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    Trump precisa dizer que violência não é o caminho, diz Jesse Jackson

    ISABEL FLECK
    DE SÃO PAULO

    03/12/2016 02h00

    Marlene Bergamo/Folhapress
    Reverendo Jesse Jackson concede entrevista à Folha, em visita a São Paulo

    Os quase dois milhões de votos populares a mais que a democrata Hillary Clinton obteve nas eleições em que foi derrotada são, para o reverendo americano Jesse Jackson, a prova definitiva de que o Colégio Eleitoral dos EUA "contradiz a democracia".

    O ativista, que militou ao lado de Martin Luther King Jr. na década de 60 e, em 1984, disputou a candidatura democrata à Presidência, diz que a discrepância entre o resultado do voto popular e o dos votos no Colégio Eleitoral é a "real fonte de tensão" hoje no país e defende o fim do sistema indireto.

    Jackson, um dos principais líderes do movimento pelos direitos civis, compara o país rachado de hoje com o cenário da eleição de 1964, quando a Lei de Direitos Civis –que proibia a segregação racial–, ratificada por Lyndon Johnson meses antes, foi o tema central da campanha.

    "Trump não criou essa divisão, mas ele deu voz a ela", afirmou à Folha, durante passagem por São Paulo, onde deu uma palestra na Faculdade Zumbi dos Palmares e participou da premiação do Troféu Raça Negra. Leia abaixo trechos da entrevista.

    Folha - O que a vitória de Donald Trump diz sobre os Estados Unidos de hoje?
    Jesse Jackson - Primeiro precisamos olhar para a natureza dessa vitória. Hillary teve 2 milhões de votos populares a mais, então em um sistema em que uma pessoa equivale a um voto, ela é a vencedora. Mas se o Colégio Eleitoral está acima da população, então ela perdeu. Essa é a contradição da democracia.

    Você também teve casos de repressão dos votos negros. Na Flórida, na Carolina do Norte, na Pensilvânia e em Michigan, o voto negro foi perseguido e reprimido [democratas acusam comitês locais controlados por republicanos de reduzir o número de postos para votação antecipada em regiões com maior população negra]. Na Carolina do Norte, a Câmara republicana comemorou publicamente o fato de conseguirem reduzir o voto negro em 8,5%. Isso mina a integridade do processo.

    Então o Colégio Eleitoral deveria ser abolido?
    Certamente. O Colégio Eleitoral contradiz a democracia. E essa é a real fonte de tensão. Numa democracia real, uma pessoa equivale a um voto.

    Houve uma queda de 11 pontos percentuais na participação de eleitores negros em comparação com 2012. Para o sr., isso se explica apenas pelas táticas de repressão aos eleitores negros?
    A repressão foi um fator importante, porque houve menos acesso aos votos –isso foi calculado. Em Michigan, se formaram grandes filas, máquinas quebraram. O voto antecipado importa.

    Mas parte da comunidade negra se mostrou menos motivada a votar em Hillary do que em Obama em 2012.
    Obama representa a dimensão histórica, tem seu carisma. Você tem o fato de ele ser um ser humano excepcional, mas isso não explica tudo: dificultaram o voto antecipado em muitos Estados. É preciso também olhar para as posições da Hillary: ela apoiou o acesso gratuito à universidade por famílias mais pobres, os direitos das mulheres, maior restrição ao acesso a armas –o que ela defende também defendemos.

    O sr. considera que o voto branco em Trump foi determinado mais pela questão racial do que econômica?
    Apesar de a base de eleitores brancos de Trump mencionar a economia, eles recebem, em média, US$ 70 mil por ano. Então eles não estão exatamente numa situação de pobreza. Há uma certa preocupação econômica, porque a economia afeta todo mundo. Mas, para votar em Trump, é preciso passar por cima de violações de direitos humanos de outras pessoas. O país se polarizou definitivamente.

    O sr. compararia esse momento de divisão com algum outro na história americana?
    Sim. Na Guerra Civil (1861-1865) o país estava profundamente dividido entre um lado que defendia a escravidão e a separação, e outro que queria a abolição. Mas ali era literalmente uma guerra.

    Em 1964, [o republicano Barry] Goldwater representava a segregação legal, para manter o 'apartheid', e [Lyndon] Johnson, a queda de muros. Johnson ganhou essa batalha. Hoje há uma divisão substancial e precisamos escolher entre esperança ou ódio e medo.

    Na sua opinião, o que levou a essa divisão que vemos hoje?
    Trump não criou essa divisão, mas ele deu voz a ela. Algumas pessoas nunca desistiram da escravidão, isso sempre esteve ali. Mas o que torna a América grandiosa é nosso direito de lutar pelo que é certo.

    O que fazer para conter o discurso de ódio?
    Durante a campanha, Bernie Sanders disse que havia uma ferida econômica, assim como Trump. Os dois estavam certos, mas Hillary e Sanders viram uma oportunidade sobre o campo seco, enquanto Trump achou que esse campo deveria ser queimado para que um novo gramado pudesse crescer. A responsabilidade por atear fogo é dele. É ele que tem de convencer agora as pessoas de que a violência não é o caminho.

    O sr. acha que ele tem a intenção real de pacificar o país?
    Se ele mantiver suas promessas, como a de construir um muro na fronteira com o México ou de proibir a entrada de muçulmanos, ele terá problemas. Se ele não fizer isso, diminuirá nas pessoas o medo que ele criou.

    Nós esperamos que Trump governe diferente do modo que ele fez campanha e que as pessoas de seu gabinete possam influenciá-lo positivamente. Mas ele já colocou como secretário de Justiça um homem –Jeff Sessions– cujo histórico é muito ruim em temas como raça e imigração. Indicá-lo é um sinal de possíveis retrocessos.

    Que papel devem ter a oposição e a sociedade civil? É hora para reunificar ou para lutar?
    Precisamos escolher a globalização e não o isolamento. Devemos escolher a mistura de raças e não o racismo. Devemos escolher o ecumenismo e não uma religião. Ataques a imigrantes e repressão de gênero são inaceitáveis. Então haverá monitoramento de perto – e esse é um dos nossos direitos: monitorar.

    É dessa forma que o sr. vê os protestos pós-eleição?
    A Primeira Emenda protege a liberdade de expressão. As pessoas são livres para se expressar até que sejam ouvidas, contanto que não haja violência. Eu acho que as manifestações vão seguir porque o silêncio seria uma traição.

    Na sua opinião, qual parte do legado de Obama está mais ameaçada por Trump?
    A inclusão. Mais americanos têm emprego hoje. O número de mulheres empregadas tem crescido a cada mês nos últimos sete anos. Mais americanos têm plano de saúde hoje. E os republicanos tomaram a decisão de combater tudo o que Obama fez.

    O sr. acha que o Partido Democrata tem que se reinventar depois dessas eleições?
    Não. Se os nossos votos contassem, as pessoas não estariam discutindo o que fizemos de errado. Na democracia você não pode ter uma margem de 2 milhões de votos [e perder]. No caso de Bush, a diferença foi de 537 mil votos [a mais para Al Gore].

    Como o sr. avalia o desempenho do governo Obama com a comunidade negra?
    O primeiro ganho foi psicológico: o fato de um afroamericano se tornar presidente, e desempenhar essa função de forma incrível. Se isso foi feito nos EUA, pode acontecer também no Brasil.

    RAIO-X - JESSE JACKSON

    Nascimento:
    Greenville (Carolina do Sul), em 8.out.1941 (75 anos)

    Formação:
    Sociologia pela Universidade Estadual Agrícola e Técnica da Carolina do Norte

    Carreira:
    Pastor batista desde 1968, militou ao lado de Martin Luther King Jr. pelos direitos civis. Na política, foi pré-candidato democrata à Presidência, em 1984

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