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    paris sob ataque

    EI usa franquias autônomas para espalhar terror, diz escritor sírio

    PATRÍCIA CAMPOS MELLO
    DE SÃO PAULO

    23/11/2015 02h00 - Atualizado às 11h59

    O Estado Islâmico expande suas ações terroristas no mundo usando "franquias" que não custam nem um centavo à facção e não contam com envolvimento direto da "matriz". É assim que se multiplicam as células terroristas ligadas ao EI, como a que idealizou e executou os ataques em Paris no dia 13, e por isso é tão difícil controlar a facção.

    "[O líder Abu Bakr al] Baghdadi segue o mote 'Nizam La Tanzim', que significa 'sistema, não uma organização'", diz o historiador sírio Sami Moubayed, considerado um dos maiores especialistas em Estado Islâmico.

    Arquivo Pessoal
    Sami Moubayed, historiador sírio que estuda a facção terrorista Estado Islâmico
    Sami Moubayed, historiador sírio que estuda a facção terrorista Estado Islâmico

    "Para o EI, todos os alvos são válidos, todos os países são legítimos e não é necessário esperar por ordens."

    Autor do recém-lançado "Under the Black Flag: at the Frontier of the New Jihad" (Sob a Bandeira Negra: na Fronteira da Nova Jihad, em tradução livre), Moubayed passou um ano entrevistando integrantes do EI e moradores das cidades dominadas pela facção na Síria e no Iraque.

    Ele concedeu entrevista de Damasco, onde vive até hoje, apesar da guerra síria, que já matou 250 mil pessoas.

    *

    Folha - Qual é o objetivo do EI?

    Sami Moubayed - O EI é uma facção terrorista que "sequestrou" a religião e afirma falar em nome dos sunitas do islã. Eu sou um muçulmano sunita, e o islã não tem relação com o EI, que é formado por picaretas que se alimentam da ignorância das pessoas e recrutam miseráveis. O sucesso deles é impressionante.

    Quando o EI surgiu, muitos achavam que seria um fenômeno passageiro. Percebi que a organização ia durar muito. Eles têm dinheiro, poder, apoio logístico, e um território fértil onde não existe nenhum governo oficial.

    Baghdadi, ou califa Ibrahim, como ele insiste em ser chamado, quer ser reconhecido como um autêntico chefe de Estado, um presidente de todos os verdadeiros muçulmanos sunitas. Atualmente, ele comanda cerca de 30 mil combatentes.

    Oficialmente, o califa é sucessor do profeta Maomé e seus subordinados juram lealdade a ele. A base de poder de Baghdadi não se ampara apenas no medo ou no dinheiro que distribui para "comprar" seus seguidores.

    Ele realmente acredita que é o califa do islã e muitas pessoas creem nele. Sua reivindicação não veio do nada. Há décadas os muçulmanos mais conservadores anseiam por um califado.

    Que tipo de doutrina eles seguem?

    Eles estão distorcendo o islã; o que eu conheço é puro. Matar qualquer pessoa é haram —proibido pelo islã. Só conseguiremos derrotar o EI com a promoção do verdadeiro islã. Armas e aviões russos e americanos não vão funcionar.

    Eles podem até conseguir eliminar o EI de um lugar, mas a facção é mais uma ideologia do que qualquer outra coisa. É preciso combater o EI com uma contraideologia, que precisa ser islâmica, não secular.

    O EI controla as células terroristas na Europa como a que concebeu os ataques de Paris?

    Não. O mote do EI é "Nizam La Tanzim", que significa "um sistema, não uma organização". Essa era a teoria do líder extremista Abu Musab al-Souri.

    Para o EI, todos os alvos são válidos, todos os países são legítimos e não é necessário esperar por ordens. Baghdadi nunca fez nada pelos radicais do Sinai, de Gaza, Nigéria e Líbia que declararam lealdade e nunca mandou combatentes ou dinheiro, só especialistas militares como no Egito, por exemplo.

    Ele empresta o nome, mas não se envolve diretamente nas atividades, criando franquias do EI sem gastar um centavo. Isso dificulta o combate à facção.

    A coalizão conseguirá deter o EI ao bombardear a infraestrutura de petróleo da facção, ou isso vai prejudicar apenas as populações civis que dependem do combustível na Síria e no Iraque?

    Não existe guerra limpa. No campo de batalha, é impossível dizer –este aqui é terrorista, ou este aqui é civil. É óbvio que sírios inocentes foram mortos por ataques internacionais contra o EI.

    A facção está entranhada em áreas civis e os usa como escudo humano. A coalizão pode até conseguir matar os combatentes e destruir as armas do EI, mas não vai erradicar sua ideologia.

    A ideologia permitiu à facção criar um "Estado", com uma capital, um exército, uma polícia, serviço de inteligência, currículo escolar, hino, e cofres cheios de dinheiro do petróleo.

    Já se espalhou, saindo de seu centro na Síria e Iraque e chegando até Nigéria, Egito, Líbia, Líbano e Palestina. Mais recentemente, atingiu Paris, uma indicação clara de que os bombardeios da Rússia e dos EUA não têm funcionado.

    A Arábia Saudita se mantém como um país-chave para a expansão do fundamentalismo islâmico, ao financiar o wahhabismo ao redor do mundo. Como os EUA e a coalizão deveriam lidar com o país?

    Os sauditas promovem há muito tempo uma vertente wahhabista do islã salafista, que foi o elemento central do pensamento jihadista, primeiro para a Al Qaeda e agora para o EI.

    No longo reinado do rei Fahd, a Arábia Saudita financiou 210 centros islâmicos no mundo, 1.500 mesquitas, 202 faculdades e 2.000 escolas. Em todas elas, havia professores wahhabistas e livros que seguem a teoria.

    Seguindo a doutrina, cerca de 35 mil a 40 mil sauditas se juntaram à jihad no Afeganistão no fim dos anos 80. Não sei se a coalizão pode fazer algo sobre isso, por várias razões políticas e estratégicas.

    A Arábia Saudita tem um relacionamento histórico com os EUA, que vem desde ajuda na luta contra o comunismo durante a Guerra Fria até auxílio para combater o aiatolá Khomeini nos anos 80 (no Irã).

    Agora, os americanos estão encontrando um novo amigo, o Irã. Mas não sei se substituir um tipo de islâmico radical por outro vai ajudar.

    O maior envolvimento dos russos na guerra síria pode virar o jogo?

    Essa escalada russa assusta o inimigo. Mas não acho que os russos estejam aqui para vencer militarmente. Eles querem apenas mudar a dinâmica e beneficiar seus aliados em Damasco, para forçar todo mundo a se sentar à mesa de negociação e chegar a uma solução favorável à Rússia.

    Como se explica o enorme crescimento no número de combatentes do EI, que hoje passam de 35 mil?

    Pobreza, ignorância, medo e dinheiro. Alguns se juntam ao EI porque ele paga bem. Outros, porque acreditam que o EI os protege de outras facções. Alguns estão convencidos e acreditam na doutrina do EI. E outros simplesmente não têm opção, são forçados a se juntar a Baghdadi.

    A derrubada de Saddam Hussein e a opressão dos sunitas no Iraque foram os principais motivos para o surgimento do Estado Islâmico?

    O EI começou como Estado Islâmico do Iraque (ISI) depois da ocupação do país pelos EUA, em 2003. Seus combatentes foram para a guerrilha no Iraque juntamente com ex-integrantes do partido Baath, de Saddam Hussein. Mas eles não iniciaram a chamada insurgência sunita no Iraque, apenas se juntaram a ela.

    Por serem organizados, poderosos e bem treinados, se sobrepuseram à insurgência e a incorporaram. Mas não podemos atribuir o EI a 2003-04. Extremistas já estavam lá.

    Se eu fosse citar um evento histórico que levou a esse capítulo horrível de nossas vidas, seria a resposta americana à invasão do Afeganistão pela União Soviética em 1979. Foi aí que nasceu a ideia de treinar jihadistas e enviá-los para a batalha.

    Como o senhor conseguiu entrevistar integrantes da facção e pessoas que moram nas cidades dominadas pelo EI?

    Entrevistei as pessoas que vivem no território do EI, que são homens e mulheres comuns. Já as entrevistas com os integrantes do EI foram conduzidas por pessoas que vivem e trabalham em Deir ez-Zour, Raqqa [ambas na Síria] e Mossul [no Iraque], e atuaram como meus representantes.

    Eles ainda moram lá, e seus nomes não podem ser revelados por segurança —deles e minha. Não foi uma tarefa fácil. Se fossem descobertos, poderiam ser mortos e eu também. Passei um ano fazendo as entrevistas e pesquisas no Iraque e na Síria.

    *

    RAIO-X
    SAMI MOUBAYED, 37

    CARREIRA

    Historiador e pesquisador do Centro de Estudos Sírios na St Andrews University, Escócia; membro do conselho da Universidade de Kalamoon, Síria. Foi editor-chefe da revista síria Forward Magazine

    BIBLIOGRAFIA

    "Damascus Between Democracy and Dictatorship" (University Press 2000)

    "Syria and the USA" (IB Tauris, 2012)

    Edição impressa
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