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    'Província rebelde', Córdoba é foco de oposição a Cristina

    SYLVIA COLOMBO
    ENVIADA ESPECIAL A CÓRDOBA

    08/11/2015 02h29

    Dois atos complicaram o trânsito de Córdoba (capital da província homônima) na última sexta (30) –exemplos da alta temperatura política da província, a segunda mais populosa da Argentina.

    Enquanto uma passeata em bairro de classe média pedia mais segurança, um comício estudantil no centro celebrou os 32 anos da eleição de Raúl Alfonsín, que encerrou a ditadura militar (1976-83).

    Em ambos, o segundo turno presidencial, no próximo dia 22, esteve presente, por meio de cartazes e da ação de militantes do governista Daniel Scioli (FPV) e do opositor Mauricio Macri (Mudemos).

    DIEGO LIMA - 22.out.2015/AFP
    Apoiadores do oposicionista Mauricio Macri participam de comício em Córdoba antes do primeiro turno
    Apoiadores do oposicionista Mauricio Macri participam de comício em Córdoba antes do primeiro turno

    "Os cordobeses deram um voto de protesto no primeiro turno e agora querem estar certos de que uma mudança será mesmo positiva", diz Raúl Angeli, estudante de direito que emprestava o microfone para transeuntes darem sua opinião diante de um palanque montado numa das sedes da histórica Universidade de Córdoba, fundada em 1613, uma das mais antigas da América Latina.

    "O que é a democracia para a senhora?", perguntou o rapaz a uma mulher que passava por ali. Ela segurou o microfone com as duas mãos e disse: "Democracia é liberdade. E alternância de poder". Foi aplaudida pelos jovens.

    Córdoba foi um dos centros eleitorais que deram o mais duro golpe em Scioli. No último dia 25, a aliança opositora obteve lá 53% dos votos. Só na capital da província, Macri obteve 60% dos votos.

    Córdoba ajuda a explicar a diferença menor que a esperada, no resultado geral, entre o governista vencedor do primeiro turno (37%) e o candidato do Mudemos (34%).

    Raio-x Córdoba

    "Esses números confirmam que o kirchnerismo nunca conseguiu se fixar em Córdoba. É uma província que se divide entre o conservadorismo católico e uma burguesia liberal laica. O peronismo que tem êxito aí é o sindical, mais tradicional, o que apela a uma espécie de 'orgulho cordobês', contrapondo-se à autoridade histórica do porto de Buenos Aires", explica o jornalista Ceferino Reato, autor de um livro sobre a agitação política em Córdoba nos anos 1970 ("Viva la Sangre", ed. Sudamericana).

    Também coração da indústria automobilística do país, Córdoba vem sofrendo em razão da queda de quase 40% no comércio com o Brasil, e protestos contra demissões em massa são cena comum na capital. Estão na província fábricas da Renault, Fiat e Volkswagen, entre outras.

    "Há muita bronca por causa das demissões, e o governo deveria estar fazendo mais para diminuir nossa 'Brasildependência', nesse momento de crise. Os trabalhadores de Córdoba estão sofrendo muito com a desaceleração do Brasil", afirma o sindicalista Rubén Urbano, da UOM (União de Trabalhadores Metalúrgicos).

    CONTRA CRISTINA

    Córdoba é governada desde 2011 por um peronista dissidente, José Manuel de la Sota, que encerra agora seu terceiro período no cargo. Ex-embaixador no Brasil e amigo do ex-presidente Lula, De la Sota, 66, lançou-se como pré-candidato à Presidência, mas foi derrotado nas primárias da Frente Renovadora pelo também peronista dissidente Sergio Massa.

    Gabo Morales - 27.nov.2012/Folhapress
    José Manuel de la Sota, governador de Córdoba, durante a entrega de um prêmio em São Paulo em 2012
    José Manuel de la Sota, governador de Córdoba, durante a entrega de um prêmio em São Paulo em 2012

    Sua campanha baseou-se no pedido de um voto de protesto contra Cristina Kirchner. "Acompanhem nossa rebeldia, animem-se a votar diferente", clamava em seus comícios.

    "De la Sota é visto como um caudilho peronista conservador e populista, apelou muito em sua campanha ao patriotismo local", diz à Folha o candidato a deputado Nestor Moccia (Progresistas).

    O fato de De la Sota ter ficado de fora nas primárias nacionais, porém, levou a rebeldia dos cordobeses mais adiante. Muitos preferiram não seguir o governador em seu apoio formal a Sérgio Massa e votaram em Macri.

    Nem o candidato do Mudemos esperava tanto. "Quando vi os números de Córdoba, quase morri", declarou Macri na noite do dia 25 de outubro.

    Para o segundo turno, porém, o opositor tem dificuldades de obter o apoio formal de De la Sota. O governador não se deixou seduzir pela possibilidade de ser chanceler caso Macri vença. Mais, vem fazendo reiteradas críticas às medidas econômicas que o Mudemos propõe, como deixar que o dólar seja comandado pelo mercado.

    Na última quinta-feira (5), De La Sota e o partido Justicialista cordobês liberaram seus eleitores a votarem em quem quisessem no próximo dia 22.

    Já a coligação governista Frente para a Vitória corre contra o tempo para tentar resgatar votos na província, mas não vem sendo fácil. Das primárias ao segundo turno, Scioli conseguiu aumentar sua votação em apenas dois pontos.

    Sem o apoio formal do Partido Justicialista (peronista) local, Scioli tenta atrair não apenas os eleitores cordobeses que votaram em Massa no primeiro turno, mas também membros da UCR (União Cívica Radical) cordobesa. O partido integra formalmente a coalizão Mudemos, mas um setor mais identificado com a centro-esquerda, dentro da agrupação, não apoia Macri.

    Na última semana, membros da campanha da FPV se encontraram com lideranças "radicalistas" locais, na tentativa de esvaziar a base de apoio de Macri.

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