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    Relatório do Senado dos EUA acusa CIA de torturas brutais e não efetivas

    GIULIANA VALLONE
    DE NOVA YORK

    09/12/2014 15h20

    As técnicas utilizadas por agentes da CIA (agência de inteligência dos EUA) para obter informações sobre a Al-Qaeda nos anos que se seguiram aos atentados do 11 de Setembro foram mais brutais e menos efetivas do que a agência admitiu para a Casa Branca, o Pentágono ou o Congresso –ou seja, as autoridades foram enganadas pela agência.

    Esta é a conclusão de um relatório do Comitê de Inteligência do Senado dos EUA divulgado nesta terça-feira (9).

    O documento traz detalhes das torturas a que foram submetidos detentos em prisões clandestinas pelo mundo, como espancamentos, simulações de afogamento, privação do sono por mais de uma semana e até alimentação retal.

    O relatório, que levou cinco anos para ser feito, tem mais de 6.000 páginas, das quais 524 foram divulgadas agora.

    Editoria de Arte/Folhapress

    Entre os métodos descritos estão ainda banhos de gelo, isolamento, torturas psicológicas e ameaças de morte. Alguns dos presos chegaram a ser deixados durante dias dentro de compartimentos que lembravam um caixão.

    Ao menos cinco detentos foram submetidos a procedimentos de reidratação ou alimentação retal sem necessidade médica, técnica classificada pelo chefe de interrogatórios da CIA como forma de impor "controle total sobre o prisioneiro".

    Ao todo, diz o texto, 119 prisioneiros passaram pelas instalações secretas da CIA a partir de 2002. Destes, 26 foram detidos sem se enquadrar nos critérios do "Memorando de Notificação", assinado pelo presidente George W. Bush em 2001, que autorizava a agência a capturar indivíduos envolvidos com atividades terroristas.

    "Esses presos incluíam um homem com deficiência mental, cuja detenção foi usada com o único propósito de fazer com que um membro de sua família fornecesse informações", afirma o relatório.

    INFORMAÇÕES

    Os registros da CIA mostram que 39 prisioneiros foram torturados. Diante dos abusos, muitos deles deram informações falsas aos agentes, levando a operações fracassadas. Sete não revelaram nenhuma informação.

    Ainda de acordo com o relatório, o comitê reviu os 20 principais exemplos de operações bem-sucedidas contra o terrorismo, usados pela agência para justificar os interrogatórios e descobriu que eles "estavam errados em aspectos fundamentais".

    Apesar disso, o alto escalão da CIA ressaltava a importância do programa para as operações, tanto em relatórios confidenciais para o governo quanto em discursos públicos. Um exemplo disso é a operação que levou à morte de Osama bin Laden, em maio de 2011.

    Os registros mostram que a informação mais importante para o caso foi dada por um prisioneiro antes que ele fosse submetido a tortura.

    Saul Loeb - 14.ago.2008/AFP
    Homem caminha sobre logo da CIA na sede da agência de inteligência dos EUA na Virgínia
    Homem caminha sobre logo da CIA na sede da agência de inteligência dos EUA na Virgínia

    RESPOSTA DA CIA

    Após a divulgação dos documentos, a CIA reagiu, em comunicado, afirmando que o relatório conta "parte da história", mas que há "falhas demais para que seja considerado como versão oficial sobre o programa".

    Embora tenha admitido erros nas detenções e interrogatórios, a agência afirmou que "devemos questionar um relatório que impugna a integridade de tantos oficiais da CIA quando sugere que os relatórios da agência foram propositalmente deturpados em um esforço calculado para manipular."

    O presidente Barack Obama afirmou que o relatório reforça sua visão de que "esses métodos não só são inconsistentes com os nossos valores como nação, como também não serviram aos nossos esforços de contraterrorismo".

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