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    Torturas em Abu Ghraib envolveram eletrocução e ataques de cachorro; leia trecho de livro

    da Folha Online

    27/01/2009 17h00

    Em 2004, uma série de fotografias das torturas e humilhações impostas a prisioneiros iraquianos de Abu Ghraib por soldados dos Estados Unidos vieram a público pela primeira vez na revista "The New Yorker" e no programa "60 Minutes" da rede CBS. Segundo a revista, os presos sofriam diversos tipos de abuso - de estupro a eletrocução e ataques de cachorro.

    Mais tarde, um relatório divulgado em 2008 pelos líderes da Comissão de Serviços Armados do Senado americano culpou os profissionais da cúpula do governo de George W. Bush --como o ex-secretário de Defesa, Donald Rumsfeld-- pelos abusos cometidos por tropas americanas nos interrogatórios em Abu Ghraib, no Iraque.

    O livro "Procedimento Operacional Padrão" (Companhia das Letras, 2008) retrata as torturas e o horror da intervenção norte-americana no Iraque e mostra como as decisões do governo Bush influenciaram o que aconteceu em Abu Ghraib.

    Leia abaixo o primeiro capítulo do livro.

    *

    Bagdá

    Outubro de 2002

    Divulgação
    Livro retrata as torturas da prisão de Abu Ghraib no Iraque
    Livro retrata as torturas feitas por soldados dos EUA em Abu Ghraib

    Num domingo pela manhã, o presidente mandou soltar todos os prisioneiros. Ninguém sabia por quê. Talvez nem ele próprio soubesse. O anúncio foi lido no rádio. O locutor disse que era a maneira de o presidente agradecer às pessoas que o haviam reeleito alguns dias antes em referendo nacional. Todos sabiam que a votação tinha sido de fachada - sem oposição, Saddam Hussein havia obtido cem por cento dos votos -, mesmo assim, a anistia concedida aos prisioneiros ("completa, ampla e definitiva" - exceto para sionistas e espiões americanos) foi recebida com grande animação nas ruas, com buzinaço e salvas de fuzil para o alto. Imediatamente, em todo o país, pessoas se aglomeravam diante dos portões das prisões, na esperança de rever alguém há muito desaparecido: um ladrão ou um intelectual, um militante democrata ou um estuprador.

    As prisões de Saddam eram as casas de máquinas do seu poder, fábricas de terror e de aniquilação. Por roubar uma galinha ou um xampu alguém poderia ficar preso durante anos. Para crimes contra o Estado - reais ou imaginários - não havia limite para a tortura. Quartas e domingos eram dias de enforcamento na prisão de Abu Ghraib, 32 km a oeste de Bagdá. Não raro, uma centena de pessoas por semana era pendurada pelo pescoço nos cadafalsos, e quando a superlotação dificultava a acomodação de novos prisioneiros, a casa de morte fazia hora extra.Abu Ghraib foi a maior e a mais notória das prisões de Saddam, sinônimo de inferno sobre a Terra, e foi ali, onde as extremidades dos subúrbios de Bagdá se encontram com a aridez plana do deserto, depois do aeroporto, que o anúncio da anistia causou o maior aglomerado espontâneo de pessoas de que se tinha memória no Iraque.

    Já no fim da manhã, parecia haver tantos iraquianos do lado de fora dos muros de Abu Ghraib quanto do lado de dentro - entre 10 mil e 15 mil pessoas, estimava-se -, e milhares mais continuavam a chegar de todas as direções. Ao meio-dia, a multidão já era estimada em pelo menos 50 mil, e quando chegou a esse ponto, como uma onda, arrebentou os portões da prisão e se derramou para dentro. De lá, em sua direção, vinha outra turba de milhares: os prisioneiros, machucados, sujos, chorando e agarrando colchonetes imundos, seus únicos pertences, procuravam a saída. Alguns, fracos demais para caminhar, emergiam pendurados nos ombros de seus companheiros de cela, enquanto outros, embora saudáveis, eram pisoteados até a morte no momento da libertação. Em meio ao pandemônio e à cacofonia, alguns guardas se juntaram ao sentimento frenético de libertação, arrancando tijolos dos muros das masmorras para soltar os que ainda estavam lá dentro e dançando alegremente com ex-detentos; outros, menos adaptáveis, continuaram batendo em presos até não haver mais nenhum à disposição. Soube-se até que houve quem aproveitasse a oportunidade para realizar algumas execuções finais.

    Desta forma, um sistema penal inteiro se desmantelou e cerca de 150 mil condenados foram soltos. Nada parecido havia acontecido antes em nenhum lugar do mundo. E naquele mesmo dia Saddam patrocinou casamentos em massa em todo o país. Centenas de casais contraíram matrimônio de uma só vez e, de novo, as rádios explicavam o acontecimento como uma comemoração
    pela reeleição do presidente. Houve mais buzinaço e mais tiros pelas ruas. O governo forneceu o enxoval das noivas dos pés à cabeça: vestido, véu, sapatos, bolsa, luvas. Elas só tiveram de devolver os vestidos.

    Prisioneiros, noivas, uma enorme festança, muita emoção desenfreada. Todos podiam ver, mas nem assim era fácil entender o que estava acontecendo. O que será que Saddam estava preparando?

    O presidente dos Estados Unidos ameaçava tomar o seu país. A ameaça era pessoal e implacável.Havia grande impaciência em Washington para começar de uma vez a guerra: "Para acabar com o Iraque" - esta era a frase. Afinal de contas, quem haveria de ficar de luto por Saddam, suas masmorras e câmaras de tortura? Ninguém - este era o argumento. Então, quando Saddam abriu Abu Ghraib, as reportagens diziam que ele estava se dando por vencido ou pelo menos demonstrando submissão, tentando parecer bonzinho; e que, sem dar um único tiro ou aportar sequer um soldado em solo iraquiano, havíamos feito com que ele abrisse mão de um dos mais sinistros instrumentos de seu regime. Vários jornalistas estrangeiros chegaram a comparar aquele domingo em Abu Ghraib à queda da Bastilha no desencadear da Revolução Francesa: o momento em que um povo assegura sua soberania e coloca um governante absolutista de volta sob seu controle. A analogia era otimista demais. Na realidade, o esvaziamento das prisões do Iraque foi apenas mais um capricho do tirano - não uma concessão, mas uma afirmação de poder.

    Em meio à louca profusão de impressões conflitantes derivadas de Abu Ghraib - mau cheiro nauseante, sujeira indescritível, o repentino estalar de tiros de pistola para acalmar a multidão, o choro desesperado de uma mãe que acabava de saber que seu filho havia sido executado, o olhar ensandecido de cativos libertados repentinamente -, talvez o espetáculo mais impressionante fosse o dos condenados que corriam e bradavam até ficarem roucos: "Nosso sangue, nossa alma, nós sacrificaremos por você, ó Saddam".

    "Procedimento Operacional Padrão"
    Autores: Philip Gourevitch e Errol Morris
    Editora: Companhia das Letras
    Páginas: 334
    Quanto: R$ 52,00
    Como comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha

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