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    Eliminar desmatamento retiraria 0,6% do PIB até o ano 2030

    MARCELO LEITE
    DE SÃO PAULO

    31/10/2017 02h00

    Diego Padgurschi/Folhapress
    PORTO SEGURO, BA, BRASIL 17-05-2017: ESPECIAL MATA ATLANTICA - Producao de eucaliptos avanca sobre a Mata Atlantica em Porto Seguro, regiao sul da Bahia. SOS Mata Atlantica alerta para o aumento do desmatamento. (Diego Padgurschi /Folhapress - COTIDIANO) *** EXCLUSIVO***
    Produção de eucaliptos avança sobre a Mata Atlântica na região sul da Bahia

    O custo de reduzir a zero o desmatamento no Brasil é muito baixo. Erradicar a derrubada de áreas de floresta amazônica, cerrado e mata atlântica –principais biomas brasileiros para a produção agropecuária– diminuiria em R$ 46,5 bilhões o PIB acumulado até 2030.

    A cifra está num estudo do Instituto Escolhas lançado nesta segunda-feira (30). Ela corresponde a R$ 3,1 bilhões anuais, menos de um terço do subsídio incluído no Plano Safra 2017/18 (R$ 10 bilhões).

    A grande questão, no entanto, é quanto custa –em emissões de carbono, recursos hídricos, biodiversidade– seguir desmatando como se faz no país todos os anos. Mas esta pergunta o relatório "Qual o Impacto do Desmatamento Zero no Brasil?" não responde.

    GANHOS AMBIENTAIS

    "O ganho ambiental é gigantesco, em genética e recursos naturais que se perdem [com o desmatamento]", afirma Joaquim Bento de Souza Ferreira Filho, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), responsável pela estimativa.

    Debate desmatamento zero

    "A dificuldade é quantificar. Se não tiver uma base muito consistente, [o cálculo] não vai ser aceito", explica. "Modelar e quantificar serviços ecossistêmicos é impossível, hoje. Emissões de carbono, OK. Mas qual o valor da biodiversidade?"

    O estudo do Instituto Escolhas limitou o foco ao impacto negativo sobre o PIB, sem dar atenção para os ganhos (com produtos florestais, por exemplo). Uma abordagem conservadora, que buscou reproduzir o ponto de vista do produtor rural, sobretudo o do pecuarista.

    A agropecuária se expandiu no país com a abertura de áreas de mata natural. Conter a devastação implica restringir essa atividade e pode reduzir sua produção –a não ser que se aumente a produtividade, como de resto já vem acontecendo.

    A modelagem do impacto no PIB partiu de dados obtidos com simulações sobre uso da terra produzidas por Gerd Sparovek, da Esalq, Vinicius Guidotti e Luis Fernando Guedes Pinto, ambos do instituto Imaflora.

    A partir dos quatro cenários definidos (veja infográfico), o trio gerou mapas e tabelas por Estado indicando, ano a ano, qual a área disponível para produção –cultivos anuais, gado bovino etc. Com menos terra disponível para expansão, o PIB cai.

    Muito pouco, no entanto: 0,62% em termos nacionais (a média de R$ 3,1 bilhões ao ano já mencionada). O agronegócio como um todo, incluindo insumos, serviços e indústrias associadas, representou 20% do PIB em 2016, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq).

    Debate desmatamento zero

    O PESO DO BOI

    Considerado só o produto da terra diretamente impactado pela redução no desmatamento, essa fatia cai para menos de 5%. Isolando a pecuária, a parcela se revela diminuta, 1,7% do PIB.

    Segundo Ferreira Filho, a pecuária sofre maior impacto porque as terras disponíveis, na medida em que escasseiam, tendem a ser ocupadas por atividades mais rentáveis. Toda a expansão do cultivo de cana após o Proálcool, mesmo em território paulista, se deu sobre antigas áreas de pastagem.

    Criar gado, em particular com a baixa produtividade da pecuária extensiva brasileira (grosso modo, uma cabeça por hectare), gera menos renda que commodities como a soja e o milho.

    Esse eventual prejuízo para pecuaristas pode ser revertido com algum investimento em eficiência, aponta o estudo do Instituto Escolhas. Com ganho anual de 0,29% na produtividade da pecuária de corte e de 0,13% na leiteira já seria possível reverter as perdas na produção desses dois ramos, indica a simulação de Ferreira Filho.

    Se é pequeno o impacto da redução do desmatamento no PIB nacional, em termos agregados, o mesmo não vale sob o prisma regional. Sofrerão mais as economias dos Estados em que o setor agropecuário tem maior participação e onde há bom estoque de florestas para derrubar.

    Os que têm mais a perder são Acre (-4,5% do PIB estadual), Mato Grosso (-3,2%) e Rondônia (-3%). Seria imprescindível criar políticas específicas para compensar a perda de emprego e renda nessas regiões, apontou o debate de lançamento do estudo no auditório do Insper.

    PREÇO ALTO A PAGAR

    Ainda no governo Dilma Rousseff (PT), o Planalto descartou a meta do desmatamento zero e se comprometeu apenas com eliminar o corte ilegal de florestas –ou seja, cumprir plenamente a lei só em 2030– como contribuição do Brasil para combater a mudança do clima.

    Michel Temer (PMDB) segue na mesma picada e comemora como vitória uma área desmatada de 6.624 km² na Amazônia em 2016/17, o equivalente a um terço do Estado de Sergipe –em um ano.

    A agropecuária nacional segue como o grande poluidor climático do país, gerando 74% de suas emissões de carbono. Quanto mais o Brasil demorar para reduzi-las, mais caro lhe custará cumprir as metas do Acordo de Paris.

    Editoria de arte/Folhapress
    Estudo desmatamento
    Editoria de arte/Folhapress
    Resultados desmatamento
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