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    Polêmico movimento turco tem braço no Brasil

    LUISA PESSOA
    DE SÃO PAULO

    15/03/2014 01h00

    Polêmico movimento civil que estaria na linha de frente da oposição ao primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, o Hizmet se espalha pelo mundo –incluindo o Brasil.

    Erdogan, de tendência islâmica moderada, tem acusado lideranças do Hizmet, de quem já foi aliado, de tramar um golpe de Estado contra seu governo.

    Membros do Hizmet negam a acusação. No entanto, as suspeitas mostram como o movimento ganhou força nos últimos anos.

    Hoje muitos analistas consideram o Hizmet (também conhecido como movimento Gülen) o maior e mais institucionalizado grupo civil islâmico turco e observam o crescimento de seus seguidores.

    Em São Paulo, o Hizmet administra o Centro Cultural Brasil-Turquia (CCBT) e uma escola no bairro de Santo Amaro.

    Criado no final da década de 1960 pelo imã e pregador Fethullah Gülen (1941-), o Hizmet, segundo seus membros, tem como principal objetivo promover a coexistência pacífica entre religiões e culturas, a democracia e a liberdade de pensamento por meio de organizações sem fins lucrativos, como centros culturais, escolas (incluindo universidades), jornais, canais de TV, hospitais e fundações.

    O "Zaman", o jornal de maior circulação na Turquia, por exemplo, é ligado ao movimento. Segundo o International Federation of Audit Bureaux of Circulations, a publicação teve uma tiragem diária de quase 900 mil exemplares em 2012 (número próximo ao do "New York Times", com um milhão de exemplares no mesmo período).

    Apesar disso, o Hizmet não possui uma estrutura formal que coordene a ação de seus membros, presentes por livre associação. Dessa forma, é quase impossível estimar o número de pessoas que hoje fazem parte do grupo, embora analistas constatem seu crescimento nos últimos anos.

    A socióloga Helen Ebaugh, no livro "The Gülen Movement: A Sociological Analysis of a Civic Movement Rooted in Moderate Islam", estima que de 10% a 15% da população turca (de 74 milhões) façam parte do Hizmet. Além disso, de 8 milhões a 10 milhões de pessoas fariam parte do movimento em outros países.

    Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress

    POLÊMICAS

    A opacidade organizacional e numérica do Hizmet leva algumas pessoas a considerá-lo uma organização religiosa semissecreta, com intenções políticas conspiratórias que fariam a Turquia retroceder em seu processo de modernização.

    No final de agosto de 2000, pouco depois de se autoexilar nos Estados Unidos, Gülen foi acusado por um promotor turco de organizar um movimento para derrubar o Estado secular estabelecido na Turquia desde 1923 e instaurar um governo teocrático. Em 2006, o caso foi indeferido pelo Tribunal de Segurança do Estado. Gülen permaneceu nos EUA e, em 2008, recebeu o visto de residência.

    Em um documento classificado como "confidencial" pela diplomacia americana, datado de dezembro de 2009 e disponibilizado pelo Wikileaks, é relatado que "muitos turcos acreditam que Gülen possui um objetivo mais profundo e possivelmente insidioso, inclusive alguns islamitas criticam a falta de transparência do grupo, o que, eles dizem, gera dúvidas sobre suas intenções".

    O mesmo documento menciona que há relatos de que seguidores do Gülen dominariam a Polícia Nacional Turca (PNT). "A afirmação de que a PNT seria controlada por Gülenistas é impossível de ser confirmada, mas ninguém com quem encontramos contestou essa informação."

    Ahmet Sik, jornalista investigativo, foi detido em 2011 poucos meses antes de lançar um livro sobre a crescente influência, a partir dos anos 1980, de seguidores do Hizmet no governo turco, principalmente na polícia. Segundo o Comitê para a Proteção de Jornalistas, a Turquia foi o país onde mais jornalistas estavam presos em 2013 (eram 40, de um total de 211 pelo mundo).

    A polícia alegava que Sik fazia parte de uma organização secreta ultra-nacionalista chamada Ergenekon, que teria como objetivo realizar um golpe militar no país. Sik ficou um ano detido. Um rascunho do seu livro, que seria titulado como "Imamin Ordusu" [O exército do imã], vazou na internet e foi baixado milhares de vezes em poucos dias.

    ALIANÇA ABALADA?

    A relação entre o Hizmet e o governo turco teria ficado abalada após Erdogan defender, em novembro de 2013, o fechamento das escolas preparatórias para o vestibular (dershanes), um dos principais braços de atuação do Hizmet na Turquia.

    Dentro da filosofia pregada por Gülen, as escolas têm papel central. A educação formal seria um antídoto contra a ignorância, a pobreza e a violência. Segundo o jornal "Zaman", existem mais de 3.000 dershanes espalhadas por toda a Turquia.

    Apesar de alguns jornais reportarem que elas são a principal fonte de renda do Hizmet, seguidores do movimento no Brasil afirmam que essas instituições não têm finalidade lucrativa e que todo dinheiro angariado por elas costuma ser reinvestido nas próprias escolas.

    No fim de fevereiro, em uma sessão conturbada, o Parlamento turco aprovou a lei que obriga o fechamento das dershanes até setembro de 2015, por 226 votos a 22.

    DENÚNCIAS DE CORRUPÇÃO

    Em dezembro de 2013, um mês após Erdogan defender o fechamento das dershanes, uma investigação policial revelou uma rede de corrupção que atingiu o diretor do Banco Central do turco e filhos de ministros do premiê.

    Aliados do governo turco sugerem que o Hizmet está por trás dessas investigações. Para eles, o "timing" da denúncia, próximo às eleições municipais e presidenciais no país, é suspeito.

    Desde então, centenas de policiais e de promotores ligados ao caso foram destituídos ou transferidos pelo Executivo.

    Membros do Hizmet no Brasil negam veementemente qualquer intenção golpista na Turquia e dizem que o movimento tem trajetória legal, independente, transparente e desinteressada na associação com partidos políticos.

    "Como na Turquia não existe um partido forte de oposição, Erdogan coloca o Hizmet como concorrente político. Mas o movimento defende projetos, não partidos", diz Bayran Ozturk, que trabalha no Brasil como correspondente e colunista do "Zaman".

    Em entrevista ao "Wall Street Journal", ao ser questionado sobre a quebra da "aliança" entre o Hizmet e o partido de Erdogan, o AKP, nos últimos meses, Gülen disse: "Se formos falar de aliança, era de valores compartilhados sobre democracia, direitos humanos universais e liberdades -nunca para partidos políticos ou candidatos".

    "Como movimento civil, nunca defendemos o apoio a um partido ou candidato. Mas participantes do Hizmet, individualmente, encontraram em alguns partidos e candidatos ressonância para suas crenças e valores, dando-lhes apoio."

    Recentemente, Erdogan disse que o movimento criado por Gülen está há 40 anos tentando se infiltrar no Estado e que seu governo tomará todos os passos necessários na "guerra" contra "traidores" e "inimigos" da "Nova Turquia".

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