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    Cubanos se atualizam com 'Netflix' pirata

    SYLVIA COLOMBO
    DE ENVIADA ESPECIAL A HAVANA

    03/12/2016 02h00 - Atualizado às 14h53
    Erramos: esse conteúdo foi alterado

    Numa cidade silenciada pelo luto, pela proibição à música alta e pelo clima de feriado, alguns lugares continuam apinhados de gente disputando as novidades do mercado negro. São os pequenos quiosques improvisados no centro de Havana que vendem produtos pirateados.

    Tem tudo nas banquinhas dos piratas cubanos, filmes que recém estrearam nos EUA, novas temporadas de séries consagradas, como "House of Cards" e "Game of Thrones", games e pen drives carregados de música.

    "Não tenho dinheiro para o 'paquete', então venho toda semana e compro por capítulos séries ou novelas a que estou assistindo", diz o comerciante Mario, que na quinta (1º) havia levado um capítulo de "The Walking Dead" e de uma novela mexicana, cada um por dois cucs (a moeda para estrangeiros).

    Mas o que é o tal "paquete"? Trata-se da versão ilegal e inteiramente cubana do Netflix. A cada semana, os usuários do serviço recebem de seus fornecedores –que podem estar nos quiosques ou em lojas de acessórios para telefone– um pacote com novidades em filmes, séries, videogames e programas políticos. "Foi super comum nos últimos meses que as pessoas pedissem para incluir nos pacotes os debates presidenciais dos EUA", diz Boris.

    A venda é feita em mais de um suporte. O usuário pode trazer seu pen drive e carregar na loja mesmo ou trazer CDs livres que são "queimados" com o material do "paquete" e devolvidos no dia seguinte ao cliente. Para ter acesso ao conteúdo renovado semanalmente, deve se pagar ao redor de US$ 10.

    Num país em que a conexão direta à internet é cara e de má qualidade, o acesso a essa pirataria –que não paga impostos e viola direitos de autor– é como encontrar uma mina de ouro. "Como esperar que a gente se satisfaça com a TV estatal e com as coisas programadas pelo governo para que a gente assista?", reclama o estudante Josue. "Nesses dias, então, em só o que vemos são imagens de por onde está passando o ferétro do Fidel pelas cidades do interior, mais ainda." Ele diz admirar o "comandante" e as melhorias que fez a Cuba, mas que "agora que ele está morto, a gente poderia pegar o ritmo em que o mundo está mudando", afirma.

    Origem

    Ninguém sabe dizer exatamente de onde vem o conteúdo vendido pelos piratas, muito menos quem arma os pacotes. Um vendedor instalado no Boulevar San Rafael, a poucas quadras do hotel Inglaterra e uma região super-turística, explica que "há pessoas que têm torres fora de Havana, que fornecem internet potente para baixar esse material. Eu desconfio que seja gente que trabalha para o Estado, porque um cubano comum não tem acesso à internet dessa qualidade".

    Apesar de vender esses produtos, ele diz que não conhece a cadeia que está acima dele. "É tudo muito hierarquizado, eu só recebo o material de quem empacota o 'paquete', um dia antes de sair vendendo."

    Se há gente do Estado ou não metida no negócio, não se sabe, é pura especulação.

    O que é notório é que o governo parece fazer vista grossa para a atividade.

    Os vendedores de rua contam que dificilmente o "rapa" passa por ali, e que alguns policiais da zona são, inclusive, clientes do negócio.

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