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    Obama chega a Cuba em visita histórica que sela reaproximação

    MARCELO NINIO
    ENVIADO ESPECIAL A HAVANA

    20/03/2016 15h57

    Sob forte chuva e um intenso esquema de segurança que esvaziou várias ruas de Havana, Barack Obama chegou na tarde deste domingo (20) a Cuba para a primeira visita um presidente dos Estados Unidos à ilha em 88 anos.

    Acompanhado da mulher, Michelle, das filhas Malia e Sasha, e da sogra, Marian, Obama deu início a uma agenda preparada para abordar dos assuntos mais espinhosos, como direitos humanos, aos mais leves, incluindo um jogo de beisebol, paixão nacional de ambos os países.

    A visita de três dias é o ponto alto do processo de reaproximação que começou em dezembro de 2014, e que pôs fim a 53 anos de rompimento diplomático e incessante hostilidade.

    "Esta é uma visita histórica, e é uma oportunidade histórica de nos envolvermos com o povo cubano", disse Obama a funcionários da embaixada americana, reaberta no país em agosto.

    O encontro com a equipe ocorreu no hotel Melia Habana, logo após Obama deixar o aeroporto, onde foi recebido pelo ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez. De lá, ele e a família visitaram, com guarda-chuvas, Havana Velha, área turística da capital. Dezenas de cubanos que estavam na região aplaudiram e gritaram o nome de Obama.

    "Não pensei que viveria o suficiente para testemunhar este momento", disse o estivador aposentado Pascoal Rivas, 86, que nasceu dois anos após a visita de Calvin Coolidge, a última de um presidente norte americano a Cuba.

    Num contraste com a visita de Coolidge, que em 1928 chegou a Cuba em um navio de guerra, Obama fez tudo para mostrar logo de cara o lado amistoso de seu país.

    "Que bolá, Cuba?", postou o presidente numa rede social ao chegar, usando a gíria cubana para "tudo bem?".

    Obama

    Poucas horas antes da chegada do americano, confronto, dança e batucada se misturaram nas ruas de Havana.

    Como fazem toda semana, ativistas do grupo opositor Damas de Branco organizaram uma marcha contra a falta de liberdades no país. O protesto transcorreu sem grandes incidentes até que os opositores foram confrontados por uma manifestação muito maior de defensores do regime.

    Em poucos minutos, dezenas de policiais cercaram os dissidentes e detiveram cerca de 50, num lembrete de que a esperança de uma nova era para os cubanos é cercada de grande inquietação política.

    DISSIDENTES

    Entre os compromissos de Obama, um dos mais sensíveis será o encontro com representantes da sociedade civil na terça (22), incluindo dissidentes. Vários dos ativistas que foram convidados pela Casa Branca estavam na manifestação que terminou em tumulto e prisão no domingo.

    Antes da ação da polícia, um dos opositores convidados para se reunir com Obama, Antonio González-Rodilles, disse à Folha que a única forma de conduzir o país à democracia é mudar o regime.

    Marlene Bergamo/Folhapress
    O dissidente Antonio González-Rodilles é detido durante protesto em bairro de Havana
    O dissidente Antonio González-Rodilles é detido durante protesto em bairro de Havana

    "Não há escapatória. Caso contrário continuaremos andando em círculos", afirmou, acrescentando que é impossível uma transição enquanto a família Castro estiver no poder. "Eles estão nos empurrando para a direção contrária. Preparam a transferência de poder dentro da família, como uma dinastia. O próximo é o filho de Raúl, Alejandro."

    Após a detenção dos dissidentes, a manifestação pró-regime virou um carnaval, com bailarinos, batucada e dança, enquanto os participantes gritavam palavras de ordem a favor da Revolução Cubana e de Fidel Castro.

    Obama chega acompanhado de uma enorme delegação, estimada entre 800 e 1.200 integrantes, incluindo presidentes de empresas e cerca de 40 parlamentares.

    Além de conquistar o coração dos cubanos, o presidente tem o objetivo de mostrar aos norte-americanos os benefícios da normalização e tornar o processo irreversível, aumentando a pressão sobre o Congresso para acabar com o embargo econômico a Cuba, em vigor desde 1960.

    DISCURSO HISTÓRICO

    Na segunda (21), o principal evento marcado é uma reunião com o ditador Raúl Castro, com quem Obama deverá debater projetos de cooperação bilateral e assuntos regionais, como o processo de paz entre o governo da Colômbia e guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), mediado por Cuba.

    Na terça, último dia da viagem, o presidente americano deverá fazer um discurso televisionado ao povo cubano a partir do Gran Teatro Alicia Alonso, antes de assistir a um jogo de beisebol entre a equipe americana Tampa Bay Rays e a seleção cubana. Logo depois, Obama e família embarcam para a Argentina, onde se encontrarão com o presidente Maurício Macri.

    O discurso de terça, segundo seu assessor, Ben Rhodes, será um "momento muito importante da visita" e uma "oportunidade para Obama descrever o curso em que estamos, revisar a complicada história entre nossos países e falar da razão por trás dos passos que tomamos", assim como para "olhar para o futuro, projetar sua visão de como os Estados Unidos e Cuba podem trabalhar juntos".

    "Vemos esse discurso como um momento único na história entre os dois países", disse Rhodes à imprensa. "Será a primeira visita de um presidente americano a Cuba em quase 90 anos, e certamente o primeiro discurso de um presidente americano em solo cubano em quase 90 anos."

    Ainda segundo Rhodes, é provável que as autoridades cubanas transmitam o discurso de Obama pela TV, assim como fizeram em dezembro, quando houve um pronunciamento do presidente americano sobre a reaproximação entre os dois países.

    Obama em Cuba

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