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    Com ataques, Rússia delimita o seu espaço aéreo no conflito na Síria

    IGOR GIELOW
    DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

    06/10/2015 02h00

    O envolvimento russo na guerra civil da Síria escalou de forma dramática desde o último fim de semana. Moscou começou a delimitar o que na prática se tornará o seu espaço aéreo sobre o conflagrado país árabe.

    Além disso, um oficial graduado do Kremlin insinuou que mercenários pró-Rússia podem engrossar o Exército do ditador Bashar al-Assad, ainda que o governo de Vladimir Putin negue o uso de suas tropas no solo.

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    Segundo a Folha apurou, o comando da Força Aérea da Rússia expressou preocupação de que sua nova base estabelecida em Latakia, na costa mediterrânea que é o coração do grupo de Assad, seja alvo de ataques "acidentais" —ressaltando as aspas— por parte de Israel.

    Com isso, as forças estacionadas na base foram colocadas em "prontidão máxima" no fim de semana. Há por lá cerca de 50 aeronaves, sendo que entre 6 e 12 Sukhoi Su-34, o mais moderno caça-bombardeiro russo, que faz sua estreia oficial em combate.

    Na sexta (2), foi relatado por observadores independentes um suposto primeiro encontro entre forças russas e israelenses com quatro F-15 de Tel Aviv sendo interceptados por seis caças Sukhoi Su-30 perto da costa de Latakia.

    Nenhum dos dois governos confirmou o incidente.

    Há ao menos quatro modernos Su-30 em Latakia, dando apoio a aviões de ataque a solo —de antigos aparelhos soviéticos modernizados como os Sukhoi Su-25 ao novíssimo Su-34. Aviões-robôs fazem a vigilância e ajudam a selecionar alvos.

    Desde o começo da guerra, em 2011, Israel bombardeia alvos sírios de seu interesse, destruindo linhas de suprimento do Irã para o grupo xiita libanês Hizbullah.

    Agora, as operações na porção do território sob proteção russa parecem ameaçadas, algo que não aconteceu quando o Ocidente iniciou sua campanha contra a facção Estado Islâmico, em 2014.

    Outro sinal da criação desse espaço aéreo russo na Síria ocorreu no sábado, quando um caça de Moscou foi interceptado por dois F-16 turcos após cruzar a fronteira.

    A Rússia falou com Ancara e alegou um "erro de navegação", mas a Turquia sabe que o incidente foi um teste de sua capacidade de reação, considerado "inaceitável" pela Otan (aliança militar liderada pelos EUA).

    A Turquia integra a Otan e participa de ataques contra o Estado Islâmico, que domina boa parte do leste sírio e também está sendo atacada pelos russos.

    De domingo para segunda (5), foram 25 missões russas contra nove alvos do EI, segundo Moscou, que busca mostrar que também está atrás dos extremistas, além de dar apoio formal ao governo Assad e atacar rebeldes apoiados pelos EUA e Estados do Golfo Pérsico.

    3.out.2015/Reuters
    Fumaça sobe de local atingido por ataque russo em Raqqa, Síria
    Fumaça sobe de local atingido por ataque russo em Raqqa, Síria

    'VOLUNTÁRIOS'

    Esse suporte poderá vir por forma também de tropas irregulares, segundo disse à imprensa russa o almirante Vladimir Komoiedov, chefe do comitê das Forças Armadas no Parlamento local. Há em Latakia talvez 500 soldados ou mais, mas por ora estão lá para proteger a base.

    O militar sugeriu que "voluntários não podem ser parados", referindo-se aos mercenários pró-Rússia que ajudaram na anexação da Crimeia em 2014 e hoje operam no leste da Ucrânia.

    Sinal semelhante foi dado pelo líder tchetcheno, Ramzan Kadirov, aliado visceral de Putin. Com isso, temores de que as enfraquecidas tropas de Assad recebam reforços já se fizeram sentir entre os rebeldes, que emitiram um raro comunicado conjunto prometendo combater o que chamam de "invasão russa".

    A ação de Putin visa fortalecer Assad e achar uma solução para o impasse da guerra civil, mesmo que ela inclua a saída do ditador do poder.

    Com isso, Moscou teria mais cacife para negociar o fim das sanções ocidentais por sua ação na Ucrânia e, de quebra, estabelecer uma base permanente de operações na região do Mediterrâneo.

    Os desdobramentos pegaram o Ocidente de surpresa. Até aqui, a retórica dos EUA e de seus aliados foi a de denunciar a escalada, mas há pouco a fazer para impor limites a Moscou, exceto que alguém esteja interessado na Terceira Guerra Mundial.

    Com agências internacionais

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