A inauguração da fábrica do Obaatian foi no dia 1º de novembro de 2014 –nessa época, dona Shimada participava da colheita mais ativamente. Atualmente, são cinco funcionários envolvidos em toda produção.

    Mais recentemente, uma dor constante na perna não a permite participar da colheita como fazia antes, mas dona Ume continua indo "para a roça" todos os dias.

    "Eu sou mulher do mato. Não consigo mais participar tanto da colheita, então, tô fazendo mudas de chá, plantei 17 mil mudas e vou começar a vender, porque tá bonitinha. Eu trato como um neném".

    BBC/Brasil
    Dona Elizabete Ume Shimada, que produz chá no Vale do Ribeira
    Dona Elizabete sonha que um dia a rainha da Inglaterra conheça o chá produzido no interior de SP

    DEMANDA E DESAFIOS

    Depois do desafio inicial de recuperar a plantação, a família Shimada tem outra preocupação: atender a demanda cada vez mais crescente pelo produto e manter as características artesanais da produção que garantem a qualidade do chá da Obaatian.

    "Estamos acostumados com modelos de negócio de crescimento rápido, e a gente quer ver um crescimento sustentável, queremos crescer mantendo a qualidade e o caráter. Não queremos que seja um modismo, mas que se crie o hábito sólido de tomar chá", diz Yuki Himazaki, neto e "braço direito" de dona Shimada, responsável pelo design, logomarca e embalagem do produto e que atua como administrador, assessor de imprensa e empresário da avó.

    Segundo ele, com a estrutura atual, a fábrica é capaz de passar de 20 para 60 quilos mensais de chá. E já há pedidos para isso.

    "A gente sente que está aumentando o movimento na cidade, inclusive no turismo agrícola, e, graças ao chá, se intensificou ainda mais. Isso anima os agricultores da região. Mas a gente não esta satisfeito, queremos mais: tem muito chazal abandonado. Gostaríamos de ver tudo recuperado", afirma.

    O desejo do neto tem uma clara influência da avó, que se ressente com a falta de interesse pela agricultura.

    "Cortar mato é uma tristeza, então, em vez de cortar tem que plantar. Um dos meus netos se formou na escola, e vi muita gente ali estudando, vai tudo pra faculdade. Tenho certeza que não tem ninguém que quer cuidar da terra, ir para roça. Ninguém quer deixar o escritório. Eu falo: vocês têm que estudar, mas não podem esquecer a lavoura, porque a gente vive da lavoura, têm que mexer no barro, senão a gente vai comer o que, né?", afirma.

    "As autoridades que estão com gravata, que estudaram e tudo, por que não sabem viver? Estão acabando com o Brasil. Em vez de cuidar da terra, estão cortando", conclui, segurando uma das milhares de mudinhas de chá plantadas por ela.

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