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    Crise de estaleiros paralisa obras de US$ 6 bi no Rio de Janeiro

    NICOLA PAMPLONA
    DO RIO

    03/07/2017 02h00 - Atualizado às 23h25
    Erramos: esse conteúdo foi alterado

    Ricardo Borges/Folhapress
    Navios com obras paralisadas no estaleiro Mauá. Cada navio tem custo aproximado de R$ 300 milhões
    Navios com obras paralisadas no estaleiro Mauá. Cada navio tem custo aproximado de R$ 300 milhões

    Pelo menos uma vez por semana, trabalhadores do Estaleiro Mauá, na região metropolitana do Rio, precisam usar uma bomba para retirar dos tanques de um navio atracado no cais água que entra por uma fissura no casco.

    Ainda inacabada, a embarcação está com as obras paralisadas há dois anos, desde que o Mauá fechou as portas em 3 de julho de 2015, e sofre com a falta de reparo do problema e de manutenção.

    "A cada dia em que o navio fica parado, é mais um dinheiro que vai ter que ser gasto na sua recuperação depois", lamenta o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Niterói, Edson Rocha.

    Apenas no Mauá, são três navios inacabados, parte de uma lista de esqueletos gerados pela falência da indústria naval do país, após a descoberta do esquema de corrupção montado na Petrobras.

    Levantamento feito pela Folha mostra que, como eles, existem outros três navios, sete sondas, um casco de plataforma e quatro comboios hidroviários —formados, cada um, por quatro barcaças e um empurrador– parados em estaleiros no país, em diferentes estágios de construção.

    Juntas, essas encomendas somam US$ 6 bilhões e esperam pela solução de problemas contratuais ou judiciais.

    Além do fechamento de vagas com a suspensão das obras, a paralisia aumenta o custo de embarcações, que já haviam sido contratadas a preços superiores aos praticados no mercado internacional.

    Os navios da Transpetro no Mauá foram contratados por US$ 87 milhões, cada. São parte de uma encomenda de quatro embarcações, uma das quais foi entregue antes da suspensão das obras.

    "São barcos praticamente prontos e enferrujados", diz o vice-presidente do Sindicato da Indústria de Construção e Reparo Naval (Sinaval), Sérgio Bacci. "Para concluir, vai ter que gastar mais dinheiro."

    Controlado pelo mesmo dono do Mauá, o empresário German Efromovich, o Estaleiro Ilha (Eisa) tem outros três navios inacabados, que foram encomendados pela Log-In, única empresa privada a apoiar o programa de retomada da indústria naval.

    Nos dois casos, os estaleiros alegaram não ter mais dinheiro para tocar as obras. A Eisa Petro Um, empresa dos mesmos controladores do Mauá e que foi contratada para a construção dos navios no estaleiro, pediu recuperação judicial, recorrendo à Justiça em busca de proteção para negociar com credores.

    As sondas estão distribuídas em três estaleiros —Brasfels, Jurong Aracruz e Estaleiro Atlântico Sul— e tiveram as obras paralisadas por falta de pagamento da Sete Brasil. Criada com apoio do governo em 2010 para ser a principal fornecedora da Petrobras no pré-sal, a empresa também está em recuperação judicial.

    O casco da plataforma P-71 está no Rio Grande do Sul, enquanto a Petrobras e o estaleiro Ecovix discutem a rescisão do contrato. Já os comboios hidroviários estão parados no rio Tietê, em Araçatuba (SP), desde que a Justiça Federal determinou a suspensão do contrato assinado pela Transpetro, por suspeita de fraude nas licitações.

    FILME REPETIDO

    A situação remete à primeira grande falência da indústria naval brasileira, no final dos anos 1980, quando problemas financeiros provocaram paralisações em obras. O último navio entregue naquela época, o Livramento, por exemplo, demorou dez anos para ser construído.

    Na época, empresários do setor naval foram acusados de embolsar dinheiro do Fundo de Marinha Mercante (FMM) e deixar os estaleiros sem recursos para concluir as embarcações. O sindicato da indústria rechaça a comparação. Diz que, desta vez, a paralisação reflete a mudança na estratégia do governo e da Petrobras. "O problema é que o contratante mudou de ideia", afirma Sérgio Bacci.

    BNDES

    O Sindicato da Indústria de Construção Naval e Offshore (Sinaval) se reuniu na última semana com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para pedir a formação de um grupo que avalie medidas para destravar obras e fomentar novas encomendas.

    O vice-presidente da entidade, Sergio Bacci, argumenta que o banco tem grande exposição ao setor e poderia sofrer com calotes de estaleiros e armadores. Em dezembro, a carteira do BNDES de financiamentos atrelados ao Fundo de Marinha Mercante somava R$ 19 bilhões.

    "A Petrobras diz que tem que reduzir sua dívida e prefere contratar mais barato. Mas não dá para resolver o problema da Petrobras e quebrar o país", diz Bacci, citando que 50 mil trabalhadores já foram demitidos no pós-crise.

    O BNDES afirmou que está acompanhando com cuidado a situação do setor de construção naval.

    A Transpetro diz que não há previsão para a retomada das obras dos petroleiros do Mauá e que, "na qualidade de vítima", colabora com as autoridades na apuração relativa aos contratos do Rio Tietê.

    A Sete Brasil tenta negociar os contratos com a Petrobras para dar andamento ao seu plano de recuperação judicial —na semana passada, a estatal autorizou a reabertura das conversas sobre o tema.

    Procuradas, a Log-In não comentou o assunto e a KPMG, responsável pela recuperação judicial dos estaleiros de Efromovich, não respondeu aos pedidos de entrevista.

    Empregos nos estaleiros - Em quantidade (em 2016, apenas até novembro)

    Estaleiro Atlântico Sul (Ipojuca, PE)

    Obras paradas
    Quatro sondas da Sete Brasil em diferentes estágios de acabamento

    Valor do contrato
    Parte de uma encomenda de sete sondas, a US$ 662 milhões cada

    Situação
    Contratos cancelados pelo estaleiro em 2015 diante dos atrasos no pagamento

    Jurong (Aracruz, ES)

    Obras paradas
    Uma sonda da Sete Brasil, com 85% da obra concluída

    Valor do contrato
    Parte de uma encomenda de seis sondas, a cerca de US$ 804 milhões, cada

    Situação
    Sem receber desde novembro, estaleiro entrou em processo de arbitragem contra a Sete

    Estaleiro Ilha SA (Rio de Janeiro, RJ)

    Obras paradas
    Três porta contêineres da Log-In, em diferentes estágios de acabamento

    Valor do contrato
    Parte de uma encomenda de cinco porta contêineres, a US$ 66 milhões cada

    Situação
    Alegando falta de dinheiro para prosseguir as obras, estaleiro fechou as portas e pediu recuperação judicial em 2015

    Mauá (Niterói, RJ)

    Obras paradas
    Três navios petroleiros para a Transpetro, subsidiária da Petrobras, em diferentes fases de acabamento

    Valor do contrato
    Parte de uma encomenda de quatro navios do tipo Panamax, a US$ 87 milhões cada

    Situação
    Navios foram contratados a uma SPE chamada Eisa Petro Um, que parou a obra em julho de 2015, depois de ter negado pedido de aditivos pela Transpetro

    Brasfels (Angra dos Reis, RJ)

    Obras paradas
    Duas sondas da Sete Brasil, em diferentes estágios de conclusão

    Valor do contrato
    Parte de uma encomenda de seis sondas, a cerca de US$ 816 milhões cada

    Situação
    Obras suspensas pelo estaleiro em fevereiro de 2016 por falta de pagamento do contratante

    Estaleiro Rio Tietê (Araçatuba, SP)

    Obras paradas
    Quatro comboios hidroviários, formados por um empurrador e quatro barcaças cada um, já concluídos

    Valor do contrato
    Parte de uma encomenda de 20 comboios, a US$ 12 milhões cada

    Situação
    Contrato suspenso pela Justiça por suspeitas de fraude na licitação

    Ecovix (Rio Grande, RS)

    Obras paradas
    Casco da plataforma P-71, da Petrobras, com 50% das obras concluídas

    Valor do contrato
    Parte de uma encomenda de oito cascos, a US$ 425 milhões cada

    Situação
    Projeto foi retirado do planejamento estratégico da Petrobras e obras foram suspensas em dezembro

    Fonte: Empresas e Sinaval

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