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    Ascensão da heroína leva violência e medo ao interior do México

    JOSHUA PARTLOW
    DO "WASHINGTON POST", EM TELOLOAPAN (MÉXICO)

    31/05/2017 17h00

    Nesta cidade agitada à beira da "rodovia da heroína" mexicana, civis armados com espingardas enferrujadas param carros de passagem, pedindo contribuições para a defesa pública. A polícia foi desmembrada anos atrás. O prefeito recebeu uma ameaça de morte recentemente e fugiu no helicóptero do governador.

    Mas é quando a rodovia 51 deixa as colinas ondulantes para trás e segue para oeste, atravessando o vale seco e quente em duas pistas solitárias, que o perigo começa a realmente envenenar a vida da população. Chefões do tráfico conhecidos como "o Homem da Tequila" e "o Peixe" dominam a região como senhores feudais, em guerra um com o outro e com os grupos de justiceiros que se formaram para combatê-los.

    Moradores são sequestrados em grupos. Cadáveres torturados são atirados no vale, largados para apodrecer sobre as calçadas quentes.

    A epidemia de opiáceos que vem causando tanto sofrimento nos Estados Unidos também está devastando o México, contribuindo para uma ruptura da ordem em áreas rurais. Para as quadrilhas do tráfico, a heroína é como um anabolizante que injeta dinheiro e força em sua luta pelo controle do território e das rotas de transporte da droga para os Estados Unidos.

    Yuri Cortez - 7.mai.2017/AFP
    Mulheres fazem protesto em solidariedade às mães dos 43 estudantes desaparecidos no Estado mexicano de Guerrero em 2014
    Mulheres fazem ato em solidariedade às mães dos 43 estudantes desaparecidos em Guerrero em 2014

    Hoje o México fornece mais de 90% da heroína consumida nos EUA. Em 2003, fornecia apenas 10%; naquela época, a fonte principal era a Colômbia.

    A produção de papoulas cresceu cerca de 800% em uma década, acompanhando o aumento da demanda nos EUA. O Estado ocidental de Guerrero está no centro do negócio, produzindo mais de metade das papoulas-dormideiras, o ingrediente de base da heroína. Guerrero também se tornou o Estado mais violento do México, tendo registrado mais de 2.200 homicídios no ano passado.

    "Esses grupos se transformaram numa superpotência criminosa", disse Ricardo Mejia Berdeja, diretor do comitê de segurança do Congresso do Estado de Guerrero. "A âncora do crime organizado é a papoula com a qual se produz a heroína."

    Guerrero produz maconha e papoulas há décadas. Mas no passado o crime organizado era mais estruturado, com um cartel principal no Estado subornando a polícia e autoridades e traficando as drogas. O crescimento vertiginoso do negócio da heroína incentivou a ascensão de novos bandos de traficantes armados, o que, por sua vez, levou ao surgimento de milícias civis.

    Ao longo deste trecho de 180 quilômetros da rodovia 51, na área conhecida como Tierra Caliente (terra quente), sob as encostas acarpetadas de papoulas das montanhas da serra Madre do Sul, o colapso social é claramente visível.

    Mais de 200 escolas vêm fechando as portas periodicamente nos últimos meses, devido às greves de professores para protestar contra a criminalidade deslavada. O Exército mexicano ocupou uma cidade este mês para arrancar o controle das mãos de uma milícia civil que estava ameaçando um povoado vizinho. "Esta é uma terra sem lei", comentou um empresário que trabalha na região.

    EXTORSÃO

    Nicolas Bartolo saiu da rodovia 51 na cidade de Tlapehuala e seguiu na direção sul por uma estrada de terra, passando entre milharais secos. Era a estação da seca, e nuvens de fumaça escureciam o céu devido às queimadas com que os agricultores preparavam suas terras para o plantio. Bartolo fez o sinal da cruz e continuou em frente. "Antigamente éramos livres aqui", ele disse.

    Bartolo trabalha na construção civil e toca guitarra numa banda chamada La Leyenda (a lenda) que se apresenta nas cidades de Tierra Caliente. Quase todo mundo aqui é obrigado a tratar com as quadrilhas do tráfico, que diversificam suas atividades para abranger também a extorsão, sequestros e assaltos.

    Nas obras em que Bartolo trabalha, pistoleiros roubaram caminhões e um gerador movido a energia solar para usar nas montanhas, nas plantações de papoula. Seu empregador é obrigado a pagar pelo menos US$ 300 por mês a um cartel por cada máquina pesada, como escavadeiras, usadas na obra. Se a empresa não paga, corre o risco de sofrer mais assaltos ou ataques.

    A economia da região está sendo asfixiada pouco a pouco pelas quadrilhas criminosas. Empresários dizem que vendedores de mangas, pepinos e outros legumes ou frutas têm que pagar um peso (cerca de US$ 0,05) por cada quilo vendido. Os restaurantes que precisam de frango são forçados a comprar de fornecedores especificados pelas quadrilhas.

    A mina de zinco de Campo Morado, operada pela empresa belga Nyrstar, era uma fonte importante de empregos na região, mas fechou em 2015 devido a "problemas contínuos com segurança", segundo um representante. Moradores da área disseram que os extorsionários estavam exigindo demais.

    Há dez anos, mais ou menos, um cartel de drogas dominava Guerrero: a organização dos Beltrán Leyva. Hoje há pelo menos uma dúzia de quadrilhas que disputam territórios no Estado. Isso se deve em parte ao esforço concentrado das autoridades mexicanas de capturar os líderes de cartéis e fragmentar suas organizações. Mas é também consequência do modo como funcionam a produção e o comércio de heroína.

    A heroína é mais rentável que a cocaína, e seu transporte para os EUA é logisticamente mais fácil. Diferentemente da cocaína, que se origina na América do Sul e é transportada por grandes cartéis mexicanos, a heroína é produzida no próprio México.

    Quadrilhas menores surgiram para competir pelos lucros; algumas são formadas por apenas um punhado de amigos ou parentes. Com o negócio da maconha perdendo força à medida que mais Estados americanos permitem uma produção maior, a heroína ganhou importância ainda maior na economia das quadrilhas.

    Um dos cartéis mais fortes em Tierra Caliente é La Família Michoacana, descendente de uma organização criminosa que anunciou sua chegada mais de uma década atrás, rolando cabeças decepadas sobre o chão de uma boate.

    Seu líder é Johnny Hurtado Olascoaga, conhecido como "El Pez" (o peixe), cuja base de operações fica em Arcelia, cidade à margem da rodovia 51. Por volta de 2012, um de seus principais pistoleiros, chamado Raybel Jacobo de Almonte, "El Tequilero", abandonou a quadrilha e formou seu próprio bando criminoso, com sede em San Miguel Totolapan, a 25 quilômetros de Arcelia.

    Antes o cartel dos Beltrán Leyva controlava os criminosos da região. Desde seu declínio, as quadrilhas de drogas vêm tendo liberdade crescente para praticar sequestros e extorsões, diversificando suas atividades. "Elas tentam uma vez, dá certo, elas ganham dinheiro, então fazem de novo", comentou o antropólogo Chris Kayle, da Universidade do Alabama em Birmingham e especializado no estudo de Guerrero.

    As gangues já sequestraram convidados em casamentos, arrancaram professores de salas de aula e levaram enfermeiras de clínicas. Também sequestraram um amigo de Bartolo. No mês passado Bartolo foi às montanhas entregar um resgate de 200 mil pesos (cerca de US$ 10 mil). Encontrou seu amigo amarrado com arame farpado, com o sangue escorrendo das mãos, ao lado de dezenas de outras vítimas.

    "Quando vi aquela gente toda ali, deu vontade de chorar", ele contou.

    EXPANSÃO

    Nas montanhas que se erguem a partir de Terra Caliente, o tenente-coronel César Bellizia Aboaf, da 35ª Zona Militar do Exército mexicano, liderou um comboio que subiu a montanha, seguindo quilômetros de mangueiras pretas de borracha. Na estação das secas, os agricultores irrigam suas plantações de papoula com água bombeada de poços e riachos. As mangueiras traem sua localização aos soldados.

    Bellizia parou no alto de uma escarpa e olhou para um campo de 2,5 acres de flores rosadas. Seus soldados tinham encontrado o campo alguns dias antes, uma das dez a 15 plantações de papoula que descobrem por dia, e ele os mandara queimá-lo.

    Apesar dessa erradicação regular feita pelos militares, além da pulverização aérea, a produção mexicana de ópio está em franca expansão, alimentada pela demanda americana.

    O número de americanos que informam ser consumidores de heroína quase triplicou entre 2007 e 2014, chegando a 435 mil pessoas, segundo relatório do ano passado da DEA (agência americana de combate ao tráfico de drogas). É parte de uma epidemia de consumo de opiáceos que também inclui o abuso de medicamentos.

    Em 2005, produtores mexicanos plantaram 8.000 acres de papoulas; dez anos mais tarde a área cultivada já alcançava 69.400 acres, segundo as cifras mais recentes das Nações Unidas. Nas montanhas de Guerrero, os produtores plantam o ano inteiro. Quando a flor amadurece, eles passam uma lâmina em volta do bulbo e recolhem em latas vazias de refrigerante ou suco a resina pegajosa, cor de cobre, que escorre dele.

    Os traficantes pagam aos agricultores pobres cerca de US$ 800 por quilo de resina de ópio. Depois de ser processada em barracas nas montanhas, convertendo-se em heroína branca de alta qualidade, cada quilo pode ser vendido por US$ 50 mil nas ruas de Chicago, segundo autoridades policiais dos EUA.

    Para proteger suas plantações e os laboratórios de heroína, as quadrilhas de traficantes de Guerreiro empregam olheiros para identificar visitantes desconhecidos na região e montam barreiras em estradas vicinais. As quadrilhas procuram controlar as cidades ao longo da rodovia 51 porque elas são centros cruciais de fornecimento para a região produtora de papoula, possuindo os últimos postos de combustíveis e as últimas mercearias encontradas antes das estradas de terra que sobem para as montanhas.

    O policiamento na área é fraco, às vezes virtualmente inexistente. Em 2014, em um escândalo que abalou o país, 43 estudantes de pedagogia desapareceram em Iguala, cidade na extremidade leste da rodovia 51, depois de serem detidos pela polícia.

    O governo subsequentemente desmembrou um terço das polícias municipais do Estado por estarem supostamente em conluio com os traficantes, entregando a responsabilidade pelo policiamento das cidades às polícias federal e estadual, já sobrecarregadas. Autoridades locais sabem que podem ser assassinadas ou sequestradas se não cumprirem as exigências das quadrilhas.

    "Uma década atrás, os cartéis davam dinheiro ao governo local para poderem operar. Agora não: são os governos que têm que dar dinheiro aos cartéis para poderem governar", falou um empresário que atua em Tierra Caliente e exigiu anonimato, temendo represálias por manifestar-se contra os traficantes. "Semear o terror entre a população rende bons resultados."

    Soldados mexicanos fazem patrulhas e montam barreiras, mas os moradores acham que os grupos criminosos são mais fortes que eles. O relevo acidentado, a malha viária insuficiente e as autoridades locais comprometidas com o tráfico dificultam o trabalho.

    "Nenhum exército do mundo poderia operar com êxito nesta região", disse o tenente-coronel Juan José Moreno Orzua, vice-chefe e porta-voz da 35ª Zona Militar.

    SEQUESTROS

    A última de estimadas 200 vítimas a ser sequestrada em San Miguel Totolapan foi Isauro de Paz Duque, 37, dono de uma construtora, raptado na rua por pistoleiros em meados de dezembro.

    Ele foi levado pelos homens de El Tequilero, que há anos espalhava o terror na cidade de 3.000 habitantes, com sequestros e assassinatos. Muitos moradores haviam fugido, enquanto outros se escondiam atrás de portas e janelas gradeadas, com medo de sair de casa.

    Enfurecidos pelo sequestro de Paz Duque, os moradores formaram uma milícia, o Movimento pela Paz. Cidadãos de outras regiões mexicanas marcadas pela violência do narcotráfico vêm fazendo o mesmo.

    Mas, em lugar de promover a ordem, os grupos de cidadãos tornaram-se mais um elemento desestabilizador em muitas áreas rurais. Chris Kyle, o acadêmico que estuda Guerrero, disse que desde 2015 houve um aumento acentuado nos tiroteios entre essas milícias que policiam comunidades.

    Membros da milícia de San Miguel Totolapan rapidamente fizeram quase 20 pessoas de reféns, incluindo a mãe de El Tequilero. Em poucos dias já haviam trocado seus prisioneiros por Paz Duque e outros sequestrados.

    Os milicianos tomaram conta da segurança pública, erguendo barreiras reforçadas com sacos de areia nas entradas da cidade e construindo fortes toscos no alto de morros. Os moradores começaram a voltar à cidade, aos poucos. Mas alguns moradores diziam à meia voz que El Pez, o chefão do tráfico rival, estava ajudando a financiar e armar a milícia.

    Com o passar dos meses, enquanto El Taquilero continuava foragido, os milicianos estavam cada vez mais agitados. Alguns achavam que El Tequilero teria se refugiado na cidade vizinha de La Gavia.

    "Se o governo não encontrar uma solução, teremos que cuidar disso nós mesmos", disse Silvino Bernabé, 32, no final de abril.

    No início de maio, membros da milícia invadiram La Gavia e exigiram que os moradores lhes entregassem El Tequilero. Os homens de El Pez, os suspeitos aliados da milícia, os seguiram na manhã seguinte, segundo autoridades de Guerreiro. A troca de tiros entre os seguidores dos dois cartéis durou horas e deixou oito mortos.

    Três dias mais tarde, centenas de soldados e policiais estaduais chegaram a San Miguel Totolapan para desarmar a milícia. Mas os moradores da cidade sentiam pouca confiança no governo. Eles foram para as ruas, incendiaram caminhões e pneus e jogaram pedras nos soldados, que responderam com bombas de gás lacrimogêneo.

    O Exército conseguiu manter controle sobre a cidade, mas El Pez e El Tequilero continuam foragidos. E a heroína que alimenta a violência continua a passar pela rodovia 51, indo para o norte.

    Tradução de CLARA ALLAIN

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