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    Cerco, discurso radical e guerras criam geração perdida de jovens em Gaza

    WILLIAM BOOTH
    HAZEM BALOUSHA
    DO "WASHINGTON POST", EM GAZA

    08/08/2017 07h00

    Eles são a geração do Hamas, criados sob a mão firme de um movimento radical islâmico. São sobreviventes de três guerras com Israel e um cerco. Adultos jovens, eles não estão indo para lugar algum.

    Em muitos lugares na faixa de Gaza, é difícil encontrar qualquer pessoa na casa dos 20 anos que esteja empregada de fato, recebendo salário mensal. Eles se descrevem como a geração desperdiçada.

    Hatem Omar - 31.jul.2017/Xinhua
    Homem palestino carrega saco de ajuda humanitária da ONU em campo de refugiados de Gaza
    Homem palestino carrega saco de ajuda humanitária da ONU em campo de refugiados de Gaza

    Dez anos depois de o Hamas ter tomado controle da Faixa de Gaza, a economia do território de 2 milhões de habitantes foi estrangulada pela incompetência, a guerra e um bloqueio econômico.

    Hoje a faixa de Gaza vive de astúcia e de esmolas recicladas doadas por governos estrangeiros. Sete em cada dez pessoas dependem de assistência humanitária para viver. Os jovens dizem que vivem totalmente entediados.

    Eles se preocupam porque muitos de seus amigos andam devorando drogas, não drogas para terem uma experiência de êxtase, mas tranquilizantes de uso veterinário contrabandeados através do Sinai. Eles tomam overdoses de Tramadol e fumam haxixe. Eles se entorpecem.

    O Hamas vem intensificando as execuções de traficantes de drogas. A liberdade de expressão é circunscrita. Mas os jovens se manifestam, um pouco. Dizem que seus líderes frustraram suas expectativas —e que israelenses e egípcios os estão esmagando.

    Por que não se revoltam? Eles dão risada. Seria muito difícil tirar o governo atual do poder pelo voto —porque não há eleições. "Para ser franco com você, não fazemos nada", disse Bilal Abusalah, 24, que estudou enfermagem, mas às vezes vende roupas femininas.

    Ele tem jeans descolados, uma página no Facebook, um telefone celular e nenhum dinheiro.

    Ele e seus amigos se viram fazendo alguns trabalhos avulsos, algumas horas aqui e ali. Trabalharam num café nas noites movimentadas do Ramadã, em junho. Com o início do ano escolar, em agosto, vão ajudar um tio em sua loja de sapatos. Ganham US$ 10 por dia com esse tipo de trabalho —um pouco de troco para pagar por café e cigarros.

    Abusalah comentou: "Somos a geração que espera".

    Perguntamos a um universitário formado de 25 anos, diplomado em relações públicas, o que ele faz para ganhar a vida. Ele respondeu: "Fico olhando o nada".

    Wissam Nassar - 4.ago.2017/Xinhua
    Palestinos visitam praia na faixa de Gaza; mar no território palestino é poluído por esgoto a céu aberto
    Palestinos visitam praia na faixa de Gaza; mar no território palestino é poluído por esgoto a céu aberto

    MAR MARROM

    O esgoto não tratado deságua nas praias. O mar parece azul na linha do horizonte, onde há patrulhas de embarcações militares israelenses que implementam o bloqueio de 10 quilômetros. Mas a água na arrebentação é marrom e espumosa.

    Os rappers de Gaza enxergam isso como metáfora. Estão literalmente encurralados por seus próprios excrementos.

    A maioria dos jovens da faixa de Gaza nunca saiu do território, nem através de Israel, o que é quase impossível, nem passando pelo posto de travessia de Rafah, na fronteira do Egito, que passou os últimos quatro anos fechado na maior parte do tempo.

    A eletricidade é fornecida apenas quatro horas por dia. O que foi feito dos jovens ativistas nos campos de refugiados que ousaram promover um protesto em janeiro contra os cortes de luz? Foram para a cadeia.

    O mundo empoeirado de Gaza, cinzento como o cimento, funciona a duras penas graças a painéis solares chineses e a diesel egípcio. Os jovens passam seus dias, dia após dia, jogando com seus telefones. Suas palavras são reduzidas a telinhas do tamanho de uma mão, a vídeos do YouTube e bate-papos intermináveis.

    O desemprego chega a 60% entre os adultos jovens da Faixa de Gaza. Não é um simples número divulgado pelo Banco Mundial. É uma cifra espantosa, a mais alta do Oriente Médio e uma das piores do mundo.

    Acadêmicos de think tanks avisam que o índice de desemprego dos jovens egípcios, 30%, representa uma bomba-relógio ativa. Na faixa de Gaza, o índice de desemprego de jovens é o dobro disso.

    O índice de alfabetização na faixa de Gaza é de 96,8%, mais alto que o da Cisjordânia. Houve época em que "o engenheiro palestino" era critério de excelência no Oriente Médio. No passado, a imigração era a porta que conduzia à vida, mas essa porta foi fechada. Poucas pessoas conseguem sair de Gaza hoje em dia.

    No entanto, as universidades do território continuam a formar estudantes aos milhares, apesar do fato de que a pessoa com menos chance de encontrar trabalho em Gaza hoje é um universitário formado, especialmente se for uma mulher.

    As pesquisas mais recentes revelam que metade da população da faixa de Gaza deixaria o enclave, se pudesse.

    "Não acredito nisso", falou Mohammad Humaed, 24, que estudou cinema na universidade mas trabalha duas noites por semana em um café num campo de refugiados. "Todos os jovens iriam embora se pudessem."

    Economistas empregam o termo "des-desenvolvimento" para descrever o que está acontecendo em Gaza. Os jovens de Gaza fazem uma piada para dizer a mesma coisa. Dizem que seus amigos desempregados andam "dirigindo um colchão" —ou seja, passam seus dias deitados na cama.

    Dois anos atrás as Nações Unidas avisaram que a faixa de Gaza pode tornar-se "inabitável" até 2020. Recentemente, representantes da ONU disseram que erraram por excesso de otimismo: o lugar pode desmoronar já em 2018.

    Existem bolsões minúsculos e isolados de riqueza no território, se você souber onde olhar, ao lado de uma classe média remediada. As universidades de Gaza estão cheias de estudantes que fazem de tudo para engrossar suas fileiras.

    Ibraheem Abu Mustafa - 4.ago.2017/Reuters
    Jovens palestinos atiram pedras contra soldados de Israel em confronto na fronteira com a faixa de Gaza
    Jovens palestinos atiram pedras contra soldados de Israel em confronto na fronteira com a faixa de Gaza

    RESISTÊNCIA

    Esta é a geração que cresceu mergulhada no discurso da versão do Hamas da resistência palestina, uma mensagem moralista de devoção religiosa e de oposição a Israel que é martelada na cabeça das pessoas em mesquitas controladas pelo Hamas e acampamentos de verão de estilo militar para crianças e adolescentes, aos quais se ensinam primeiros socorros e como atirar uma granada.

    Em muitas entrevistas, porém, jovens de Gaza usando tênis brancos e jeans rasgados para estar na moda dizem que prefeririam lutar por um emprego em Tel Aviv que combater os israelenses.

    "Se a fronteira fosse aberta, eu iria a Israel agora mesmo para trabalhar. Não tenho o menor problema com isso. Todo o mundo trabalharia em Israel se pudesse", comentou Iyad Abu Heweila, 24, que se formou em letras dois anos atrás, mas agora passa seu tempo sem fazer nada.

    "Não realizei nada", ele disse.

    Heweila pediu para fazer uma confissão. "Sei que é ruim dizer isso, mas às vezes fico imaginando que, se houvesse outra guerra com Israel, quem sabe não haveria trabalho para tradutores. Sei que é horrível falar assim. Estou dizendo isso para lhe mostrar até onde chega o nosso desespero. Quero trabalho. Quero dinheiro. Quero começar minha vida."

    Este verão as noites estão totalmente escuras, agora que o fornecimento de energia elétrica foi reduzido para três ou quatro horas por dia.

    Um grupinho de amigos se reúne todas as noites sobre a laje de uma casa, sentados em cadeiras de plástico ou blocos de cimento. É mais fresco em cima da laje. A brisa noturna vinda do mar agita as folhas das palmeiras, e de um apartamento vizinho vem o som de um representante do Hamas falando em um programa de rádio. Ninguém presta atenção a ele.

    Perguntado sobre o que fez naquele diz, Ahmed Abu Duhair, 25, fala que dormiu até o final da tarde. Ele passa o dia esperando a noite chegar. "Só para podermos conversar, dar risada e fumar em cima da laje. Um pouco de felicidade antes de a gente morrer", disse Duhair.

    "Somos mais que irmãos", ele explicou, enquanto ele e seus amigos passavam o narguilé de mão em mão, dando tragadas fundas do tabaco com aroma de maçã. "Não somos preguiçosos. Trabalhamos desde que éramos meninos."

    Eles começam a contar histórias sobre seus primeiros trabalhos, vendendo isqueiros na rua no meio do trânsito, ajudando feirantes. Eles tinham 8, 9 ou 10 anos na época.

    Eles estavam com inveja de seu amigo Tamer al-Bana, 23 anos, o único do grupo que está casado. Bana tem dois filhos pequenos e um terceiro a caminho. Ele teve que pegar emprestado US$ 7.000 de um parente para se casar e vai levar anos para saldar a dívida.

    Os jovens sobre a laje estão em situação apertada. Os universitários recém-formados, também. Mona Abu Shawareb, 24 anos, concluiu a faculdade de psicologia um ano atrás, mas ainda não recebeu o diploma porque deve dinheiro à universidade.

    Ela se esforça para permanecer ativa. Faz aulas gratuitas de inglês num estabelecimento mantido por uma organização beneficente turca; trabalha como voluntária numa entidade que trabalha com jovens de rua, fez um estágio com a agência de refugiados das Nações Unidas e aprendeu a usar Microsoft Word e Excel.

    Mas, como tantos outros jovens desempregados aqui, ela vive na internet, transmitindo a amigos e seguidores um fluxo constante de atualizações no Instagram, WhatsApp, Facebook e Snapchat.

    Como a maioria das mulheres no território, Shawareb usa trajes conservadores quando sai de casa. Mas confessou que, quando está na internet e vê mulheres no Ocidente correndo em roupas de ginástica, fica com inveja. "Também gostaria de correr", ela disse.

    Mohammad al-Rayyas, 25 anos, contou que sente saudade enorme do Cairo, onde recebeu um diploma de contabilidade. Nos dois anos passados desde que voltou para casa, em Gaza, sua vida atolou em um marasmo.

    "Isto daqui é mais que entediante", ele disse, esforçando-se para encontrar as palavras para descrever o que sente. "O tempo passa muito devagar. Parece que é diferente aqui."

    Ele já tentou encontrar trabalho em sua área —em empresas, bancos, agências humanitárias internacionais. Não encontrou nada. "Não tenho wasta", explicou. "Você sabe o que é wasta?"

    É uma palavra em árabe que pode ser traduzida aproximadamente como pistolão ou contatos. Frequentemente denota um sistema marcado pela corrupção e o nepotismo.

    Rayyas se diferencia de seus contemporâneos pelo fato de já ter viajado, já ter adquirido um gosto da vida no exterior.

    Descrever a faixa de Gaza como uma prisão a céu aberto é um clichê, mas, para muitas pessoas, não apenas parece que não há saída do enclave, mas parece que as paredes estão se fechando em volta delas.

    A faixa de Gaza tem apenas 39 quilômetros de extensão pela linha do litoral —menos que o comprimento de uma maratona. Em sua parte mais estreita, mede 6.5 km de largura. Pode ser atravessada em uma hora.

    O enclave é cercado pela cerca perimetral israelense, cheia de câmeras de vídeo, torres de vigias e metralhadoras operadas por controle remoto. Na fronteira egípcia, que no passado era pipocada por túneis de contrabandistas do Hamas, hoje há uma larga zona de proteção que foi limpa por máquinas de terraplanagem, árida como uma terra de ninguém.

    E a saída pelo mar? Os pescadores de Gaza têm sua passagem bloqueada por embarcações armadas de Israel e são proibidos de passar de dez quilômetros da costa. Para os jovens, o mar que antes lhes proporcionava algum lazer está tão poluído por dejetos humanos não tratados que o Ministério da Saúde aconselha os banhistas a manter distância.

    Muitos homens jovens em Gaza praticam esportes para tentar gastar sua energia. Rayyas é um exemplo disso. Ela acorda às 5h todos os dias no apartamento de sua família e sai para correr dez quilômetros pela avenida à beira-mar. À tarde, anda numa bicicleta que seu pai lhe comprou.

    Frequentemente ele pedala até a fronteira do Egito.

    Antes de dar meia-volta para retornar para casa, Rayyas imagina como seria se o portão da fronteira se abrisse em um toque de mágica. Ele diz que seguiria pedalando até o Cairo.

    Tradução de CLARA ALLAIN

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