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    Crimeia perde turistas após anexação pela Rússia

    NEIL MacFARQUHAR
    DO "THE NEW YORK TIMES"
    EM SAKI, CRIMEIA

    29/08/2015 02h00

    Tamara Tsetlayana estava em uma faixa estreita de praia cinzenta, lavando-se da lama preta supostamente terapêutica que atrai visitantes a este lago salgado há mais de um século. O feio litoral talvez fosse menos atraente que destinos de férias anteriores na Turquia e na Europa, disse, mas o patriotismo orientou sua opção neste verão.

    "Com todas essas sanções, decidimos apoiar o que é nosso", disse Tsetlayana, manifestando um sentimento que o Kremlin esperava que fosse inspirar uma disparada de turistas russos à península da Crimeia, no mar Negro, depois que a Rússia anexou a Ucrânia no ano passado.

    Alexander Aksakov/Getty Images/The New York Times
    Antes de a Rússia anexar a Crimeia, 6 milhões de turistas visitaram a península; neste ano, foram 600 mil
    Em 2013, antes de a Rússia anexar a Crimeia, 6 milhões viajaram para lá; neste ano, foram 600 mil

    No entanto, esse afluxo de turistas nunca se materializou -e não por falta de incentivo. Trabalhadores das companhias estatais receberam pacotes de viagem subsidiados para lá, e empregados dos serviços de segurança foram proibidos de tirar férias no exterior.

    O premiê da Crimeia, Sergey Aksyonov, chegou a dizer a um repórter ocidental que milhões de turistas russos realmente viriam. "Tudo está certo com a temporada turística", disse. "Os russos com mentalidade patriótica deram atenção à Crimeia."

    Porém, os números contam outra história, bem abaixo dos 6 milhões de visitantes anuais que vieram em 2013, antes da anexação da península pela Rússia.

    As pessoas comuns que vivem do turismo -guias, motoristas de táxi, donos de pousadas- descreveram a temporada como anêmica. Um grupo de aldeões na "Riviera da Crimeia", no sul, escreveu uma carta aberta a Putin dizendo que os visitantes neste ano representaram apenas 10% do número de 2013, lamentando que enfrentarão o desemprego e a fome. "As pessoas não sabem como vão sobreviver no inverno", disse a carta.

    James Hill/The New York Times
    Praia perto de Livadia; moradores da península da Crimeia dizem que russos preferem resorts
    Praia perto de Livadia; moradores da península da Crimeia dizem que russos preferem resorts

    Moradores de toda a Crimeia citaram motivos para esse problema, incluindo a fraqueza econômica em toda a Rússia, problemas de transporte e a falta de atrações. Cerca de 33 mil pessoas costumavam chegar todos os dias de trem para passar as férias ali, mas hoje a Ucrânia bloqueia a ferrovia. O serviço de balsa é limitado.

    Aksyonov disse que houve um enorme salto no número de aviões de passageiros, com 106 chegando por dia, em vez de apenas 12, trazendo aproximadamente 15 mil pessoas por dia. Um esforço de reconstrução no aeroporto de Simferopol mais que duplicou o espaço de terminais nos últimos seis meses. Alguns aviões circulam durante 30 minutos esperando uma janela para pousar.

    Muitos moradores da Crimeia notaram que o turismo está mudando. Os ucranianos ficam felizes em alugar um quarto a uma distância razoável da praia e em cozinhar as próprias refeições. Os russos preferem pacotes em hotéis.

    "Muita gente na Rússia se acostumou com os resorts elegantes na Turquia e no Egito, com seus pacotes 'all inclusive'", disse Vera Basava, 67, na aldeia de Gurzuf.

    Muitos moradores da Crimeia que trabalham no setor de viagens esperam que o mercado se recupere quando a ponte de bilhões de dólares ligando a península ao continente for construída. No entanto, isso vai demorar pelo menos três anos.

    Uma agente de viagens em Ialta mantém fotos em seu computador dos enormes navios de cruzeiro estrangeiros que costumavam parar aqui, fantasmas de outra era, antes das sanções ocidentais.

    "Pensamos que a Rússia encheria este lugar com seminários e conferências, mas até agora nada", disse com um suspiro, acrescentando que a Crimeia havia se transformado em um "hospício". Ela preferiu não dar seu nome por medo de perder negócios com o governo.

    Colaborou NIKOLAY KHALIP

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